Milhões de abelhas morrem no interior de SP; agrotóxico pode ser causa

Eduardo Schiavoni

Do UOL, em Ribeirão Preto (SP)

  • Acervo pessoal

Pelo menos dez milhões de abelhas morreram nesta semana na região de Porto Ferreira (a 230 km de São Paulo). A estimativa de produtores de mel é que ao menos 200 colmeias de nove apiários tenham sido atingidas. A principal suspeita é de que agrotóxicos aplicados por uma usina em um canavial da região tenham causado as mortes.

O Ministério Público foi acionado e irá analisar se irá entrar com uma ação civil pública para apurar as responsabilidades.

As colmeias ficam na Fazenda Rio Corrente, que cede parte de sua área para a instalação das colmeias e também arrenda terras para a Usina Ferrari, responsável pela aplicação do agrotóxico. As colmeias ficam a algumas centenas de metros da plantação de cana e a suspeita é que a pulverização feita por avião tenha se expandido além da área pretendida pela usina.

"Perdi quase todas a minhas colmeias, e não vou conseguir voltar a produzir em menos de quatro anos. Vou retomar a produção, mas ela será bem menor até lá", conta o apicultor Wanderley Fardin, que estima um prejuízo de R$ 250 mil. 

Nem a Usina Ferrari nem representantes da fazenda informaram a marca do agrotóxico aplicado.

Segundo o biólogo Osmar Malaspina, da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Rio Claro, um estudo realizado no ano passado analisou uma série de caso de mortes de abelha em apiários no interior de São Paulo e concluiu que a principal causa da morte dos insetos é o uso incorreto de agrotóxicos.

"Pelo menos 70% dos casos têm como motivo o uso errado de agrotóxicos", disse. "Isso quer dizer uso acima da dosagem recomendada e aplicação em locais onde não o produto não deveria ser aplicado. Não podemos ser contra os inseticidas e agrotóxicos, mas eles devem ser usados dentro das determinações."

Wanderly conta que a mortandade de abelhas acontece todo ano, mas nunca nessas proporções. "Eu tenho perto de 200 colmeias. Todo ano perco entre 20 e 30 por conta dos agrotóxicos, mas acabamos dividindo as colmeias e repondo as perdas. Agora, não sobrou nada para repor", explicou.

Inseto é fundamental para polinização

O apicultor conta que as mortes começaram a ocorrer no início da semana, pouco depois de a Usina Ferrari realizou uma aplicação de agrotóxico em canaviais da região. "Acho que eles erraram a mão e acabaram com as abelhas. Até eu mesmo passei mal", disse Wanderley, que registrou boletim de ocorrência e afirmou que pretende cobrar os prejuízos na Justiça.

O biólogo da Unesp diz as abelhas são fundamentais para a polinização das plantas e que, por isso, a morte de uma grande quantidade delas pode ter impacto direto no meio ambiente. 

"A polinização por abelhas é de extrema importância tanto no aspecto ecológico, quanto econômico e social. Por isso, é essencial encontrarmos uma forma de as aplicações de agrotóxico não dizimarem colmeias inteiras."

Segundo Wanderley, a Usina Ferrari informou aos apicultores que enviou uma bióloga até o local da mortandade de abelhas e que irá apurar se o agrotóxico causou as mortes. 

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