PUBLICIDADE
Topo

Alterações no clima ajudam a criar nuvens de gafanhotos, diz pesquisadora

Avanço de uma nuvem de gafanhotos colocou as autoridades argentinas em alerta - Reuters
Avanço de uma nuvem de gafanhotos colocou as autoridades argentinas em alerta Imagem: Reuters

Do UOL, em São Paulo

02/07/2020 08h22Atualizada em 02/07/2020 11h12

A historiadora ambiental Valéria Fernandes, doutora pelo Laboratório de História e Natureza da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) afirmou em entrevista ao jornal O Globo que as alterações climáticas abruptas facilitam a formação de nuvens de gafanhotos, como a que chegou à Argentina na semana passada.

A pesquisadora contou que os insetos são velhos conhecidos da região Sul do Brasil e podem ter alcançado as dimensões atuais por conta de uma desatenção dos países vizinhos.

Valéria, que é autora do trabalho "La lucha contra la langosta (a luta contra o gafanhoto): processos biossociais na América do Sul (Argentina, Brasil e Uruguai, 1897-1952)", defende que a formação das nuvens de gafanhotos está relacionada com as alterações climáticas.

"O calor favorece as nuvens migratórias porque os gafanhotos são ajudados pelas térmicas e voam mais alto e mais longe. Mas não é só o calor. São as alterações abruptas. Na África, sabemos que o gatilho foi uma chuva intensa fora de época. São sinais de desequilíbrio do planeta", afirmou.

Ela acredita que a nuvem que se assombrou as plantações argentinas só atingiu essa proporção porque os países falharam na vigilância dos insetos "devido à pandemia de coronavírus, que prejudicou todo o trabalho".

"Não se sabe nem de onde essa nuvem veio exatamente, se da Bolívia, da Argentina, do Paraguai. Ninguém quer assumir a 'paternidade' do gafanhoto", declarou ao Globo.

Velhos conhecidos

O Serviço Nacional de Saúde e Qualidade Agroalimentar (Senasa, na sigla em espanhol), uma agência do governo argentino, emitiu o primeiro alerta em 11 de maio após ser avisada por autoridades paraguaias que a nuvem se dirigia em direção à fronteira entre os dois países. Desde então, o Rio Grande do Sul segue observando de perto os gafanhotos.

No entanto, os gafanhotos são velhos conhecidos dos países da região. De acordo com Valéria, os insetos estão presentes nessa área há muito tempo, mas eles só passaram a causar problemas nas plantações com a expansão da fronteira agrícola do Sul.

"A tese aborda justamente a história biossocial das pragas de gafanhotos na América do Sul. Durante os anos de 1896 e 1952, os gafanhotos migratórios sobrevoaram sua região ecológica, nos territórios de Argentina, Brasil, Uruguai, Bolívia e Paraguai", contou.

As nuvens, no entanto, não são tão frequentes porque, segundo a historiadora, os gafanhotos se agregam apenas ocasionalmente. Valéria ainda ressalta as políticas de controle aplicadas pelos países da região para conter o inseto. "Realizaram, em Montevidéu, de 1913 a 1948, reuniões internacionais para abordar o problema de forma conjunta. Em 1948, fundaram o Comitê Interamericano Permanente Antiacridiano", citou.

Ciclone bomba

O frio trazido pelo ciclone bomba que atinge a região Sul do Brasil pode frear a chegada da nuvem de gafanhotos no país, de acordo com o meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).

"O frio trazido pelo ciclone deve acabar com eles. Pode gear e até nevar nas serras do Sul e isso é um obstáculo intransponível para os gafanhotos, que não sobrevivem em tão baixas temperaturas", disse em entrevista ao jornal O Globo.

Meio Ambiente