Alan Marques/Folhapress

Processo de impeachment

Pedro Simon vê desgaste no sistema político e cobra punição a empresários

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

  • Pedro Ladeira - 21.out.2013/Folhapress

    O ex-senador Pedro Simon (PMDB-RS), afastado de cargos públicos

    O ex-senador Pedro Simon (PMDB-RS), afastado de cargos públicos

Após 32 anos no Senado, o gaúcho Pedro Simon, 86, tem acompanhado o processo de impeachment à distância. Aposentado desde 2015, o peemedebista não pertence ao grupo político do presidente interino, Michel Temer. 

No partido desde a sua fundação e figura próxima a Ulysses Guimarães (1916-1992), Simon considera que sistema político brasileiro, presidencialista e baseado em maioria no Congresso, está desgastado. "O presidente tem que conseguir maioria, seja como for. Cooptando, troca-troca... Não há governo que dê certo dessa forma", afirma.

Ele concorda com críticas comuns à classe política, mas cobra também punição dos empresários: "A ação dessa turma, o clube que eles formaram (...) é impressionante". Em sua opinião, a Lava Jato tem desempenhado um papel importante na mudança que ele vê no país, mas alerta: "Querem pará-la".

Leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida ao UOL por telefone. 

UOL - Como o senhor viu o processo de impeachment? 

Pedro Simon - O processo está andando dentro da mais absoluta liberdade, independência e seriedade. Não podemos falar em golpe ou coisa parecida porque os órgãos funcionaram, o Congresso funcionou, o STF (Supremo Tribunal Federal) funcionou. Foi uma página bonita. Claro que não gostaríamos que isso tivesse acontecido, mas faz parte da democracia.

O Brasil está sendo passado a limpo. Até ontem o Brasil era o país da impunidade

UOL - O senhor vê alguma tentativa de acelerar o processo, como sustenta o advogado da presidente, José Eduardo Cardozo?

Simon - Comparando com o impeachment do [ex-presidente Fernando] Collor, foi mais rápido. Mas é assim. Foi um processo normal. O que isso mostra é que não há mais como ter um governo presidencialista baseado na maioria do Congresso. O presidente tem que conseguir maioria, seja como for. Cooptando, troca-troca... Não há governo que dê certo dessa forma. Outra coisa: as pessoas só falam da classe política, que, concordo, está muito comprometida, mas e os empresários? A ação dessa turma, o clube que eles formaram, se coordenando para participar disso... É impressionante. Vão ter livros e filmes sobre isso.

Alan Marques/Folhapress
Distante do núcleo de Temer, o senador chegou a propor a renúncia do vice em caso de impeachment

UOL - O Congresso que temos hoje é capaz de fazer uma reforma política?

Simon - O doutor Ulysses Guimarães (1916-1992) dizia, quando a gente perguntava se ele não achava que o Congresso estava muito ruim, que deveríamos esperar para ver o que vem depois. E, realmente, o Congresso vem diminuindo em intelectualidade, em capacidade, de eleição para eleição. Agora, chegamos ao fundo do poço.

Essa lei da Ficha Limpa vai ter um impacto muito grande nas eleições de outubro. Com as "Diretas Já" ganhamos o poder, mas não mudamos esse sistema político. Agora mudou. O Brasil está sendo passado a limpo. Até ontem o Brasil era o país da impunidade. Hoje o presidente da Odebrecht, maior empreiteira do Brasil, está preso, o presidente da Câmara foi afastado e corre o risco de ser preso, um senador está na cadeia.

UOL - O senhor atribui essa mudança à Operação Lava Jato?

Simon - A Lava Jato é o fato mais importante da história do Brasil. A nossa legislação permitia que o réu só fosse preso quando não houvesse mais nenhuma possibilidade de recurso. O político ou empresário não pegava um advogado para absolvê-lo, mas para empurrar com a barriga. Ia levando, levando, até que em um determinado momento o processo se encerrava. Hoje, não. Se eu recorro, recorro na cadeia, já sem o mandato, tendo que ressarcir o poder público.

Se [Temer] escolher ser um estadista, vai ser um grande nome. Se quiser ser mais um político, ele não tem carreira, vai dar errado, vai acabar com os burros n'água

UOL - A Lava Jato, de acordo com o que foi divulgado até o momento, deve chegar à cúpula do PMDB, inclusive a Michel Temer. Como o senhor vê a investigação contra o partido?

Simon - Tem que chegar. E, aconteça o que acontecer, quem tiver alguma culpa tem que pagar. O mérito da Lava Jato tem sido esse. Ela está agindo contra todos. Quando o Lula recorreu à ONU [Organização das Nações Unidas], dizendo que estavam perseguindo ele, apareceu a denúncia contra o PMDB. Chegou à cúpula do PSDB, do PP... Esse [juiz Sérgio] Moro merece uma estátua. Esses promotores e juízes têm trabalhado muito bem.

UOL - O senhor acha que há um movimento para acabar com a Lava Jato?

Simon - Querem pará-la, não há dúvida. Muita gente quer. O presidente do Senado quer colocar em votação um projeto que acaba com a operação. [Renan Calheiros negou que a prioridade dada ao projeto tenha relação com a Lava Jato]. Pelo projeto, o promotor que denuncia, se a pessoa é absolvida, corre o risco de ir para a cadeia ou pagar não sei quanto. Assim os promotores vão apresentar denúncias? Se isso for aprovado, será o fim da Lava Jato. Mas temos que se lembrar do papel do STF nisso.

Sou obrigado a reconhecer que a atual constituição do STF, que tem oito indicados pelo PT, está tomando decisões com a maior independência e tem assegurado a Lava Jato. Ninguém imaginaria uma coisa dessas

UOL - Voltando a Michel Temer, como o senhor viu as primeiras medidas tomadas pelo seu governo, o ministério que ele formou?

Simon - Não foi feliz ao colocar ministros que já estavam sendo investigados na Lava Jato, teve que tirá-los, inclusive. Na área econômica colocou pessoas que mostraram aptidão para lidar com o atual momento. Ele está agindo com muito cuidado. Mas ninguém está dando nota ainda porque é um governo provisório e é preciso decidir primeiro a saída da presidente Dilma Rousseff. O que ele fez de mais positivo até o momento, que merece nota dez, é deixar claro que não vai ser candidato à reeleição.

Sergio Lima/Folhapress
Para Simon, Dilma foi "objeto usado por Lula"

UOL - Não há chance de Temer concorrer?

Simon - Não. Ele pode fazer o maior governo do mundo, mas, se assume o compromisso de não ser candidato e volta atrás, fica desmoralizado. Se ele diz que não vai ser, não vai. Isso dá força para que ele governe sem ansiedade. Agora, ele tem que fazer realmente as reformas que o Brasil está esperando e ninguém teve coragem, como a reforma política, administrativa, financeira. Temer tem diante dele a chance de passar para a história. Se escolher ser um estadista, vai ser um grande nome. Se quiser ser mais um político, ele não tem carreira, vai dar errado, vai acabar com os burros n'água.

UOL - Temer propôs medidas polêmicas, como a mudança nas regras de aposentadoria e o teto para gastos públicos. Ele será capaz de aprová-las?

Simon - Essas são questões dramáticas no Brasil que ninguém teve interesse em mexer. Mas o mundo todo está mudando as leis de trabalho e a previdência, principalmente com a crise. Nos Estados isso tem sido um problema. No Rio Grande do Sul, há mais inativos que ativos na folha de pagamento. Antigamente, o cidadão morria com 50 anos, hoje morre com 80, 90. Ele vai, trabalha, se aposenta aos 50 e vive mais 30 anos de aposentadoria, não há como sustentar um sistema assim. Temer tem que levar isso com grandeza, deixar claro para a população que não será algo draconiano, que é algo necessário. Claro que os trabalhadores têm o direito de exigir outras medidas do governo, que se tribute as grandes fortunas, que não pagam nada até hoje, rever a situação dos grandes bancos... Uma série de situações. Mas dentro dessas estão a reforma trabalhista e da previdência, que são necessárias. Não é algo do Temer, é algo que está aí, na pauta, e todos entendem que é importante.

UOL - O PMDB é um partido conhecido por ser fragmentado. O senhor vê algum problema em o partido chegar ao poder desta forma?

Simon - Normalmente teria. Mas, se o Temer tiver a capacidade e a competência de bater na mesa e for adiante, ele vai encontrar o Brasil ao lado dele. Se ele quiser compor maioria, dar um cargo para esse, um cargo para aquele, ele está liquidado. Para ele ser candidato a ganhar, como ele era vice-presidente, fica no ar essa onda toda de "é golpe, não é golpe"... Se for pelo lado do estadismo, tiver grandeza, vai ser um grande presidente.

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