Casal de marqueteiros diz que Odebrecht pagou campanha de Dilma com caixa 2

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo*

O marqueteiro João Santana e sua mulher e sócia, a empresária Mônica Moura, disseram nesta terça (18) em depoimentos ao juiz Sérgio Moro no âmbito da Operação Lava Jato que a Odebrecht pagou, usando caixa 2, parte dos gastos da campanha presidencial de Dilma Rousseff (PT) em 2010. O valor seria de, no mínimo, R$ 15 milhões.

Segundo Mônica, "R$ 5 milhões ou R$ 6 milhões" foram pagos em espécie ainda em 2010. No ano seguinte, mais R$ 10 milhões foram depositados pela Odebrecht em uma conta não declarada do casal no exterior, chamada Shellbill.

"Eles pagaram uma parte em dinheiro, no Brasil, durante a campanha, e pagaram uma parte na Shellbill no ano seguinte", declarou Mônica.

Santana, que depôs em seguida, deu versão similar.

"Em 2011, há depósitos nesse período de um ano, depósitos feitos por offshore da Odebrecht relacionados, salvo engano, primeiro a um restante da campanha presidencial de Dilma de 2010", afirmou.

De acordo com a empresária, em muitas das campanhas feitas no Brasil pela empresa do casal, a Pólis, parte do pagamento era feita pela Odebrecht.

Paulo Lisboa - 1º.ago.2016/Folhapress

Mônica disse também que quis preservar Dilma ao não contar à Polícia Federal, em depoimento dado em fevereiro de 2016, que havia recebido caixa 2 no exterior.

"Nessa época, há um ano e pouco atrás, quando a gente foi preso, a gente queria preservar a presidente Dilma, que já estava num momento complicado, o país estava num momento complicado, e a gente não queria dizer que tinha recebido dinheiro de campanha dela, especificamente no caso de 2010", afirmou.

Santana seguiu o mesmo tom. Disse ter omitido tais informações  durante seu primeiro depoimento por preocupação com a "instabilidade política" do país e com "própria manutenção do cargo da presidente Dilma". 

Partidos exigiam caixa 2, diz empresária

Mônica ainda afirmou que o pagamento pelo trabalho em campanhas eleitorais usando o caixa 2 era uma exigência dos partidos políticos. Segundo ela, todas as campanhas em que ela e Santana trabalharam tiveram pagamentos envolvendo caixa 2.

"Todas as campanhas políticas que nós fizemos, da Pólis e antes da Pólis, quando eu era apenas uma funcionária de outras campanhas, de outros marqueteiros, sempre trabalhamos com caixa 2, com recursos não contabilizados. Em todas as campanhas", disse.

A empresária contou que, "no início", a maioria dos recursos eram pagos via caixa 2 "porque isso sempre era uma exigência dos partidos". Segundo Mônica, ela e o marido travaram uma "luta árdua e frequente" para aumentar o percentual pago de forma regular.

"Não acredito que exista um marqueteiro que trabalhe no Brasil fazendo campanha só com caixa 1", afirmou.

Mônica diz que omitiu informação à PF para preservar Dilma

"Não era melhor não fazer?"

Em outro trecho do depoimento, a empresária volta a reforçar a ideia de "impossibilidade" de uma campanha eleitoral dentro da lei.

"Se a gente não aceitar fazer campanha no Brasil recebendo por fora, a gente não faz a campanha", disse.

"Mas não era a melhor alternativa, não fazer?", questionou o juiz Moro.

"É, talvez fosse. Hoje em dia eu penso isso. Mas não teríamos feito nenhuma delas se não tivéssemos aceitado esse jogo", responde Mônica. "Nem nós, nem nenhum marqueteiro."

O depoimento do casal faz parte da ação penal em que o ex-ministro Antonio Palocci é réu por corrupção e lavagem de dinheiro. Palocci está preso preventivamente, por decisão de Moro, desde setembro de 2016, quando foi detido na 35ª fase da Operação Lava Jato.

Antes do início do depoimento, os advogados de Moura solicitaram que a gravação fosse mantida em sigilo e que apenas a voz da depoente fosse registrada. O juiz Sérgio Moro negou o primeiro pedido, mas acatou o segundo.

A ex-presidente Dilma Rousseff, por meio da sua assessoria de imprensa, afirmou que nunca autorizou, em suas campanhas, a arrecadação de recursos por meio de caixa dois. "As únicas pessoas autorizadas a captar dinheiro, em conformidade com a legislação eleitoral, foram os tesoureiros regularmente investidos nessas funções nas campanhas de 2010 e 2014", afirmou. Em nota, ela disse ainda que nunca teve conhecimento de que as "suas ordens tenham sido desrespeitadas".

Procurados pela reportagem do UOL, os advogados dos ex-ministros Guido Mantega e Antonio Palocci, José Roberto Batocchio, não responderam às ligações nem as mensagens de texto enviadas.

*Com informações do Estadão Conteúdo

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

Veja também

UOL Cursos Online

Todos os cursos