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Ciclovias de Haddad foram feitas como se coloca orégano em pizza, diz vice de Doria

O deputado federal Bruno Covas (PSDB-SP) no corredor que leva a seu escritório político - Lucas Lima/UOL
O deputado federal Bruno Covas (PSDB-SP) no corredor que leva a seu escritório político Imagem: Lucas Lima/UOL

Nathan Lopes

Do UOL, em São Paulo

16/10/2016 06h00

Vice-prefeito eleito de São Paulo, o deputado federal Bruno Covas (PSDB) diz que as atuais ciclovias da capital paulista foram feitas como se coloca orégano em uma pizza: "jogado de forma aleatória". Para o político, a gestão do atual prefeito, Fernando Haddad (PT), foi de gabinete, "dividida só com os professores da Cidade Universitária [da USP]".

Em suas últimas semanas como parlamentar --o deputado irá renunciar ao cargo nos últimos dias do ano para tornar-se vice em 1º de janeiro--, o neto do ex-governador paulista Mário Covas (1930-2001) recebeu o UOL na tarde de quinta-feira (13) em seu escritório político, na avenida Paulista.

Ao contrário do futuro prefeito, o empresário João Doria (PSDB), que tem elogiado Haddad desde o fim das eleições, Covas continua atacando a gestão do petista.

A futura gestão já informou que não pretende ampliar a malha cicloviária da cidade, o que motivou uma manifestação na frente da casa do prefeito eleito três dias após sua vitória nas urnas. “Você precisa, primeira coisa, corrigir o que foi feito”, avalia Covas.

Você tem hoje mais de 400 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas que foram feitas na cidade como você coloca orégano na pizza: jogado de forma aleatória

Covas, porém, diz que não há uma contrariedade a se fazer novas ciclovias. “Claro que deve ser feito. Mas de maneira planejada, não da forma como foi feita”.

O gabinete teria sido o problema da administração de Haddad, na visão do futuro vice-prefeito. “Foi uma gestão um pouco dissociada da cidade. Não houve diálogo, conversa, não houve presença dele na cidade”. Covas diz acreditar que Haddad só dividia seus projetos para a cidade “com os professores da Cidade Universitária”, em referência à USP, instituição à qual o atual prefeito pertence.

No dia 5, ciclistas protestaram na frente da casa do prefeito eleito, João Doria, em SP - 5.out.2016 - Fabio Braga/Folhapress
No dia 5, ciclistas protestaram na frente da casa do prefeito eleito, João Doria, em SP
Imagem: 5.out.2016 - Fabio Braga/Folhapress

Velocidade não afeta número de acidentes

Covas repete Doria ao dizer que não vê relação entre acidentes de trânsito e o limite de velocidade nas marginais da cidade. O tucano diz acreditar que a controvérsia gerada por esse tipo de tema é natural. "Ainda mais numa cidade como São Paulo, que já tem um alto índice de ocupação, onde qualquer deliberação significa muitas vezes retirar, mover, alterar. É natural esse conflito em qualquer área da cidade".

Desde as prévias para a escolha do candidato do PSDB a prefeito, Doria prometeu que os limites voltariam ao patamar anterior, de até 90 km/h “É o compromisso de campanha, que ele vai manter”, afirma Covas.

Doria vai aumentar limite de velocidade nas marginais para cumprir promessa, diz vice - Lucas Lima/UOL
Doria vai aumentar limite de velocidade nas marginais para cumprir promessa, diz vice
Imagem: Lucas Lima/UOL

Porém, estatísticas apontam que o número de acidentes e de mortes nas marginais caiu com as velocidades mais baixas. Mas é tão importante aumentar o limite de velocidade nas marginais? “É importante você cumprir aquilo com que você se comprometeu na campanha”, diz. E o que a cidade ganha com velocidade maior? “Velocidade maior”, limita-se a dizer.

As marginais não são vias só da população da cidade de São Paulo, são utilizadas por quem aqui transita. O Rodoanel serve, claro, como anteparo em relação a isso, mas marginais, fecham um outro círculo que é utilizado na região metropolitana e por pessoas que passam por aqui 

Questionado se, caso o número de acidentes e mortes cresça, a imagem da nova gestão seja afetada, o deputado disse que não acredita que irá se verificar o aumento. Por qual motivo? “Eu não acho que vá acontecer”, diz sucintamente.

Ele repete mais uma vez o que diz Doria, que os acidentes de trânsito na capital acontecem, principalmente, em função do uso de celular enquanto se dirige e volta a criticar a gestão de Haddad . "Não teve nenhuma campanha da prefeitura no rádio, na TV, na internet, no jornal para que as pessoas não saiam dirigindo falando ao celular".

Parceiro de chapa

Feliz com o resultado da eleição de 2 de outubro --"enfrentei a minha quarta campanha eleitoral para chegar a um dos cargos mais disputados do país: vice-prefeito da cidade mais importante"--, Covas não se ressente com o fato de Doria frisar que não é um político, mas um gestor.

"Até porque ele sempre colocou que respeita os políticos, escolheu um vice político, é filho de um político”, relembra o deputado federal. Covas, porém, diz que é difícil avaliar seu peso na votação obtida por Doria.

Não dá para estabelecer ‘tal percentual da votação se deve a isso’, tal se deve àquilo’. Acho que é como uma receita de bolo. Você gostou do bolo. O que é importante? É o ovo, é a farinha, é o chocolate? Não tem como dissociar. 

Importante para formar o tempo de propaganda no rádio e na televisão, a coligação entre 13 partidos --a maior da história paulistana-- não terá de ser "paga", segundo o vice.

"Acho que pagar não é palavra mais adequada porque parece que [o apoio] foi vendido", diz Covas, que diz entender como natural haver indicações dos aliados para secretarias ou subprefeituras. "Por mais que você possa ter indicações, há alguns critérios a serem observados: currículo, ficha-limpa, vocação da pessoa para assumir aquele cargo. Como essa conversa [de dissociar coligação de cargos] foi feita antes, não há nada a ser pago agora de forma irracional".

Planos alterados de novo

Pela segunda vez, o político irá deixar um cargo para o qual foi eleito para exercer outra função. Em 2010, Covas foi reeleito deputado estadual em São Paulo, mas não chegou a frequentar a Assembleia Legislativa no segundo mandato porque foi escolhido pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) para comandar a Secretaria Estadual do Meio Ambiente entre 2011 e 2014. Há dois anos, Covas conseguiu uma cadeira na Câmara Federal. No meio do mandato, renunciará ao cargo para assumir a condição de vice de Doria.

“A vida é feita de desafios. A gente às vezes escolhe alguns. Nesse caso, não fui eu quem escolheu o desafio, foi o desafio que me escolheu”.

Bruno Covas (esq.) foi escolhido para ser vice de Doria em julho deste ano - 21,jul.2016 - Reprodução/Facebook
Bruno Covas (esq.) foi escolhido para ser vice de Doria em julho deste ano
Imagem: 21,jul.2016 - Reprodução/Facebook

Vice decorativo?

O vice diz que não tem “nenhuma possibilidade de ficar em segundo plano” na administração paulistana e diz que não precisa de uma secretaria para isso. “Acho que isso é uma questão secundária. Não tem necessidade de escolher essa ou aquela atribuição. Qualquer que for a atribuição dada pelo prefeito, a gente assume com altivez e galhardia”.

Mas Doria pode ser candidato a governador em 2018 e Covas tornar-se prefeito? “Calma, tem muito chão pela frente", comenta, sem negar a vontade de ser prefeito. “Não tenha a menor dúvida”, diz o político, que assim como Doria, é contrário à reeleição, mas não descarta essa hipótese para o prefeito eleito.

Acho que ainda está muito longe. Ele [Doria] colocou um desafio, que é governar a cidade de São Paulo. Não está definido nem 2018, imagina 2020. 

Favorável a que Alckmin seja o candidato tucano à Presidência daqui a dois anos, o deputado acredita que o melhor para a escolha do nome do PSDB para essa corrida seja o consenso. "Não havendo, aí, sim, as prévias são a melhor alternativa. Ela significa que você não conseguiu, de forma consensual, escolher o candidato”. O PSDB ainda teria o senador Aécio Neves (MG) e o ministro José Serra como outras opções. “Os três nomes são excepcionais”.

Bruno Covas mostra a foto que tem de seu avô, Mário Covas, em seu escritório - Lucas Lima/UOL
Bruno Covas mostra a foto que tem de seu avô, Mário Covas, em seu escritório
Imagem: Lucas Lima/UOL

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