Com clima mais quente, Olimpíada de 2072 pode ser muito diferente

Gabriel Francisco Ribeiro

Do UOL, em São Paulo

  • David Goldman/AP

    Calor afeta principalmente provas de longa distância

    Calor afeta principalmente provas de longa distância

O aumento global de temperaturas pode mudar bastante a Olimpíada e até impactar o número de medalhas brasileiras. Pelo menos é o que aponta um relatório do Observatório do Clima, associação que envolve diversas entidades ambientais, divulgado durante a Rio-2016.

Já no início, o relatório alerta que o "esporte no Brasil nunca mais será o mesmo" se a redução de emissões acordada no Acordo de Paris não ocorrer. Para chegar à conclusão, a associação aproveitou os Jogos no Rio para fazer uma revisão da literatura científica sobre o assunto e entrevistou médicos, fisiologistas e atletas sobre o impacto do calor no esporte.

Apesar da mudança climática ser global, o relatório focou os impactos no Brasil – por ser um país tropical, será um dos grandes afetados pelo aquecimento. Para se ter uma ideia, o relatório conclui que, entre 2070 e 2099, 12 capitais nacionais terão restrições à prática esportiva em vários períodos do ano e 23 terão que limitar a prática devido ao desconforto gerado pelo calor forte em todo o ano. Isso considerando que nada será feito para reduzir as temperaturas, que devem se elevar cerca de 4ºC até lá no período mais crítico.

"Condensamos várias informações e fizemos uma coisa nova, que é aplicar os modelos climáticos que já existem do painel do clima da ONU. A gente cruzou isso com o critério de restrição da Fifa, pegou o que o modelo prevê que vai acontecer para as capitais brasileiras", explica ao UOL Cláudio Ângelo, secretário-executivo do Observatório e coordenador do relatório.

Calor castiga atletas da marcha atlética em evento-teste no Rio de Janeiro

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Os autores do relatório avisam que o aquecimento já é uma realidade agora maior no Brasil do que no resto do mundo – as temperaturas por aqui aumentaram em 1ºC entre 1961 e 2015, enquanto o mesmo foi registrado na média mundial no período de 120 anos.

Como exemplos, citam vários problemas com o clima encontrados por atletas em eventos-teste para a Olimpíada do Rio. Nos Jogos, contudo, o calor do inverno carioca não foi alvo de debate, mas causou o desmaio de uma atleta e até fez o poderoso Usain Bolt citar cansaço.

Uma coisa, contudo, é certa: o aquecimento global já muda o horário de algumas competições. A maratona e o triatlo passaram a ser disputados mais cedo em ambientes quentes. O mesmo ocorre com o futebol e o atletismo, com mudanças de horários para amenizar o impacto do clima nos atletas. Com um aquecimento global muito grande, há a possibilidade que o próprio esporte como um todo tenha que se adaptar e até ser praticado em ambientes fechados.

Mas como os atletas são afetados?

A reação do corpo humano ao calor e à umidade é uma simples relação de manutenção da temperatura corpórea, que é de mais ou menos 37º C. Ao fazer um exercício, os atletas se transformam em máquinas: produzem energia e 80% dela vira calor.

"Quanto maior a temperatura e a umidade, mais difícil fica dissipar o calor gerado pelo exercício. O risco de desidratação fica cada vez maior. Os sintomas inicias são tontura, moleza, indivíduo fica um pouco mais lento e perde a precisão do esporte. Isso vai progredir a partir que você for perdendo cada vez mais água. Se a perda passar de 6% ou 7% do peso corporal, vira zona crítica"

Paulo Zogaib, professor de medicina do esporte na Unifesp e um dos entrevistados no relatório

Zogaib ressalta que "se a gente pegar um indivíduo sedentário, quando tem os primeiros sintomas, ele para o exercício. O atleta de alto rendimento, como está bem condicionado, não percebe, continua o exercício e aumenta o risco".

Já Emerson Milani, professor de educação física da Universidade Federal do Maranhão e que também participou do relatório, acredita que o atleta sofre menos, mas que seu rendimento deve cair em eventos prolongados.

Para perceber como a reidratação e alimentação afeta o atleta, há o exemplo da brasileira Ana Marcela Cunha na Olimpíada do Rio. Favorita a uma medalha na maratona aquática, terminou em décimo e apontou como um dos fatores ter passado batido por dois postos onde há a alimentação e a reidratação.

Martin Meissner/AP
Fatma El Sharnouby sai de maca na prova de 800 m por causa do calor

Teremos menos recordes?

Uma das possibilidades levantadas pelo relatório e definida como "tendência" pelo coordenador é de que os Jogos do Rio e as futuras Olimpíadas tenham cada vez menos recordes em algumas modalidades. A expectativa não foi tão confirmada e a olimpíada carioca registrou alguns recordes importantes – provas como maratona, contudo, só costumam apresentar grandes marcas em temperaturas amenas, de cerca de 12º C. 

"Não concordo (que haverá menos recordes). Imagino que o organismo humano vai se adaptando a estas situações, o aumento não vai ser de uma hora para outra. O ser humano é fantástico, se dá um jeito" Zogaib

Outra questão que surge é por que os africanos, em ambientes quentes e inóspitos, são tão bons no atletismo se sofrem com o calor o ano todo? O próprio relatório aborda a questão e diz que estudos não acharam diferenças no DNA de atletas da região, mas que seria uma adaptação humana às condições. Tanto Zogaib como Milani apostam que esta adaptação também ocorrerá se a temperatura aumentar no Brasil, amenizando a influência do clima no desempenho de atletas.

LUCY NICHOLSON/REUTERS
Etíope Ayana Almaz bateu o recorde mundial dos desgastantes 10 mil metros no Rio

As novas tecnologias contra o calor no esporte

Seja com um efeito devastador ou não, o aumento de temperatura já mexe com empresas para deixar atletas cada vez mais tranquilos em competições. Enquanto fisiologistas e médicos citam a importância da adaptação ao clima do local da prova com um mês de antecedência, a preparação em câmeras térmicas e gelo para resfriar o corpo também são usados. Zogaib destaca que a tecnologia é grande aliada: "vão fazer Copa no Catar e vai ter ar-condicionado".

Entre os produtos, há um capacete de gelo que poderá fazer parte do uniforme de modalidades como o atletismo. O objetivo é enganar o hipotálamo, área cerebral que serve como termostato do corpo. Outro é a "garrafa inteligente", em que um cientista analisou a composição do suor de cada atleta, acrescentou aos sais um sabor e tudo foi parar em cápsulas como as de café. Graças a um chip, a tampa da garrafa avisa à equipe técnica quantos goles cada atleta deu e se é preciso ajustar a reidratação.

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