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Ficção x realidade: ataques de tubarões são superestimados

Tubarão-lixa no Atol das Rocas (RN) - Arquivo Pessoal
Tubarão-lixa no Atol das Rocas (RN) Imagem: Arquivo Pessoal

Otto Gadic

Especial para o UOL

21/12/2021 04h00

Os acidentes com tubarões no litoral norte de São Paulo em novembro passado causaram grande alvoroço. Oportunismo e hipocrisia reinaram. Um grão de areia virou praia, gerando mais problemas do que os acidentes em si. Muito foi dito e pouco foi informado.

Com a chegada do verão e o grande número de pessoas nas praias, parece ser um momento para esclarecer alguns pontos. Para o bem dos humanos e dos tubarões.

No ambiente de praia, esses encontros são raríssimos e estatisticamente insignificantes se comparados a outros problemas —afogamentos, queda de raios, queimaduras por água-viva ou ferroadas de bagres mortos.

São cerca de 60 casos anualmente no mundo, com média de 7% de mortes. Há exagerado medo, pela histórica má fama imputada a esses animais, construída com percepções equivocadas nutridas por inverdades ("fake news" já os assolam há décadas).

O marco emocional foi estabelecido pelo filme "Tubarão" (1975). A ficção não encontra base na realidade.

No Brasil (exceto pela Região Metropolitana de Recife) não se justificam, até o momento, medidas como o temporário fechamento de praias, colocação de placas de aviso ou a oficialização do alarde. Isso causaria mais impacto negativo, passando a ideia de que o problema é maior do que a realidade mostra.

Nestes momentos, é preciso comunicar. Oferecer à população informações qualificadas e contextualizadas sobre o tema e estabelecer ações educativas baseadas na ciência.

Tais medidas podem ser viabilizadas pelo poder público, meios de comunicação de massa, ONGs e demais atores sociais interessados, visando à adoção de condutas preventivas compatíveis, sem pânico ou mudança de rotina. Gerar informação e não desinformação.

Os acidentes são resultado da invasão do mar pelo homem.

Com o aumento demográfico humano, cresceram as populações em áreas litorâneas, levando ao maior número de pessoas entrando nos oceanos.

Tubarões não saem da água para morder ninguém. É inacreditável que isso precise ser dito.

O mar é seu ambiente natural. Sempre estiveram ali. Nós é que estamos nos aproximamos cada vez mais deles. Não o contrário.

Em tempos passados havia mais tubarões, menos pessoas na água e menos acidentes. Hoje há menos tubarões, mais pessoas na água e mais acidentes. Simples assim.

Esse aumento demográfico humano trouxe consequências muito mais sérias do que mordidas de tubarões. A degeneração física e química do ecossistema marinho alterou de forma dramática o curso natural desse ambiente.

No caso dos tubarões, gerou fatores estressores à sua qualidade de vida, como queda na disponibilidade de seu alimento, perda de áreas para reprodução, mudanças nos seus padrões de movimento e até problemas de saúde ocasionados pela cada vez mais intensa poluição química, esse sim, um problema merecedor da atenção daqueles que usam seu tempo discutindo "problemões" como "os ataques de tubarões assassinos".

A lista das consequências danosas dessa degradação é digna de filmes como "O Dia Depois de Amanhã" (2004) e vai cobrar preços cada vez mais altos, numa inflação mortal e sem volta.

A saúde dos oceanos passa pela conservação dos seus habitantes, incluindo os tubarões. Oceano sem vida significa planeta sem vida, incluindo a nossa.

Em condições ambientais aceitáveis, esses predadores prestam serviços fundamentais ao ecossistema marinho, mantendo as taxas populacionais de suas presas, que por sua vez também interagem ecologicamente com os organismos dos níveis mais baixos da cadeia alimentar, até chegar a sua base: os fitoplânctons, micro-organismos compostos principalmente pelas algas fotossintetizantes e que produzem mais de 50% do oxigênio da Terra.

Acidentes com tubarões e problemas ambientais devem sempre estar na mesma discussão, já que normalmente os primeiros resultam do segundo.

Dezenas de milhões de tubarões morrem por ano no mundo, principalmente pelas pescarias. Sua biologia não permite que eles consigam repor as perdas. Morrem mais do nascem.

Cerca de 1/3 das espécies de tubarão sofre ameaça de extinção, segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). Ainda assim, não há comoção pública importante sobre isso.

Mais fácil apoiar a preservação de golfinhos, baleias e tartarugas marinhas (realmente necessárias, óbvio), do que a de tubarões.

A opinião popular é um instrumento poderoso de pressão junto aos órgãos governamentais. A falta de informação gera falta de sensibilidade e empatia em relação a essas magníficas criaturas.

Quando tubarões machucam humanos temos um problema local superestimado. Quando eles são machucados pelos humanos temos um problema global subestimado. Infelizmente o filme "Tubarão" assusta mais do que "O Dia Depois de Amanhã".