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PMs passaram por lavagem cerebral do Exército na ditadura, diz coronel torturado em SP

Carlos Madeiro

Do UOL, em Maceió

11/11/2013 15h21Atualizada em 11/11/2013 21h35

O coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo Vicente Sylvestre afirmou nesta segunda-feira (11), em audiência pública na Assembleia Legislativa de São Paulo, que os militares do Exército intervieram na corporação e realizaram uma "lavagem cerebral" nas PMs do país durante a ditadura.

O depoimento ocorreu durante audiência da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e da Comissão Estadual da Verdade (CEP) com militares da Resistência Democrática à Ditadura.

Na audiência, foram analisados casos como o de um tenente e um coronel da PM paulista assassinados sob torturas no DOI-Codi, dois meses antes do assassinato de Vladimir Herzog.

Sylvestre, 82, chegou a ser preso, torturado e expulso da PM no anos 70, mas acabou sendo reconduzido ao cargo, anos depois, por decisão judicial.

Em depoimento nesta segunda, o militar --que foi chamado de herói por integrantes da comissão que presidiram a sessão-- disse que os generais temiam ingerências da esquerda dentro das polícias e decidiram tomar os comandos das corporações pelo país.

“O governo militar não confiava nas polícias. Por isso tomou os comandos das polícias, passando-o para um oficial do Exército. Quando tomaram a direção das PMs, veio uma verdadeira lavagem cerebral. As polícias tinham de estar na defesa do governo que se instalou. Esse é o objetivo principal”, disse.

 

Para o coronel reformado, no momento em que assumiram o poder das PMs, O Exército fez com que as corporações mudassem a posição, e os militares deixaram de lado a missão de proteger as pessoas.

“A partir daí, a obrigação de ser força pública, a doutrina de ser guarda civil para dar a segurança desapareceu, e apareceu a da segurança do Estado. A lavagem foi tão grande que até hoje persistem os efeitos", afirmou, citando que vê mudanças lentas no perfil atual das polícias.

"A gente nota que há uma preocupação do comando da PM em modificar a formação dos jovens policiais, deixando de ver o povo como o inimigo número 1. Isso acontece especialmente aqui em São Paulo”, afirmou.

Torturas

Vicente Sylvestre também aproveitou para relatar as torturas que sofria no DOI-Codi por ser filiado ao Partido Comunista.

“Nunca tiraram o capuz [para me torturar]. Eu não identificava as pessoas, só identificava duas delas: o doutor Douglas, que era um torturador; e o 'japonês'. No resto, eu nunca via. Sempre tiveram esse cuidado”, relatou, citando que foi expulso da corporação sem direito a advogado.

O militar também contou que, à época na chefia de um dos batalhões da PM paulista, se recusou a invadir a Faculdade de Filosofia. “Eu disse que não ia cumprir a ordem. Disseram que era ordem do governador. Aí disse: quero por escrito, senão não cumpro. Invadir a Faculdade de Filosofia, não vou”, disse.

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