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Presidente do STF nega crise institucional após divulgação de encontro de Gilmar Mendes com Lula

Ayres Britto, presidente do STF, negou crise institucional após episódio Mendes x Lula - Márcio Neves 12.abr.12/Folha
Ayres Britto, presidente do STF, negou crise institucional após episódio Mendes x Lula Imagem: Márcio Neves 12.abr.12/Folha

Camila Campanerut

Do UOL, em Brasília

30/05/2012 16h10

O presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) Carlos Ayres Britto afirmou nesta quarta-feira (30) que o Judiciário está "imune" a episódios como o que aconteceu entre o ministro Gilmar Mendes e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que teria pedido ajuda ao magistrado para adiar o julgamento do mensalão em troca de “proteção” na CPI Mista (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investiga os negócios do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

“Nós somos experimentados no enfrentamento de situações de toda ordem e isso não nos tira do eixo. Não perderemos o foco, que é o nosso dever de julgar todo e qualquer processo, inclusive este chamado de mensalão”, garantiu Britto.

O assunto veio à tona depois de publicação de reportagem da revista "Veja" deste fim de semana sobre o encontro de Lula e Mendes em abril.

Indignado com o vulto do que a notícia tomou, Gilmar Mendes concedeu ontem (29) à tarde uma entrevista negando que tenha pego carona com um jatinho fornecido pelo bicheiro Carlos Cachoeira, em abril do ano passado, quando voltava da Alemanha para o Brasil, na companhia do senador Demóstenes Torres (ex-DEM-GO).

Mendes apresentou documentos que comprovam que ele esteve na Europa entre os dias 12 e 25 de abril para participar de um evento acadêmico na Universidade de Granada (Espanha) e que as passagens de ida e volta foram pagas pelo STF e custaram R$ 16,1 mil.

“Não viajei em jatinho coisa nenhuma. Até trouxe para vocês [documentos] para encerrar esse negócio. Vamos parar com fofoca. A gente está lidando com gângsteres. Vamos deixar claro: estamos lidando com bandidos. Bandidos. Bandidos que ficam plantando essas informações”, afirmou Mendes ontem.

Mendes confirma, no entanto, que foi duas vezes à Goiânia a convite do senador Demóstenes, acompanhado de outros ministros como Dias Toffoli (STF) e Fatima Nancy (do Superior Tribunal de Justiça). “ [Com] Avião que ele [Demóstenes Torres] colocou à disposição. Tudo combinado e muitos de vocês já ouviram. Tenho tudo anotado. Era avião da empresa Voar. Vamos dizer que eu tivesse pego um avião que ele tivesse me oferecido? Eu tinha algum envolvimento com o eventual malfeito dele? Que negócio é esse? Grupo de chantagistas, bandidos. Desrespeitosos”, completou Mendes.

A reunião de ontem da presidente Dilma Rousseff com o presidente do STF, Ayres Britto, reforçou os rumores de que o assunto em questão era o mal-estar entre os poderes pela suposta tentativa do PT de influenciar um ministro da Corte Suprema do país. No entanto, por meio de notas oficiais divulgadas na manhã de hoje, Dilma e Britto negaram que o tema tivesse sido pauta do encontro, e utilizaram os mesmos termos para descrever o assunto debatido: a participação do Judiciário na Conferência da Rio+20 e assuntos administrativos dos Poderes Executivo e Judiciário.

No intervalo da sessão, Ayres Britto afirmou que a visita que fez ontem à noite ao ministro Gilmar Mendes “não foi para se solidarizar ou recriminá-lo” com relação às palavras do colega em ataque aos petistas, mas “somente para troca de ideias”. Disse ainda que não “há gravidade suficiente” no caso para que a Suprema Corte se manifeste oficialmente em defesa de Gilmar Mendes e acrescentou que o ministro também não fez nenhum pedido nesse sentido.

A avaliação do presidente da Suprema Corte sobre o embate entre Lula e Mendes segue a mesma linha do também ministro do STF Marco Aurélio Mello. Ele classificou o caso de “lamentável”, mas frisou que “as instituições são muito mais fortes do que os ocupantes dos cargos”.

“A preocupação de Lula é compreensível. Ele está integrado a um partido, inclusive, há quem diga, que ele seja o partido [PT] (...) o que discrepou da normalidade é quanto a uma contraprestação de proteção ao ministro Gilmar Mendes, que não precisa ser protegido”, argumentou Mello.

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