Operação Lava Jato

PF apreende obras de arte e camisa autografada por Pelé em casa de ex-mulher de Cabral

Do UOL, no Rio

  • Divulgação/MPF

    Quadro da série "O Beijo", do artista plástico Rubens Gerchman (1942-2008)

    Quadro da série "O Beijo", do artista plástico Rubens Gerchman (1942-2008)

A Polícia Federal apreendeu, na segunda-feira (8), obras de arte e até uma camisa do Santos autografada por Pelé, ao cumprir mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Suzana Neves, ex-mulher do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral (PMDB) --preso na Operação Calicute, em novembro do ano passado.

As autoridades apuram se Suzana participou de esquema de cobrança de propina e lavagem de dinheiro chefiado pelo ex-marido, com atuação específica no sentido de mascarar as vantagens ilícitas supostamente obtidas por Cabral no período em que ele esteve à frente do Executivo fluminense.

As ordens judiciais foram expedidas pelo juiz Marcelo Bretas, da 7ª Vara Criminal Federal, no âmbito da força-tarefa da Operação Lava Jato no Rio.

A reportagem do UOL ainda não conseguiu contato com os advogados de Suzana. Em janeiro deste ano, ela depôs de forma coercitiva à Polícia Federal e afirmou desconhecer a origem dos lucros de Cabral. Já a defesa do ex-governador tem informado que ele só vai se manifestar em Juízo.

De acordo com o MPF (Ministério Público Federal), que conduz a investigação, os bens apreendidos pela PF estavam em propriedades situadas nas cidades de Araras (RJ) e de São João del-Rei (MG). Os procuradores suspeitam que os imóveis eram usados para guardar as obras de arte e outros itens de grande valor.

Divulgação/MPF
Ex-mulher de Cabral guardava em casa camisa autografada por Pelé
No inquérito, há uma informação de que, em janeiro e fevereiro passados, houve descarregamento de um "contêiner de quadros" na residência localizada em São João del-Rei.

Entre as obras de arte, destaca-se um dos quadros da série "O Beijo", do artista plástico Rubens Gerchman (1942-2008), um dos principais expoentes vanguardistas na história da arte brasileira.

Outro item é uma camisa do Santos Futebol Clube autografada por ninguém menos do que Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. O valor total das apreensões ainda não foi estimado.

 

Aquisição de imóvel sob suspeita

Na versão do MPF, o imóvel de São João del-Rei pode ter sido comprado com dinheiro oriundo do esquema de cobrança de propina no Estado. A força-tarefa da Lava Jato constatou que a transação foi feita em nome da empresa de Suzana, a Araras Empreendimentos Consultoria e Serviços Ltda, e teve custo de R$ 600 mil. Esse valor seria incompatível com os rendimentos da ex-mulher de Cabral, segundo informações da Receita.

O MPF diz que Suzana usou a empresa para ocultar origem ilícita de R$ 1.266.975,00. Entre 25/10/2011 e 13/12/2013, foram identificadas 31 transferências bancárias de recursos oriundos do grupo de empresas da empreiteira FW Engenharia, por intermédio da empresa Survey Mar e Serviços Ltda, que realizou pagamentos à Araras Empreendimentos a título de serviços de consultoria em valor quase duas vezes maior que a sua renda bruta declarada. Quase 50% dos valores recebidos pela Survey da FW no período analisado pela investigação foram repassados logo em seguida para a empresa de Suzana, segundo informações da Lava Jato no Rio.

O MPF diz que "toda a movimentação aponta para lavagem de dinheiro pago como propina à organização criminosa em contratos que o governo do Estado do Rio de Janeiro firmou com a FW Engenharia".

Divulgação/MPF
Um dos objetos apreendidos pela PF na casa da ex-mulher de Cabral, Suzana Neves
Foi detectado ainda que a Araras Empreendimentos teve movimentação financeira incompatível com a receita bruta declarada e distribuiu lucros e dividendos incompatíveis com as receitas auferidas, nos exercícios de 2007 a 2009 e de 2011 a 2015.

O levantamento demonstra que a sede da empresa é uma das residências de Suzana, no bairro da Lagoa, zona sul do Rio, e que não há nenhum empregado registrado.

A ex-mulher de Cabral é também prima do ex-governador mineiro e senador da República pelo PSDB, Aécio Neves.

Calicute

Em diligências de busca e apreensão autorizadas durante a Operação Calicute, foram apreendidas anotações que indicam o pagamento de propina pela empreiteira FW Engenharia em benefício da organização de Cabral. De acordo com as investigações, um dos contratos firmados com a empresa, no valor de R$ 35 milhões, teve por objeto a elaboração de projeto executivo e a execução de obras complementares de urbanização no Complexo de Manguinhos, comunidade da zona norte beneficiada pelo PAC Favelas. A contratação foi financiada com recursos da União provenientes do Programa de Aceleração do Crescimento.

A força-tarefa da Lava Jato no Rio acusa Cabral de instituir, ao assumir o governo fluminense, em 2007, um esquema de cartelização de empresas e favorecimento em licitações, mediante pagamento de propina de cerca de 5% em obras públicas de construção civil. Investigações apontam quem essa organização desviou mais de US$ 100 milhões dos cofres públicos mediante envio de recursos para o exterior.

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