Escolhida por Temer para a PGR já se opôs a Janot e perdeu para ele na lista de 2015

Daniela Garcia e Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

  • Antonio Cruz/Agência Brasil

    Raquel Dode (d) e Rodrigo Janot (ao lado dela) foram rivais na disputa pelo cargo de PGR em 2015. Ele ficou em primeiro lugar na lista tríplice daquele ano e foi escolhido pela então presidente Dilma Rousseff

    Raquel Dode (d) e Rodrigo Janot (ao lado dela) foram rivais na disputa pelo cargo de PGR em 2015. Ele ficou em primeiro lugar na lista tríplice daquele ano e foi escolhido pela então presidente Dilma Rousseff

Em uma lista de três nomes, o presidente Michel Temer (PMDB) escolheu a subprocuradora Raquel Dodge, tida como rival de Rodrigo Janot, para ocupar justamente a vaga dele na Procuradoria-Geral da República.

O anúncio ocorreu na noite desta quarta-feira (28), um dia depois de o peemedebista fazer um pronunciamento com duras críticas a Janot, a quem acusou de buscar "revanche, destruição e vingança" ao denunciá-lo sob acusação de corrupção passiva. Temer pediu "provas concretas" de que cometeu qualquer ato ilícito e sugeriu que o objetivo da denúncia contra ele é "parar o país".

Em abril, Janot e Raquel Dodge discutiram publicamente durante uma reunião do CSMP (Conselho Superior do Ministério Público) devido a uma proposta apresentada por ela para restringir o trânsito de procuradores no MPF (Ministério Público Federal). Segundo Janot, a medida impactaria a Lava Jato.

A subprocuradora-geral sugeriu limitar a 10% o número de procuradores que podem ser cedidos a outras unidades. Hoje em dia, não há limites para realocar um procurador de uma unidade para uma equipe exclusiva de investigação, como a Lava Jato. Segundo Raquel Dodge, sua proposta não afetaria a operação.

No momento da reunião, oito dos dez procuradores do CSMP eram favoráveis à proposta de Raquel. Janot, que era contrário, pediu vistas.

Janot e Raquel também foram rivais em 2015. Naquele ano, o então procurador-geral conseguiu a reeleição em um pleito contra a atual escolhida por Temer e os subprocuradores Carlos Frederico Santos e Mario Bonsaglia – este último integrou a lista tríplice de 2017, ficando em terceiro lugar.

A subprocuradora foi a terceira mais votada de 2015, com 402 votos, e integrou lista tríplice enviada a Dilma Rousseff. Contudo, a ex-presidente escolheu novamente Janot, que fora o mais votado com 799. Bonsaglia teve 462 votos.

Temer x Ministério Público

A escolha de Raquel, que vinha sendo apontada como favorita dos aliados do presidente e contava com o apoio do ministro do STF Gilmar Mendes, culmina com o ataque aberto feito por Temer a Janot. Na terça-feira (28), o presidente insinuou que o procurador-geral recebeu dinheiro por meio do ex-procurador Marcelo Miller, que deixou o Ministério Público Federal para atuar em um escritório de advocacia que negociou o acordo de leniência da JBS.

"Talvez os milhões de honorários recebidos não fossem apenas ao assessor de confiança [Miller], mas eu tenho responsabilidade e não farei ilações. Tenho a mais absoluta convicção de que não posso denunciar sem provas", disse Temer, referindo-se ao ex-procurador como "homem da mais estrita confiança" de Janot.

Segundo a PGR, Miller não participou das negociações do acordo de delação premiada dos executivos do grupo J&F. Miller integrou a Assessoria Criminal de Janot de setembro de 2013 a maio de 2015, quando passou a integrar a força-tarefa da Operação Lava Jato na Procuradoria em Brasília até julho do ano passado. A partir daquele mês, voltou para a Procuradoria no Rio de Janeiro com atuação na Lava Jato apenas como membro colaborador. A entidade explicou que Miller pediu exoneração em fevereiro deste ano, cuja ação foi efetiva em 5 de abril.

Em comunicado à imprensa divulgado à noite, Miller negou as suspeitas de Temer. "Não cometi nenhum ato irregular, mas não responderei às afirmações a meu respeito pela imprensa", afirmou o advogado. "Apenas me manifestarei perante as autoridades com competência para examinar os fatos e com interesse na aferição da verdade."

Primeira mulher na PGR

Raquel Dodge será a primeira mulher a comandar a PGR, o que acontecerá a partir de setembro. Ela corre o risco de assumir o cargo em meio a um embate público entre o órgão e Temer, decorrente de a PGR ter fechado acordo de delação premiada com executivos da JBS e ter oferecido denúncia contra o presidente por corrupção passiva.

A escolhida por Temer é subprocuradora-geral da República e oficial no Superior Tribunal de Justiça em matéria criminal. É membro do Conselho Superior do Ministério Público pelo terceiro biênio consecutivo. Entrou no MPF em 1987 e é mestre em Direito pela Universidade de Harvard (EUA).

Em entrevista ao colunista do UOL Josias de Souza publicada no dia 26 de junho, isto é, antes da Janot entregar a primeira denúncia contra Temer ao STF (Supremo Tribunal Federal), Raquel disse que as denúncias contra Temer provocam "grande expectativa e um certo constrangimento". Segundo ela, o caso exige "temperança e destemor".

Raquel Dodge: Denúncia contra Temer gera 'expectativa e certo constrangimento'

Na mesma entrevista, Raquel também falou sobre a Operação Lava Jato. Segundo ela, a investigação trouxe um "novo padrão de administração de Justiça". Para Raquel, a Lava Jato mostra que "ninguém está acima da lei"; que é possível obter resultados no combate à corrupção com as leis vigentes; e que atenuou-se a impressão de que a Justiça demora a produzir resultados.

Raquel Dodge: "Lava Jato trouxe novo padrão de administração da Justiça"

Raquel foi a segunda mais votada

Ao escolher Dodge, Temer encerrou uma tradição inciada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva em 2003. Diferentemente de Lula e Dilma Rousseff, Temer ignorou o mais votado da lista tríplice enviada pela ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República). 

Nas eleições desta terça-feira (27), o vice-procurador eleitoral Nicolao Dino recebeu 621 votos, seguido por Raquel, com 587, e o subprocurador Mario Bonsaglia, com 564. 

Preterido por Temer - e apontado como o favorito de Rodrigo Janot -, Nicolao Dino comanda a Procuradoria-Geral Eleitoral e foi o responsável pelo parecer que pediu a cassação da chapa Dilma-Temer no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Durante o julgamento, Dino chegou a pedir o impedimento do ministro Admar Gonzaga, nomeado por Temer e que havia trabalhado para a chapa na eleição de 2010. A corte decidiu contra a cassação por 4 votos a 3.

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