Repórter chamada de "idiota" por Bolsonaro em 2014 desistiu de processo: "não tive respaldo"

Patrick Mesquita

Colaboração para o UOL

Um vídeo de abril de 2014, que mostra a discussão do deputado Jair Bolsonaro com uma repórter na Câmara dos Deputados, em Brasília, voltou a viralizar na internet nos últimos dias. Nele, o parlamentar bate-boca com a jornalista Manuela Borges, até então funcionária da RedeTV!. O entrevero teve início quando o político se irritou com uma pergunta sobre a ditadura militar. Manuela, na ocasião, prometeu processar o deputado ao ser chamada de "idiota" e "ignorante". Três anos depois, o caso voltou a ganhar força nas redes sociais, o que não surpreendeu a profissional.

"Viralizou porque é a lei da internet. É para o bem e para o mal. Eu já pedi para amigos que não me marquem em posts, para que não descubram o meu perfil. Mas, quando vejo, muita gente que conheço compartilhou o caso aplaudindo e dizendo que eu os represento. Também teve quem publicou dizendo 'É isso mesmo, Bolsomito'. É assim para os dois lados. Acabou que eu dei audiência para ele, porque ele foi a uns oito programas de televisão", conta Manuela Borges em entrevista ao UOL.

A ação prometida pela repórter, de processar o político, não aconteceu. De acordo com Manuela, não houve qualquer respaldo da RedeTV!, o que colaborou para que ela perdesse a coragem de entrar na Justiça. Os únicos respaldos foram uma nota de repúdio do Sindicato dos Jornalistas de Brasília e um processo movido por outro parlamentar na Câmara pedindo quebra de decoro. A repórter, no entanto, não sabe precisar como está o procedimento.

"Na época eu estava na RedeTV! e ela me desencorajou, me orientou a não processar o parlamentar. Aí o Sindicato dos Jornalistas me deu apoio. Foi uma situação super desagradável. Não me deram respaldo nenhum, não divulgaram nota de repúdio. Eu fiquei bem chateada. Só entraram em contato comigo dois dias depois. O Rafinha Bastos entrou em contato comigo para falar por telefone ao vivo no programa dele. Eles convidaram o Bolsonaro também para falar sobre o assunto. Como o deputado iria participar, eles queriam me entrevistar ao vivo. Pedi para a RedeTV!, e não me deram resposta", lembra.

Amigo ajudou na decisão

Além da falta de respaldo da RedeTV!, Manuela afirma que conversar com um amigo foi decisivo para que ela não fosse adiante com a ideia de processo.

"Também teve uma conversa com um amigo. Ele disse: 'você está preparada para ir para a Justiça? Vai que esses juízes te culpam e dão multa? Se eu fosse você, não mexia com isso'. Conversei bastante com o Sindicato de Brasília. Me deram suporte, mas não compraram a briga. O jurídico deles não tinha condições. Encontraram uma resposta jurídica para não me representar", alega.

A situação não foi fácil de ser superada. Manuela Borges revela que chegou a ser hostilizada por seguidores do deputado na época e que ficou com medo de atitudes mais graves.

"Eu já fui gravemente hostilizada por seguidores do Bolsonaro. No ano passado, estava fazendo reportagem sobre paraolimpíadas. Uma atleta furou na entrevista. Eu publiquei na página dela e deixei meu telefone para contato para saber se ela daria a entrevista. Ela não respondeu. Um cara, que deveria ser conhecido dela, me xingou de todos os nomes. Tenho medo deles, são pessoas perigosas. Nunca conversaram comigo para justificar. Fui ameaçada e decidi ficar quieta", lembra.

Manuela deixou a RedeTV! pouco tempo depois. Hoje, em outro emprego e mãe, ela afirma que evita o tema por "preguiça" e por estar em outro momento da vida, mas reafirma a posição de que Bolsonaro errou no episódio.

Procurada pelo UOL, a emissora ainda não se pronunciou até a publicação desta reportagem.

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