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Efeito estufa: Gases devem ser zerados até 2030, não em 2050, revela estudo

Imagem ilustrativa; ONU reúne 196 países para a COP26, em Glasgow (Escócia) e questão deve ser discutida - SCIENTIFIC VISUALIZATION STUDIO/GODDARD SPACE FLIGHT CENTER
Imagem ilustrativa; ONU reúne 196 países para a COP26, em Glasgow (Escócia) e questão deve ser discutida Imagem: SCIENTIFIC VISUALIZATION STUDIO/GODDARD SPACE FLIGHT CENTER

Do UOL, em São Paulo

26/08/2021 04h00Atualizada em 26/08/2021 18h30

Cientistas que compõem o CCAG (Conselho Consultivo de Crise Climática) advertiram em relatório divulgado nesta quarta-feira (25) que chegar a zero emissões de gases de efeito estufa até 2050 agora é "tarde demais". Segundo o documento, não será possível atingir as metas firmadas por diversos países no Acordo de Paris, em 2015, que pretendiam limitar o aquecimento global a 1,5 ºC até o final do século. Para uma mudança nesse cenário, metas precisam ser adiantadas para 2030 e não apenas isso.

"Quando você olha a trajetória das emissões, de aumento da temperatura, isso não é suficiente. Precisamos atingir antes essa neutralidade de carbono e, ao mesmo tempo, trabalhar no sequestro de carbono. Não basta compensar cada tonelada emitida, que seria a neutralidade, você tem que aumentar o sequestro nessa fase que a gente chama de 'emissões negativas'", explica Mercedes Bustamante, professora da UnB (Universidade de Brasília) e integrante do CCAG, em entrevista ao UOL.

Baseados em descobertas publicadas recentemente pelo Sexto Relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), os 15 cientistas de dez países afirmam que as atuais metas de emissões globais dos países são inadequadas e que estratégias de emissões negativas precisam ser feitas para minimizar os impactos do aumento da temperatura global.

O relatório sugere que mesmo que os países atinjam zero emissões de gases de efeito estufa, isso não vai fazer impacto para os mesmos gases que já estão na atmosfera, chegando a concentrações de gás carbônico (CO²) de até 540 partes por milhão. O que significa que resta pouco ou nenhum espaço para reverter esse cenário, com "apenas 50% de chance de manter a linha de 1,5 ºC".

"Se a gente já está percebendo impactos na mudança do clima agora que a gente tem um incremento de 1,1 ºC, teremos mais impactos chegando em 1,5 ºC", diz Mercedes. Com pouco mais de dois meses para a COP 26, Conferência sobre Mudanças Climáticas da ONU em Glasgow, na Escócia, o grupo pede mudanças efetivas dos líderes globais dando ênfase para as metas de emissões negativas, sendo a única forma viável de garantir mesmos níveis de gases do efeito estufa iguais ao período pré-industrial, pelo Acordo de Paris.

Se isso não acontecer, é possível que as temperaturas globais ultrapassem os 1,5 ºC já em 2030, com consequências perigosas das mudanças climáticas. "Alcançar emissões zero até 2050 não é mais suficiente para garantir um futuro seguro para a humanidade; devemos revisar as metas globais e nos comprometermos com estratégias negativas de emissão de gases de efeito estufa urgentemente", comenta David King, ex-conselheiro de ciência do Reino Unido que encabeça o CCAG, em entrevista à Agência Bori.

Papel do Brasil

Mercedes diz que o relatório possui uma forte mensagem para a urgente necessidade de redução de CO² da atmosfera. Países que possuem grandes áreas de florestas e ecossistemas naturais, como o Brasil, desempenham importante papel na retirada de carbono da atmosfera e podem contribuir mais ao restaurar áreas já degradadas.

"Países que têm essa grande extensão de sistemas naturais, sobretudo nessa região tropical, têm uma contribuição importante para dar. O Brasil pode contribuir primeiro reduzindo as emissões do desmatamento e, ao mesmo tempo, favorecendo a conservação e a regeneração das florestas para elas continuarem sequestrando carbono", afirma a professora da UnB.

Estudos já indicam que algumas partes da Amazônia impactadas pelo desmatamento, queimadas e mudança global, deixaram de retirar e passaram a ser fontes de carbono para a atmosfera, cenário que o mundo não precisa. Até mesmo a agricultura, que tanto ameaça o bioma com seu avanço, possui alternativas de sistemas agropastoris para a redução das emissões e aumento do sequestro de CO² e isso pode ser aplicado.

"O relatório é um recado importante para os tomadores de decisão, de que [há] pouco espaço de manobra. A gente tem duas contas que não vão fechar: as emissões aumentando e o tempo reduzindo. Então é importante que os tomadores de decisão se preparem para que essa reunião em Glasgow seja um ponto de virada na ação política de combate às mudanças no clima", finaliza.

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