Diálogo de Lula com ditaduras tem auge com visita de Ahmadinejad

Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Lula pode perder
prestígio com a visita
de Ahmadinejad?


A política externa do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estreitou laços com nações africanas, árabes e asiáticas, trouxe encontros polêmicos entre o mandatário brasileiro e membros de regimes acusados de crimes contra os direitos humanos, fraudes em eleições e cerceamento da oposição e da imprensa. A controversa visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, é o ápice de um movimento que coloca o país como principal potência latino-americana a ter interlocução com governos desse tipo.



O conservador presidente do Irã, que assumiu o cargo após uma eleição que gerou protestos por suspeita de fraude, foi recebido por Lula na segunda-feira (23) para a primeira visita de um mandatário persa ao Brasil. Na pauta, conversas sobre o Oriente Médio, a crise gerada pelo programa nuclear de Teerã e possibilidades de investimento no país que desde 1979 é uma fechada teocracia islâmica. Entidades judaicas, feministas e gays protestaram contra a comitiva iraniana, em especial no Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.

As polêmicas de Mahmoud Ahmadinejad

  • AP

    Antes de sua surpreendente vitória nas eleições presidenciais de 2005, Mahmoud Ahmadinejad foi prefeito da capital Teerã.

    Filho de um ferreiro, mudou-se do norte do Irã para a capital com sua família durante a infância; mais tarde, doutorou-se em engenharia civil.

    Durante a corrida eleitoral de quatro anos atrás, Ahmadinejad prometeu dedicar aos pobres o dinheiro que o país consegue com o petróleo, mas durante seu governo o país encontrou graves problemas econômicos, em parte devido a sanções internacionais.

    Ahmadinejad, 52, casado, pai de três filhos, ficou conhecido por seus comentários polêmicos, entre os quais a negação do Holocausto, o desejo de "tirar Israel do mapa" e declarações homofóbicas.

    Ele reivindica o direito de enriquecer urânio no Irã para gerar energia elétrica, um programa que Israel e os Estados Unidos acusam de ter fins bélicos.

    Foi reeleito em 12 de junho deste ano para seu segundo mandato presidencial, com quase 63% dos votos.

Desde 2003, o governo brasileiro aumentou seu interesse em dialogar com nações fora do eixo desenvolvido, inclusive com cúpulas com árabes e africanos, que acabaram colocando Lula, cuja carreira política é ligada ao combate à ditadura brasileira (1964-1985), ao lado de membros de regimes condenados internacionalmente pela falta de eleições livres, repressão a minorias e violações dos direitos humanos. Até agora pelo menos 12 deles fizeram visitas oficiais ao Brasil e outros se reuniram com o brasileiro no exterior.

Na categoria se enquadram líderes de sociedades sem liberdades democráticas e com poderes concentrados nas mãos de um único líder, o que não enquadra juntas militares ou outros sistemas de direção colegiada, e regimes ditatoriais não-pessoais. Nesse critérios, se enquadravam no momento de suas visitas os representantes de Burkina Fasso, Angola, Gâmbia, Guiné Equatorial, Cuba, China, Vietnã, Paquistão, Cazaquistão, Jordânia, Uzbequistão e Irã.

No governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), com diplomacia mais voltada às grandes potências, pelo menos um líder desse tipo foi recebido no Brasil: o peruano Alberto Fujimori.

Lista de presença
Além de Ahmadinejad, polêmico por negar o Holocausto que matou 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, exortar pela aniquilação de Israel e declarar que o homossexualismo pode acabar com o mundo, Lula recebeu também neste ano, em maio, outro líder polêmico: ditador do Uzbequistão, Islam Karimov - governante da ex-república soviética desde 1991 e acusado de promover tortura, fraudes eleitorais e perseguição a adversários para se manter no poder.

"É um dos governos mais repressivos do mundo e pouco tem sido feito para mudar essa situação", disse na época da visita dele ao Brasil a analista Veronika Szente, em um relatório da ONG Human Rights Watch para Ásia Central e Europa.

No primeiro ano do mandato de Lula, quando voltou a ser aplicado no Ministério das Relações Exteriores o que os diplomatas chamam de "pragmatismo responsável", apenas um ditador foi a Brasília, em setembro: Blaise Compaoré, que desde 1987 ocupa o governo de Burkina Fasso graças a um golpe militar. A visita do dirigente do país serviu para reforçar laços na "relação Sul-Sul" pretendida pelo Palácio do Planalto, que na época arquitetava a cúpula América do Sul-África.

Em 2004, em meio à superação da crise econômica gerada antes da eleição de Lula, o Brasil recebeu os dirigentes de duas ditaduras não personalistas em novembro: o chinês Hu Jintao, em novembro, e o vietnamita Tran Duc Luong. Nas duas fases anteriores de "pragmatismo responsável", durante o curto governo de Jânio Quadros (1961) e o do general Ernesto Geisel (1974.1979), as relações com a China comunista também geraram críticas - embora ali houvesse contexto da Guerra Fria e poder de menos em Pequim para justificar a aproximação sem gerar recriminações no Brasil.

No fim do mesmo mês, recebeu o então ditador do Paquistão, Pervez Musharraf, general apoiado pelos Estados Unidos depois de dar um golpe militar. Guardião de armas nucleares em uma região da Ásia onde se abrigam membros do grupo terrorista Al Qaeda, o militar acabou forçado a renunciar em 2008 depois de mobilizações populares no país muçulmano.

O ditador da Gâmbia, Yahya Jammeh, foi o único do seleto grupo recebido no país em 2005. Militar, ele assumiu o poder depois de um golpe de Estado em julho de 1994. Suas reeleições são cercadas de suspeitas de fraude. Em 2006, ano em que Lula disputou sua própria reeleição - essa sem reparos da comunidade internacional - vieram ao país apenas representantes eleitos em votações livres.

Demorou até setembro de 2007 para um novo líder controvertido vir ao Brasil. O ditador do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, ocupa o governo desde 1991 e é cercado de acusações de violações aos direitos humanos, censura à imprensa, fraudes eleitorais e perseguição a oposicionistas.

Saiba mais sobre o Irã

  • Reprodução/CIA

    A bandeira do Irã é formada por três faixas de mesma largura, uma verde, uma branca e uma vermelha. O emblema nacional - a palavra Allah (deus) com uma caligrafia em forma de tulipa - é estampado ao centro da bandeira, na faixa branca, em vermelho. A expressão Allah Akbar (deus é grande), escrita em branco, é repetida 11 vezes na parte superior da faixa vermelha e 11 vezes na parte inferior da faixa verde

  • Arte UOL


    Forma de governo: República teocrática islâmica

    Área: 1.648.195 km²

    População: 66.429.284

    Religião: muçulmanos (98%: 89% xiitas e 9% sunitas), e outros

    Idiomas: persa e dialetos persas (58%), turco e dialetos turcos (26%), curdo (9%), e outros

    Recursos naturais: Petróleo, gás, carvão, cobre, ferro

    Exportação: principalmente petróleo e derivados, frutas e tapetes, vendidos para China, Japão, Índia, Coreia do Sul, Turquia e Itália

    Importação: bens de consumo, bens de capital, alimentos e serviços, comprados dos Emirados Árabes Unidos, China, Alemanha, Coreia do Sul, Itália, França, Rússia

Em fevereiro de 2008, Lula recebeu o ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguema, que é um dos mais antigos no poder na África: ocupa o cargo desde 1979 graças a um golpe militar e eleições consideradas fraudulentas pela comunidade internacional. Em outubro daquele ano veio ao país o rei da Jordânia, Abdullah 2º, governante desde 1999 e que exerce poder autocrático com domínio completo sobre o Judiciário e o Legislativo. Na última segunda-feira, ele dissolveu o Parlamento sem dar justificativas. Em dezembro chegou o ditador de Cuba, Raul Castro, irmão de Fidel - líder esquerdista histórico com vínculos antigos com o mandatário brasileiro e com o PT.

A lista se fecha com as vindas de Karimov e Ahmadinejad neste ano.

Pragmatismo responsável
Para Williams da Silva Gonçalves, professor de história das relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em política externa brasileira, os encontros com líderes desse tipo não são censuráveis porque vêm naturalmente para um país com aspirações internacionais como o Brasil. "A política externa brasileira é universalista, que enfatiza as relações sul-sul. É atenta para tudo que se passa na África, na Ásia e na América Latina. Essa é uma marca distintiva do governo do presidente Lula", disse ele ao UOL Notícias.

"As pessoas têm que se acostumar: um país que é interlocutor obrigatório se envolve em questões polêmicas. Não podemos confundir as coisas e pensar que vamos ter um relacionamento externo pautado por princípios e morais. O relacionamento do Brasil com o Irã é político. O Brasil não vai ser diferente dos demais. O nosso comportamento tem que ser pragmático, não somos um país de anjos no meio de um universo de demônios. No meio internacional, esses encontros não arranham nosso prestígio, porque demonstram a capacidade da diplomacia brasileira. Algumas situações são polêmicas, mas isso faz parte e não acontece com países irrelevantes", comentou.

O programa nuclear iraniano, que Ahmadinejad diz ter fins pacíficos e que foi apoiado por Lula, é também de interesse do Brasil, de acordo com o professor. O Ocidente teme que a iniciativa de Teerã sirva para disfarçar uma tentativa de construir armas atômicas para ameaçar Israel - um país que o presidente iraniano já afirmou que quer ver "aniquilado".

"Por que nós vamos ficar contra o uso pacífico? Nós aqui, por exemplo, temos que ter o submarino atômico, temos um litoral vastíssimo e precisamos defender isso. Se eles não puderem nós também não podemos? Essa é uma questão que nos diz respeito", afirmou. A Constituição brasileira veda a exploração de energia nuclear para fins bélicos, o que não acontece na teocracia iraniana.

Apesar de empresários iranianos terem vindo ao Brasil e os presidentes terem insistido na necessidade de aumentar o fluxo comercial dos países, hoje quase inexistente, Gonçalves acredita que esse aspecto da visita de Ahmadinejad é menor. "A questão não é investir no Irã, é ser um interlocutor", completou.

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