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Coronel volta atrás e nega ter ajudado a ocultar o corpo de Rubens Paiva

Daniel Marenco/Folhapress
O coronel Paulo Malhães presta depoimento na Comissao da Verdade, no Arquivo Nacional, nesta terça-feira (25) Imagem: Daniel Marenco/Folhapress

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

25/03/2014 17h37Atualizada em 25/03/2014 18h45

O coronel Paulo Malhães disse nesta terça-feira (25), em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, não ter executado a missão de desaparecer com o corpo do ex-deputado Rubens Paiva, preso e torturado durante o regime militar, porque recebera, de última hora, uma "outra incumbência".

O militar foi acusado de cair em contradição pelos representantes da CNV, pois, em entrevistas recentes aos jornais "O Globo" e "O Dia", havia dito que participou da ação cuja finalidade era ocultar o corpo de Paiva. O mesmo foi dito por ele à Comissão Estadual da Verdade.

"Eu deveria ter feito, sim, mas tive outra missão. Eu disse [à imprensa] que foi eu porque acho uma história muito triste quando uma família leva 38 anos para saber o paradeiro de uma pessoa. Não estou sendo sentimental, não”, afirmou o oficial. “Foi para não começar uma guerra."

Depoimentos sobre a ditadura militar

A ordem, segundo ele, teria sido dada pelo coronel Coelho Neto, então subchefe do CIE (Centro de Informações do Exército). Questionado se havia mentido anteriormente, Malhães tentou argumentar no sentido de que "estava apenas se defendendo". "Às vezes, quando você quer tirar o foco de uma coisa, a gente comenta um fato totalmente novo", declarou.

O tom vago do depoimento do coronel, em alguns momentos, provocou irritação entre os membros da Comissão Nacional da Verdade que formulavam as perguntas, principalmente José Carlos Dias e Maria Rita Kehl. Ao fim da audiência, Malhães deixou o Arquivo Nacional sem falar com a imprensa.

Questionado se o depoente poderia estar mentindo quanto ao desaparecimento de Rubens Paiva, Dias afirmou que, independentemente da questão da autoria, o relato do coronel Malhães corrobora o fato de que houve uma missão ordenado pelo alto escalão do Exército para que "o corpo fosse desaparecido".

"Ele acabou por reconhecer ter recebido a missão para desaparecer com o corpo dele. Depois, recebeu outra incumbência e acabou não cumprindo a missão. De qualquer maneira, é um depoimento que confirma que o corpo do Rubens Paiva foi realmente desaparecido. (...) o caso do Rubens Paiva está esclarecido. Portanto, diz ele que não participou da missão, mas isso não importa. Ele reconheceu que houve essa missão", argumentou.

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"É natural que ele quisesse se proteger. Eu não imaginava até que ele falasse tanto como ele falou. Porque, afinal de contas, é natural que ele tema depois de dizer o que ele disse. Eu não diria que ele foi corajoso. Eu acho que ele foi um exibicionista, pois demonstrou este lado mórbido que está presente no caráter dele", completou Dias.

Corpos eram mutilados

Segundo Malhães, foram "jogadas em rios" muitas pessoas que acabaram morrendo durante sessões de tortura. Para evitar uma eventual identificação, uma vez que, na época, ainda não existia o exame de DNA, os militares adotaram uma técnica: mutilar os corpos. Eram arrancados os dedos --a fim de eliminar as digitais-- e as arcadas dentárias das vítimas.

"Nós nunca enterrávamos os corpos. Se você tivesse que se desfazer de um corpo, qual seria a forma correta e inteligente? (...) Porque, se eu deixar um rastro... Isso não poderia acontecer", afirmou o oficial.

Malhães também defendeu a tortura como método de investigação criminal, e disse que, se os militantes de esquerda não tivessem se "lançado em uma luta armada", por uma "ideia que não existe", todos eles estariam em casa agora.

"Não entramos com a ideia de matar ninguém. Mas o que o senhor quer que a gente faça? (...) Eu não tinha outra solução. Qual seria a outra solução?", questionou.

"O que ele [Malhães] acabou por reconhecer é que é um torturador. Temos, pela primeira vez eu não digo, mas poucas vezes nós tivemos uma confissão de um torturador da forma como ele fez, justificando que tinha que torturar o inimigo. (...) Ele não tinha nenhum remorso pelas torturas e mortes praticadas", comentou José Carlos Dias.