Um dia após anúncio de troca de pasta, Serraglio não confirma ida para Transparência

Luciana Amaral

Do UOL, em Brasília

  • Ananda Borges/Câmara dos Deputados - 16.abr.2016

    O ministro Osmar Serraglio (PMDB-PR)

    O ministro Osmar Serraglio (PMDB-PR)

Um dia após a assessoria da Presidência da República anunciar Torquato Jardim como novo ministro da Justiça, neste domingo (28), o então titular da pasta, Osmar Serraglio (PMDB), ainda não confirmou a ida para o Ministério da Transparência, no que seria uma troca de cadeiras entre os dois. A reportagem do UOL apurou que o peemedebista ainda "analisava" a oferta do presidente Michel Temer (PMDB).

Serraglio estava no Paraná e chegou a Brasília no início da tarde desta segunda-feira (29), mas, até o momento, não se manifestou sobre o convite para assumir a Transparência. A mudança, inclusive, não foi oficializada no Diário Oficial da União, como é praxe nesses casos.

A saída de Serraglio da Justiça vinha sendo discutida há pelo menos um mês pela bancada do PMDB na Câmara junto ao Planalto e passou longe de ser amigável. Segundo apurou a reportagem do UOL, Serraglio foi considerado um ministro "fraco e incompetente" pelos aliados mais próximos de Temer.

"No primeiro mês já deu para ver que a escolha tinha sido totalmente errada. Com um mês, Serraglio já estava queimado. Ele ficou o quê? Menos de dois meses? Todo mundo sabia que ia sair. Já era esperado. O inesperado foi sexta [dia em que a presidente do BNDES, Maria Silvia, pediu demissão]", afirmou um assessor de Temer.

Serraglio, porém, acreditava contar com o respaldo do presidente e chegou a dizer a interlocutores, na sexta (26), que "se tem uma pessoa que não vai cair nesse governo, sou eu".

Temer deu posse ao ex-ministro da Justiça em 7 de março, data em que o empresário Joesley Batista, um dos donos do grupo JBS, gravou conversa com o presidente no Palácio do Jaburu, residência oficial da vice-Presidência, onde Temer e a família moram.

No áudio, Temer supostamente não teria se oposto a crimes relatados por Batista e teria dado aval à compra do silêncio do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e do doleiro Lúcio Funaro, ambos presos na operação Lava Jato.

Com a delação de executivos da JBS, da qual a gravação faz parte, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu abrir inquérito para investigar se Temer cometeu crimes de corrupção passiva, formação de organização criminosa e obstrução de Justiça, a pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República).

Ouça a íntegra da conversa entre Temer e Joesley

O que acontece em caso de recusa

Se Serraglio não aceitar o comando do Ministério da Transparência, ele volta a assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados no lugar do suplente Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR) --ex-assessor especial de Temer, flagrado recebendo mala com R$ 500 mil oriundos de propina.

Neste cenário, considerado pelo Planalto, Rocha Loures perderia a prerrogativa de foro privilegiado e, assim, seria estimulado a fechar um acordo de delação premiada com a PGR, apurou o UOL.

"O presidente deixou Serraglio na Transparência para não ter que demitir ele de todo", limitou-se a dizer um assessor do Planalto.

Mais cedo nesta segunda-feira, apurou o UOL, o líder do PMDB na Câmara, Baleia Rossi (SP), esteve com o ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy, responsável pela articulação política do Planalto. Rossi teria garantido a Imbassahy que estava "tudo resolvido". Horas depois, Imbassahy viajou com o presidente Michel Temer para São Paulo, onde participarão de jantar e evento com empresários.

Internamente no PMDB, qualquer que seja sua decisão, Serraglio também deve sofrer represálias, já que há divergências no partido quanto à mudança determinada por Temer.

Enquanto isso, Torquato Jardim se encontrou com Temer no início da tarde desta segunda no Planalto e também está na comitiva presidencial para a capital paulista. No domingo, o novo ministro da Justiça já havia viajado com o presidente para Alagoas a fim de avaliar estragos causados pela chuva no Estado.

Justificativas para saída

Algumas justificativas alegadas por assessores de Temer para a saída de Serraglio da Justiça são a ausência dele em reuniões sobre o Plano Nacional de Segurança no Planalto, o diálogo ruim com indígenas e o envolvimento dele na operação Carne Fraca - que apurou irregularidades em frigoríficos no país.

Além de não cuidar dos efeitos negativos na exportação de carnes, que tiveram de ser amenizados pelos ministérios da Agricultura e das Relações Exteriores, Serraglio teve o nome citado na investigação da Polícia Federal. Foi interceptada ligação telefônica entre o ministro e Daniel Gonçalves Filho, fiscal agropecuário e superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná entre 2007 e 2016, na qual Serraglio chama Filho de "grande chefe". Segundo a PF, Gonçalves Filho era "o líder da organização criminosa" que atuava no órgão. Serraglio teria tentando interferir em favor de uma empresa. Subordinada ao Ministério da Justiça, a PF, no entanto, afirmou que não viu indícios de ilegalidade na conduta do ministro.

A gota d'água para a saída de Serraglio teria sido a ausência dele nos encontros preparatórios para o protesto de quarta-feira (24) que transformou a Esplanada dos Ministérios em cenário de guerra. Embora a informação não conste na agenda oficial de Temer, Serraglio teria se reunido com o presidente pelo menos seis vezes na última semana, afirmam membros de sua equipe.

Na sexta passada, o então ministro da Justiça chamou os manifestantes de vândalos, mas não comentou o possível excesso da Polícia Militar do Distrito Federal, que foi flagrada disparando contra pessoas no local com armas de fogo. A entrevista coletiva, convocada pelo Planalto, foi encerrada por uma assessora de Temer antes que todas as perguntas feitas pelos jornalistas fossem respondidas.

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