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Política

PSB considera apoiar Marina de novo em 2018, diz herdeiro de Eduardo Campos

Fernando Rodrigues

Do UOL, em Brasília

28/11/2014 06h00

O governador eleito de Pernambuco e um dos líderes emergentes do PSB, Paulo Câmara, 42 anos, afirma que seu partido tem “muitas convergências” com Marina Silva e que é possível reeditar a aliança com a ex-senadora na eleição presidencial daqui a 4 anos. “Em 2018 é muito provável que nós estejamos juntos de alguma forma. Ou ela [Marina] nos apoiando, ou nós apoiando ela”, diz.

Em entrevista ao programa “Poder e Política”, do UOL, Paulo Câmara diz que o PSB tentará construir alguma candidatura presidencial para 2018 em contraposição à do PT. Nesse projeto, Marina Silva é uma das possibilidades reais, mesmo que ela saia da legenda para fundar oficialmente sua própria agremiação a Rede Sustentabilidade.

Depois da morte de Eduardo Campos, em 13.ago.2014, Marina assumiu o posto de candidata a presidente pelo PSB neste ano. Uma parte da cúpula do partido não ficou satisfeita, como Carlos Siqueira, que deixou o comando da campanha. Siqueira é agora o presidente nacional do PSB e na 5ª feira (27.nov.2014) voltou a fazer declarações rudes a respeito de Marina. 

“Nunca a consideramos do PSB. Temos visões de mundo e de vida distintas e programáticas e portanto cada um vai seguir seu caminho na hora em que deseja”, declarou o pessebista logo depois de o partido concluir uma reunião de sua Comissão Executiva Nacional, em Brasília. Apesar da beligerância de Siqueira, a opinião de Paulo Câmara é diversa. O governador eleito, um dos herdeiros de Eduardo Campos, acredita não haver obstáculos para uma aliança futura nos moldes da que se deu neste ano.

Na reunião de sua direção na 5ª feira, o PSB decidiu que manterá o que chama de “posição de independência” em relação à administração federal de Dilma Rousseff (PT). No segundo turno da disputa presidencial, o comando pessebista já havia apoiado o tucano Aécio Neves.

Só que o PSB tentará evitar ser confundido com o PSDB a partir de agora. “Não vamos ser oposição por ser oposição”, declara Paulo Câmara. Na realidade, o governador eleito de Pernambuco pretende estabelecer uma relação de confiança e parceria com o Palácio do Planalto, pois dependerá de Dilma Rousseff para tocar vários projetos no Estado.

Uma demonstração do que significa ser “independente” e não “oposição por oposição” está no posicionamento do PSB sobre a polêmica atual a respeito de meta de superávit do governo. O Palácio do Planalto pretende alterar a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) porque não conseguiu conter os gastos neste ano. Os deputados pessebistas são contra. Já os senadores do partido aceitam a proposta dilmista, segundo Paulo Câmara.

Se a LDO não for alterada estaria configurado o crime de responsabilidade de Dilma Rousseff, passível de punição até com um impeachment? O futuro governador de Pernambuco considera essa interpretação “um exagero”.

Embora classifique o PSB como partido de esquerda, Paulo Câmara se alinha a alguns pensamentos conservadores. Por exemplo, é contra flexibilizar as leis que tratam de drogas e aborto no Brasil.

Sobre as acusações contra Eduardo Campos no âmbito da Operação Lava Jato, que investiga casos de corrupção na Petrobras, afirma que todos no PSB serão “incansáveis” na defesa do ex-governador pernambucano.

As referências a Campos foram constantes nesta entrevista ao UOL. Formado em economia e mestre em gestão pública, Paulo Câmara deve sua carreira ao ex-líder do PSB. Auditor do Tribunal de Contas de Pernambuco, foi nomeado em 2007, aos 35 anos, secretário da Administração na gestão de Campos.

Paulo Câmara era desconhecido dos pernambucanos no início da campanha: tinha apenas 11% de intenção de votos em julho de 2014. Virou a disputa e venceu Armando Monteiro, do PTB, no primeiro turno, com 68% dos votos válidos.

Quando indagado sobre sua futura administração, afirma que continuará a governar como Campos. Instado a citar uma meta, aponta a necessidade de universalizar o ensino em tempo integral em toda a rede de escolas públicas de Pernambuco.

A seguir, trechos da entrevista do governador eleito de Pernambuco, gravada nesta 5ª feira (27.nov.2014) no estúdio do UOL, em Brasília:

A Executiva Nacional do PSB decidiu por uma posição de independência em relação ao governo da presidente Dilma Rousseff. O que isso significa?
O partido fez uma reflexão dentro da sua nova composição. Fez um processo de escuta com os deputados federais eleitos, com os senadores eleitos e os que vão continuar no mandato. Com os presidentes das Executivas estaduais. Com os novos líderes, como eu, que estou entrando agora na Executiva Nacional, como governador eleito. Esse processo de escuta foi muito rico. Mostrou o caminho que o PSB quer seguir, muito parecido com a decisão em 2013, quando o PSB saiu do governo Dilma. Nós tínhamos representantes, ministros, e do segundo escalão também. Resolvemos naquele momento entregar os cargos. A decisão de não aceitar cargos está mantida.

O PSB é um partido de oposição, portanto?
É um partido que tem um olhar crítico em relação ao que aconteceu nos últimos anos no Brasil. A gente entende que o Brasil poderia ter melhorado muito nos últimos 4 anos e não aconteceu isso. O partido vai tentar contribuir naquilo que acredita, tentando contribuir para o debate nacional.

Qual a diferença da posição do PSB em relação à de partidos como PSDB e o Democratas, que se dizem de oposição? É diferente ou é a mesma coisa?
É diferente. Há pontos que consideramos fundamentais para o Brasil. A partir do momento que o governo sinalizar para avanços nesses pontos... São pontos gerais, como reforma política, reforma do federalismo, mais recursos para a saúde, uma política diferente de segurança e olhar a questão federativa de maneira muito clara e muito transparente. Vamos apoiar o governo naquilo que seja mudança. Vamos analisar ponto a ponto. Não vamos ser a oposição pela oposição. Vamos contribuir para o Brasil, como contribuímos também no governo de Fernando Henrique Cardoso. O PSB foi a favor do Plano Real. Entendíamos que era importante para a estabilização econômica do Brasil. O PSB foi a favor da Lei de Responsabilidade Fiscal. Vamos analisar cada ponto. Vamos discutir no partido. Vamos ter uma posição realmente de independência.

Vamos a um ponto bem específico. O governo federal, no momento, tenta, no Congresso, alterar a Lei de Diretrizes Orçamentárias, a LDO, para alterar a meta de superávit fiscal para que dessa forma as contas fechem no final do ano. O PSB nesse caso é a favor ou contra?
Do jeito que está o projeto, o partido vai se posicionar, na Câmara dos Deputados, de maneira contrária. No Senado, não. No Senado já há uma defesa de dar um crédito de confiança para o governo nesse momento, mas que espera também que isso não ocorra no futuro.

O governo tem ampla maioria e deve acabar aprovando essa nova lei orçamentária. Mas, se não aprovar, há quem argumente que houve então crime de responsabilidade por parte da presidente. O que o sr. acha?
Temos que aguardar realmente o fechamento dessa votação e o que vai acontecer. O governo ainda teria um mês, se o projeto não for aprovado, para cumprir a meta que está estipulada anteriormente.
E a gente não pode prejulgar. A gente tem que ter uma explicação muito clara do governo: quais foram os motivos que levaram a isso, quais foram as questões que não podiam parar, os gastos que não podiam parar de jeito nenhum.
Se essa explicação for responsável, for transparente, for sincera, eu não vejo por que o partido entrar nessa questão [sobre se houve crime de responsabilidade]. A presidente Dilma acabou de ser reeleita. Temos que respeitar a sua reeleição. Houve uma aprovação muito grande, principalmente das regiões e das classes sociais mais baixas. A gente tem que respeitar e entender que isso é a democracia. Temos que ajudar o governo a governar.
O Brasil tem mais 4 anos com a presidente Dilma. Temos de contribuir para esse país dar certo. O país precisa melhorar muito em muitos aspectos, precisa voltar a crescer, tem um desafio do combate à inflação e tem muita coisa a fazer. As desigualdades sociais persistem, o desemprego tem que cada vez mais ser controlado. É um conjunto de opções. O partido tem que ser muito responsável em relação a essas questões.

Alguns setores da oposição falam claramente que, se a nova lei orçamentária não for aprovada, haveria a configuração do crime de responsabilidade. Alguns setores falam que isso poderia levar ao impeachment da presidente. O sr. considera isso correto ou um exagero?
No momento, sem as explicações oficiais, é um exagero. A gente tem que respeitar realmente as instituições e dar um crédito para o governo se explicar e mostrar realmente o que que houve, o que que aconteceu, e o que vai mudar para frente para que não ocorra novamente.

O candidato a presidente neste ano pelo PSB foi Eduardo Campos. Com a morte dele, assumiu o posto Marina Silva. No segundo turno, o PSB apoiou o tucano Aécio Neves. Em 2018, o sr. diria que o PSB deve trabalhar para ter um candidato próprio, deve trabalhar para apoiar algum candidato de um partido da oposição ou apoiar algum candidato das forças governistas atuais?
Defendo e acredito que hoje a ampla maioria do partido defende que nós tenhamos que recomeçar. Trabalhar nesses próximos 4 anos para a consolidação de uma nova candidatura. Nós apostávamos muito na candidatura do Eduardo. Eduardo se preparou muito para essa candidatura. Fizemos um programa de governo.
O nosso desafio nesses 4 anos até a próxima eleição é mostrar realmente como o PSB pensa, o que o PSB quer fazer diferente, como o PSB pode contribuir para o Brasil. Os governadores têm também um papel muito importante nisso.

São 3 governadores?
São 3 governadores. Sou eu, em Pernambuco; Ricardo Coutinho, na Paraíba, e o Rodrigo Rollemberg aqui no Distrito Federal.
O PSB tem se destacado pelos seus governadores. Eduardo mostrou que é possível fazer muita coisa em favor da população, mesmo com as limitações orçamentárias. Vamos construir um novo projeto. A gente tem a perspectiva de poder apresentar também para o Brasil novamente, em 2018, um projeto e nomes que possam fazer com que o Brasil melhore, que continue avançando.

Mas o PSB caminhará em 2018 alinhado às forças atuais que apoiam a presidente Dilma ou de uma forma independente?
Atualmente, o partido vai caminhar de forma independente. Vai contribuir para o Brasil naquilo que a gente acredita que é importante e tentar criar novas lideranças, novas pessoas que possam ter condições de em 2018 apresentar um projeto –um projeto que já se iniciou em 2014, de avanço para o Brasil, que pense diferente a política, que tenha conceitos de desenvolvimento social e econômico diferente dos atuais.

Além dos 3 governadores do PSB, quem são os líderes que o sr. apontaria de destaque no partido hoje?
Nessa nova geração, incluo o prefeito Geraldo Júlio, do Recife. E temos as lideranças que estão há muito tempo construindo o partido, que ajudaram Eduardo a chegar na sua candidatura.
Temos o vice-governador eleito de São Paulo, Márcio França. Temos o deputado federal que foi candidato a vice-presidente com Marina Silva, Beto Albuquerque (RS). O ex-governador [do Espírito Santo] Renato Casagrande. Temos senadores. O prefeito Márcio Lacerda, de Belo Horizonte. São muitas pessoas.

Existe um herdeiro natural de Eduardo Campos no partido?
Não. Não tem. Eduardo era uma pessoa que estava acima do partido. Já tinha tomado uma dimensão nacional. Eduardo estava num patamar acima. O desafio do partido é construir, dentro de um colegiado, pessoas que possam, juntas, chegar ao mesmo tamanho que Eduardo chegou.

Os integrantes da família de Eduardo Campos, Renata, viúva, e alguns dos filhos, têm interesse em entrar na vida político-partidária-eleitoral?
Tanto Renata como os filhos ainda estão em um processo de recuperação. Não foi fácil tudo o que eles passaram. Mas a gente vê muita vontade de continuar o legado que Eduardo iniciou.
Tenho certeza que a família Campos vai honrar muito o legado que Eduardo deixou e vai contribuir muito com Pernambuco e também com o Brasil. Eduardo formou filhos que com certeza vão ainda dar muito o que falar no futuro próximo.

O PSB em 2018 pode marchar ao lado de Marina Silva na disputa presidencial?
É um exercício de futurologia. Mas temos muitas convergências com Marina. Bem mais convergências do que qualquer tipo de divergência que possa ter ocorrido ao longo desse período.
Marina contribuiu muito também com o partido no período, desde que ela se filiou –porque ela ainda é filiada. Ela tem o respeito de todos nós, da direção, do presidente do partido. Nós queremos inclusive que ela continue no partido, contribuindo com o PSB, contribuindo com o crescimento do partido, com suas ideias, com sua forma de pensar, mas respeitamos muito também a sua posição.
Ela foi muito clara, foi muito transparente, desde o início, de que queria e quer fundar um novo partido, a Rede Sustentabilidade. E tenho certeza que vamos estar ainda conversando muito com Marina, independente da posição partidária que ela tomar, e em 2018 é muito provável que nós estejamos juntos de alguma forma. Ou ela nos apoiando, ou nós apoiando ela. Construindo uma nova alternativa para o Brasil.

É possível a reedição dessa aliança?
É possível, sim. Não vejo nenhum impedimento hoje em relação a isso. Pelo contrário, como disse, temos muita convergência em relação à maneira como a gente pensa o Brasil.

O fato de ele já ser um nome nacionalmente lançado seria uma vantagem?
Também, mas o papel importante é sua forma de pensar, avanços, convergências com o PSB. Nós fizemos o programa de governo juntos, Rede e PSB. É um programa de governo que pensa o Brasil de maneira diferente. O Brasil voltando a crescer, combatendo a inflação, mas tendo políticas inclusivas e de sustentabilidade. E pensar a política de maneira diferente. Marina Silva com certeza vai estar sempre conversando com o PSB, independentemente do destino dela.

Como é a sua relação com Marina?
Tive uma relação ao longo da campanha política, como candidato ao governo de Pernambuco. Primeiro como pré-candidato, depois como candidato. É uma relação de muito diálogo, de muito respeito, de muita transparência.

Falou com ela depois da eleição?
Falei já algumas vezes com ela. Tivemos muitas conversas ao longo do segundo turno. E com certeza esses diálogos vão permanecer.

O PSB hoje pode ser considerado um partido de direita, de centro ou de esquerda?
O PSB é um partido de esquerda. Um partido que tem a questão social como central. Mas um partido que sabe também ver o que está acontecendo no mundo, sabe ver o que precisa avançar e se adaptar aos tempos.

O ex-presidente nacional do PSB Roberto Amaral ficou insatisfeito com a posição do partido no segundo turno da disputa presidencial. Disse que o partido “jogou no lixo” o legado de seus fundadores ao apoiar o tucano Aécio Neves. O que que o sr. acha dessa declaração de Roberto Amaral?
Uma posição pessoal dele. Não é uma posição do partido. O partido, por ampla maioria, decidiu apoiar no segundo turno Aécio Neves por entender que a mudança era necessária naquele momento e havia o compromisso do então candidato Aécio Neves de pontos que eram importantes. Pontos defendidos por Eduardo, defendidos por Marina, de se comprometer também a colocar em prática como presidente da República.
Mas o partido continua o mesmo do tempo de Amaral, continua o mesmo da decisão que tomou quando entregou os cargos no governo da presidente Dilma. O partido, após aquele período eleitoral, voltou a fazer a boa política, a política de buscar o futuro dentro daquilo que pensa. A aliança com o PSDB foi uma aliança para o segundo turno, estratégica. Acho que foi importante o partido se posicionar, não seria bom o partido não tomar uma posição no segundo turno.
Mas o partido pensa diferente do PSDB, como pensa diferente também da forma como a presidente Dilma governou o Brasil nos últimos 4 anos. É isso que tem que ser levado em consideração. O ex-presidente Roberto Amaral com certeza já está vendo e vai ter a possibilidade de acompanhar os desdobramentos. Inclusive da reunião que nós tivemos em relação ao futuro do partido.

O sr. diz ser “possível” estar em 2018, de alguma forma, com Marina Silva. Mas o atual presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, protagonizou um episódio rumoroso ao sair da coordenação da campanha de Marina Silva neste ano. Como está a relação do atual presidente nacional do PSB com Marina Silva? Isto está superado ou não?
O momento eleitoral é difícil. Momentos de tensão. Aconteceu realmente um episódio com Carlos Siqueira, à época secretário-geral do partido. Ele decidiu não continuar com Marina exercendo o papel que ele exerceu na campanha de Eduardo. Foi uma posição de momento.
Como presidente [do PSB] já teve a preocupação de manter uma relação com Marina de diálogo, como sempre teve. Conversaram muito. Essa questão está superada, devidamente colocada e passada. Foi um momento eleitoral. A eleição realmente provoca muitos ruídos. Não é fácil comandar uma campanha, não é fácil ser candidato, não é fácil passar por tudo que Marina passou, Carlos Siqueira passou, Eduardo passou, eu passei em Pernambuco.
O pós-eleição também serve para isso. Serve para reflexão, serve para se conversar, para colocar as questões em ordem, para que, como a gente diz no Nordeste, lavar a roupa suja. Isso já foi devidamente feito e o partido hoje está unido. Carlos Siqueira deixou muito claro com Marina Silva: se houver o desejo dela de permanecer no PSB, ela vai continuar sendo respeitada, ouvida, e, se quiser, tendo participação ativa no destino do partido.

O sr. falou que o PSB pode ser considerado um partido de esquerda. O que pensa sobre liberalização do uso de drogas como forma de conter os crimes provocados pelo narcotráfico?
Entendo que esse debate ainda está muito recente no Brasil. Não é um debate maduro.

A sua posição qual é?
Atualmente, é contra. Eu acho que hoje nós temos outras questões muito mais importantes para discutir em relação a vários aspectos sociais.

O sr. se posicionaria hoje contrário a uma liberalização nos moldes em que ocorreu no Uruguai?
Contrário.
Sou a favor de se debater, mas acho que não está muito claro. Quando a gente não tem clareza do desdobramento de certas decisões, é preciso amadurecer bem para tomá-la.

O sr. acha que a lei atual sobre a prática do aborto é suficiente ou preciso ampliar o direito?
Nós defendemos a manutenção de como está hoje. Acho que [a lei] deve ser mantida e avançar nas discussões. Mas a posição forma que está hoje acho que é suficiente.

Na campanha presidencial, as posições de Marina Silva foram muito atacadas nos comerciais produzidos pela candidata do PT, a presidente Dilma Rousseff. Por exemplo a proximidade de Marina com Neca Setubal, que é da família que controla o Banco Itaú. Acabou  a eleição, Dilma Rousseff tentou convidar para ser ministro da Fazenda uma pessoa ligada ao Bradesco, Luiz Trabuco. Não deu certo. Convidou então um outro funcionário do Bradesco, Joaquim Levy para ser ministro da Fazenda. Como o sr. avalia esse episódio olhando agora a fotografia completa?
O debate não foi rico nesse sentido.
Quem conhece Marina sabe muito bem a sua forma de pensar. Em relação a essas questões, o Brasil hoje precisa de medidas que entendo que a presidente vai tomar com a escolha do Joaquim Levy. Mostra esse caminho de austeridade, de boa utilização dos recursos públicos. Isso é o que a gente ia fazer também, se chegássemos ao poder. Nós íamos ter medidas duras, mas medidas necessárias para o Brasil voltar a crescer, para o Brasil gastar melhor, para o Brasil arrecadar mais sem aumentar a carga tributária.

As propagandas críticas do PT foram desleais ou isso é regra do jogo mesmo numa eleição?
Fez parte do jogo. Quem acompanha a política brasileira vê que isso ocorre em toda a eleição. Acho que nessa eleição passou mais do tom do que deveria, em muitos casos, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Mas a gente não pode jogar pedra em ninguém. As regras eleitorais estão aí, permitem esse tipo de fato e o que a gente tem é trabalhar para que isso não ocorra mais, para que o debate seja mais propositivo, mais a favor do Brasil.

A presidente Dilma Rousseff deve nomear Armando Monteiro, que é do PTB, ministro do seu próximo governo. Armando Monteiro foi candidato pelo PTB a governador de Pernambuco. Ficou em segundo lugar. O sr. o derrotou. Há um risco de haver a influência política que possa deteriorar a relação entre o governo de Pernambuco e o governo federal?
A presidente tem toda a liberdade para escolher a sua equipe. Nós respeitamos muito isso. É sempre bom ter um ministro pernambucano, um ministro que conheça os problemas do nosso Estado e os desafios do futuro.

O sr. já conversou com ele depois da eleição?
Não. Não tive a oportunidade de conversar com o senador Armando, mas ele já se mostrou publicamente disposto ao diálogo, como eu também estou aberto ao diálogo. Com certeza a gente sabe, e espera, que o ministro Armando, na sua pasta, possa contribuir para o desenvolvimento de Pernambuco e possa me ajudar como ministro de Estado a enfrentar os desafios que Pernambuco tem.

Mas em política não podemos ser ingênuos, não é? Há interesse de Armando Monteiro, daqui a quatro anos, talvez voltar a ser candidato ao governo de Pernambuco. O sr., se fizer um bom mandato, imagino vai querer disputar a reeleição. Como vai ser possível essa convivência produtiva ao longo de quatro anos com dois adversários nessas duas posições?
Vou fazer o meu programa de governo que foi amplamente aprovado pela população de Pernambuco. Eu tive 68% dos votos. Foi a maior votação do Brasil. Pernambuco quer a continuidade do que Eduardo iniciou.
Vou trabalhar muito nos próximos quatro anos. Não estou pensando em reeleição. Só vou pensar nisso, em reeleição, em continuidade, e nesse projeto político em 2018. Até lá, eu vou ficar muito focado em governar Pernambuco, em fazer com que as coisas aconteçam e pensar a política diferente, em pensar a política em favor do serviço público.

Geraldo Júlio, prefeito do Recife, foi eleito há dois anos. O sr. acredita que, em 2016, ele deva disputar a reeleição?
É possível. Geraldo tem uma trajetória muito parecida com a minha. Nós somos do Tribunal de Contas, tivemos a oportunidade de ser secretários de Eduardo. Geraldo disputou sua primeira eleição e vem fazendo bem para o Recife, vem conseguindo melhorar a vida da população. Ele vai ter legitimidade em 2016 para pensar e refletir no que ele vai querer. Mas Geraldo pensa como eu, também só vai discutir essas questões em 2016. Ele sabe que tem muitos desafios por nossa cidade e está muito focado também em ser um bom prefeito e cumprir os seus compromissos.

Há um caso rumoroso hoje na política nacional que envolve a Petrobras, na chamada Operação Lava Jato. Paulo Roberto Campo, ex-diretor da estatal, disse em sua delação premiada, segundo foi noticiado, que Eduardo Campos teria sido também beneficiado com desvio de verbas para abastecer a sua campanha de governador em 2010. Uma das obras mais caras da estatal, que é a refinaria de Abreu e Lima, fica em Pernambuco. Como o PSB reagirá no momento em que tudo isso for oficializado e as delações premiadas se tornarem públicas?
Primeiro, é preciso esclarecer que a refinaria é em Pernambuco, mas não há nenhuma participação do governo de Pernambuco na sua construção. É toda da União, a execução é direta pela Petrobras.
Ficamos muito surpresos e indignados com o aparecimento do nome de Eduardo ao longo desse processo. Sabemos como ele sempre tratou essa questão da Petrobras. Ele foi um defensor incansável da abertura da CPI, trabalhou para isso junto à base do PSB, defendeu a apuração de todos os fatos. Tenho convicção de que Eduardo não tem nada a ver com isso, e caso persista o aparecimento do nome dele, nós vamos ser incansáveis na sua defesa.

Já houve uma conclusão dentro do PSB a respeito de quantas horas de voo a campanha de Eduardo Campos utilizou com aquele jato Cessna Citation, que foi o avião que acabou caindo no trágico de acidente lá em agosto?
O partido está levantando tudo, já tem a ampla maioria [das informações] e está esperando conclusões. Estamos preparados para esse debate. A gente quer dar muita transparência para que não haja qualquer dúvida sobre esse assunto.

O sr. já trabalhou no Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco, na análise de contas públicas. É correta a percepção que, em geral, as pessoas têm no Brasil de que a maioria das obras públicas sempre tem um pouco de corrupção?
Não pode generalizar. Agora, os controles podem ser aperfeiçoados para que a transparência seja cada vez maior. Precisa avançar na questão das formas de contratação, nós temos uma lei de licitações de 1993, muitas coisas poderiam ser melhoradas. [Precisa de] mais participação dos órgãos de controle, sem amarrações, porque as amarrações terminam refletindo no custo das licitações. As pessoas embutem o custo de estar participando de obra pública. O Brasil precisa ser mais ágil, mais produtivo e contratar melhor, porque sempre dá para contratar melhor.

Qual vai ser sua principal prioridade como governador de Pernambuco?
Temos um projeto de continuidade em relação à educação. Pernambuco conseguiu implantar a maior rede de escolas de tempo integral do Brasil. Isso já mostrou nos resultados do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] que é o caminho.

Quantos por cento das escolas públicas de Pernambuco têm educação em tempo integral?
Ensino Médio, hoje, 53%.

Qual é a sua meta?
Universalizar e fazer parcerias com os municípios para que haja também condição nas redes municipais de termos escolas de tempo integral.

Tem dinheiro e condições para isso?
Isso é o que a gente vai buscar. Quando se quer, se faz. E quando se prioriza, mais ainda. Pernambuco mostrou que dá para fazer, tanto é que nós temos hoje a maior rede pública de escolas de tempo integral [do país]. Maior do que todos os Estados da região Sudeste, que é a região mais rica. São Paulo, Minas [Gerais], Rio de Janeiro, se somar, temos mais vagas de escolas em tempo integral do que esses três Estados juntos. O resultado é muito claro, nas escolas de tempo integral temos as maiores notas do Brasil.

Pernambuco tem um programa de intercâmbio de estudantes para o exterior. Ele vai continuar?
Vai continuar. É o programa “Ganha o Mundo” que dá oportunidade...

Quantos já viajaram?
1.600 por ano. Esse programa tem 3 anos, foram em torno de 4 mil pessoas, porque às vezes não preenche todas as vagas. É um programa que aumenta os sonhos dos jovens e muda a vida dos que fazem o intercâmbio.

Estudantes do Ensino Médio?
Ensino Médio. Eles são selecionados de acordo com o seu rendimento escolar e têm a oportunidade de passar seis meses num intercâmbio. São jovens que saem do sertão, às vezes não conhecem nem a capital e já estão ganhando o mundo, indo para o Canadá, indo para a Nova Zelândia, Austrália.

Quanto custa um estudante no exterior nesse programa?
Em média, R$ 20 mil para 6 meses no exterior. É um custo relativamente barato, dada a valorização que se dá ao estudante e à oportunidade de alimentar os sonhos. Muita gente hoje está estudando mais tendo a crença que vai ter essa oportunidade de ganhar o mundo.

O sr. é jovem, tem 42 anos, 4 anos pela frente como governador. Como o sr. enxerga a sua carreira daqui para frente?
Tive a oportunidade de, na primeira eleição, alçar o maior cargo de Pernambuco, ser governador. E estou muito focado nisso, entusiasmado, até pela confiança que eu recebi da população. Não tenho planos para além dos próximos quatro anos. Vou trabalhar muito, ser intenso em relação ao meu programa de governo.

Mas o sr. se sente vocacionado? Gostou de disputar uma eleição?
Gostei, aprendi muito como candidato, tive a oportunidade de conhecer meu Estado profundamente. O bom da campanha eleitoral é o contato com a população, o processo de escuta, de ouvir, e isso eu levo também para o meu governo.

Acesse a transcrição completa da entrevista.

A seguir, os vídeos da entrevista (rodam em smartphones e tablets, com opção de assistir em HD):

1) Principais trechos da entrevista com Paulo Câmara (6:45)

2) PSB fala em apoiar Marina em 2018, diz Câmara (2:21)

3) Não faremos oposição por oposição, diz Câmara (1:18)

4) Espero parcerias de PE com governo Dilma, diz Câmara (0:54)

5) LDO: deputados do PSB não querem mudar; senadores, sim (1:40)

6) PSB é de esquerda, mas contra liberar drogas e aborto, diz Câmara (2:07)

7) Ataque de Dilma a Marina na eleição faz parte do jogo, diz Câmara (1:30)

8) Lava Jato: Vamos ser incansáveis na defesa de Eduardo Campos (2:03)

9) Câmara: Minha prioridade é educação em tempo integral para todos (1:34)

10) Quem é Paulo Câmara? (1:41)

11) Íntegra da entrevista com Paulo Câmara (50:42)

 

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