Ciclovias de Haddad foram feitas como se coloca orégano em pizza, diz vice de Doria

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

  • Lucas Lima/UOL

    O deputado federal Bruno Covas (PSDB-SP) no corredor que leva a seu escritório político

    O deputado federal Bruno Covas (PSDB-SP) no corredor que leva a seu escritório político

Vice-prefeito eleito de São Paulo, o deputado federal Bruno Covas (PSDB) diz que as atuais ciclovias da capital paulista foram feitas como se coloca orégano em uma pizza: "jogado de forma aleatória". Para o político, a gestão do atual prefeito, Fernando Haddad (PT), foi de gabinete, "dividida só com os professores da Cidade Universitária [da USP]".

Em suas últimas semanas como parlamentar --o deputado irá renunciar ao cargo nos últimos dias do ano para tornar-se vice em 1º de janeiro--, o neto do ex-governador paulista Mário Covas (1930-2001) recebeu o UOL na tarde de quinta-feira (13) em seu escritório político, na avenida Paulista.

Ao contrário do futuro prefeito, o empresário João Doria (PSDB), que tem elogiado Haddad desde o fim das eleições, Covas continua atacando a gestão do petista.

A futura gestão já informou que não pretende ampliar a malha cicloviária da cidade, o que motivou uma manifestação na frente da casa do prefeito eleito três dias após sua vitória nas urnas. "Você precisa, primeira coisa, corrigir o que foi feito", avalia Covas.

Você tem hoje mais de 400 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas que foram feitas na cidade como você coloca orégano na pizza: jogado de forma aleatória

Covas, porém, diz que não há uma contrariedade a se fazer novas ciclovias. "Claro que deve ser feito. Mas de maneira planejada, não da forma como foi feita".

O gabinete teria sido o problema da administração de Haddad, na visão do futuro vice-prefeito. "Foi uma gestão um pouco dissociada da cidade. Não houve diálogo, conversa, não houve presença dele na cidade". Covas diz acreditar que Haddad só dividia seus projetos para a cidade "com os professores da Cidade Universitária", em referência à USP, instituição à qual o atual prefeito pertence.

5.out.2016 - Fabio Braga/Folhapress
No dia 5, ciclistas protestaram na frente da casa do prefeito eleito, João Doria, em SP

Velocidade não afeta número de acidentes

Covas repete Doria ao dizer que não vê relação entre acidentes de trânsito e o limite de velocidade nas marginais da cidade. O tucano diz acreditar que a controvérsia gerada por esse tipo de tema é natural. "Ainda mais numa cidade como São Paulo, que já tem um alto índice de ocupação, onde qualquer deliberação significa muitas vezes retirar, mover, alterar. É natural esse conflito em qualquer área da cidade".

Desde as prévias para a escolha do candidato do PSDB a prefeito, Doria prometeu que os limites voltariam ao patamar anterior, de até 90 km/h "É o compromisso de campanha, que ele vai manter", afirma Covas.

Lucas Lima/UOL
Doria vai aumentar limite de velocidade nas marginais para cumprir promessa, diz vice

Porém, estatísticas apontam que o número de acidentes e de mortes nas marginais caiu com as velocidades mais baixas. Mas é tão importante aumentar o limite de velocidade nas marginais? "É importante você cumprir aquilo com que você se comprometeu na campanha", diz. E o que a cidade ganha com velocidade maior? "Velocidade maior", limita-se a dizer.

As marginais não são vias só da população da cidade de São Paulo, são utilizadas por quem aqui transita. O Rodoanel serve, claro, como anteparo em relação a isso, mas marginais, fecham um outro círculo que é utilizado na região metropolitana e por pessoas que passam por aqui 

Questionado se, caso o número de acidentes e mortes cresça, a imagem da nova gestão seja afetada, o deputado disse que não acredita que irá se verificar o aumento. Por qual motivo? "Eu não acho que vá acontecer", diz sucintamente.

Ele repete mais uma vez o que diz Doria, que os acidentes de trânsito na capital acontecem, principalmente, em função do uso de celular enquanto se dirige e volta a criticar a gestão de Haddad . "Não teve nenhuma campanha da prefeitura no rádio, na TV, na internet, no jornal para que as pessoas não saiam dirigindo falando ao celular".

Parceiro de chapa

Feliz com o resultado da eleição de 2 de outubro --"enfrentei a minha quarta campanha eleitoral para chegar a um dos cargos mais disputados do país: vice-prefeito da cidade mais importante"--, Covas não se ressente com o fato de Doria frisar que não é um político, mas um gestor.

"Até porque ele sempre colocou que respeita os políticos, escolheu um vice político, é filho de um político", relembra o deputado federal. Covas, porém, diz que é difícil avaliar seu peso na votação obtida por Doria.

Não dá para estabelecer 'tal percentual da votação se deve a isso', tal se deve àquilo'. Acho que é como uma receita de bolo. Você gostou do bolo. O que é importante? É o ovo, é a farinha, é o chocolate? Não tem como dissociar. 

Importante para formar o tempo de propaganda no rádio e na televisão, a coligação entre 13 partidos --a maior da história paulistana-- não terá de ser "paga", segundo o vice.

"Acho que pagar não é palavra mais adequada porque parece que [o apoio] foi vendido", diz Covas, que diz entender como natural haver indicações dos aliados para secretarias ou subprefeituras. "Por mais que você possa ter indicações, há alguns critérios a serem observados: currículo, ficha-limpa, vocação da pessoa para assumir aquele cargo. Como essa conversa [de dissociar coligação de cargos] foi feita antes, não há nada a ser pago agora de forma irracional".

Planos alterados de novo

Pela segunda vez, o político irá deixar um cargo para o qual foi eleito para exercer outra função. Em 2010, Covas foi reeleito deputado estadual em São Paulo, mas não chegou a frequentar a Assembleia Legislativa no segundo mandato porque foi escolhido pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) para comandar a Secretaria Estadual do Meio Ambiente entre 2011 e 2014. Há dois anos, Covas conseguiu uma cadeira na Câmara Federal. No meio do mandato, renunciará ao cargo para assumir a condição de vice de Doria.

"A vida é feita de desafios. A gente às vezes escolhe alguns. Nesse caso, não fui eu quem escolheu o desafio, foi o desafio que me escolheu".

21,jul.2016 - Reprodução/Facebook
Bruno Covas (esq.) foi escolhido para ser vice de Doria em julho deste ano

Vice decorativo?

O vice diz que não tem "nenhuma possibilidade de ficar em segundo plano" na administração paulistana e diz que não precisa de uma secretaria para isso. "Acho que isso é uma questão secundária. Não tem necessidade de escolher essa ou aquela atribuição. Qualquer que for a atribuição dada pelo prefeito, a gente assume com altivez e galhardia".

Mas Doria pode ser candidato a governador em 2018 e Covas tornar-se prefeito? "Calma, tem muito chão pela frente", comenta, sem negar a vontade de ser prefeito. "Não tenha a menor dúvida", diz o político, que assim como Doria, é contrário à reeleição, mas não descarta essa hipótese para o prefeito eleito.

Acho que ainda está muito longe. Ele [Doria] colocou um desafio, que é governar a cidade de São Paulo. Não está definido nem 2018, imagina 2020. 

Favorável a que Alckmin seja o candidato tucano à Presidência daqui a dois anos, o deputado acredita que o melhor para a escolha do nome do PSDB para essa corrida seja o consenso. "Não havendo, aí, sim, as prévias são a melhor alternativa. Ela significa que você não conseguiu, de forma consensual, escolher o candidato". O PSDB ainda teria o senador Aécio Neves (MG) e o ministro José Serra como outras opções. "Os três nomes são excepcionais".

Lucas Lima/UOL
Bruno Covas mostra a foto que tem de seu avô, Mário Covas, em seu escritório

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos