Operação Lava Jato

Vizinhos da 'cadeia da Lava Jato' reclamam da 'fama ruim' e de protestos após chegada de Cabral

Giovani Lettiere

Colaboração para o UOL, do Rio

  • Giovani Lettiere/UOL

    A costureira Nielse Andrade mora na frente da cadeia onde está preso Sérgio Cabral

    A costureira Nielse Andrade mora na frente da cadeia onde está preso Sérgio Cabral

A rua Célio Nascimento, em Benfica, na zona norte do Rio de Janeiro, nunca mais foi a mesma desde que, no fim de maio, o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) chegou à Cadeia Pública José Frederico Marques, transferido do Complexo Penitenciário de Bangu. É nesta rua que fica a entrada principal do "presídio da Lava Jato", como ficou conhecida a cadeia onde está detida a cúpula do PMDB do Rio.

Os vizinhos reclamam que as ruas da região, até então pacatas, passaram a receber protestos diários, em sua maioria, de servidores com salários em atraso. A cadeia chegou a abrigar, na semana passada, três ex-governadores fluminenses --além de Cabral, passaram por Benfica Anthony Garotinho (PR) --transferido para Bangu 8-- e Rosinha Garotinho (PR), que ganhou a liberdade nesta quarta (29).

À reportagem do UOL, moradores de Benfica rejeitaram a "nova fama" do bairro após a chegada dos réus da Lava Jato e disseram que querem a tranquilidade de volta.

O agente de segurança Robson Barreto, de 46 anos e há 8 como vizinho da cadeia, é um dos que vê muita diferença depois que o ex-governador foi preso ali. "Antes a rua era mais tranquila. Não tinha essa quantidade imensa de pessoas de fora. Agora, além disso, tem manifestação toda semana e muitos vendedores ambulantes. E estacionar um carro agora está impossível com tanto movimento de veículos de advogados", lamentou Robson.

Benfica e a rua [Célio Nascimento] ficaram famosos de uma maneira da qual não gostaríamos. É uma fama ruim. Quando a gente pega um táxi e fala que mora aqui, todo mundo fala na hora que é a da cadeia do Sérgio Cabral.

Robson Barreto, morador de Benfica

O agente de segurança ressalta, contudo, que o bairro do subúrbio não conta apenas com o "vizinho indigesto". "Benfica tem a rua dos Lustres, a Cadeg (mercado municipal), tem o Vasco, a Refinaria de Manguinhos aqui do lado com muitas atividades para a comunidade. Tem coisa boa, mas o presídio chama a atenção negativamente.

Giovani Lettiere/UOL
Robson Barreto reclama das manifestações e do movimento de ambulantes

A rotina da costureira Nielse Andrade, de 60 anos e há dez na rua Célio Nascimento, também mudou. Na avaliação dela, para pior.

"Agora estou na rua mais famosa do Brasil no momento. Chegamos a ter três ex-governadores presos aqui na semana passada. Por conta da presença do Sérgio Cabral, tudo mudou por aqui. Não temos mais tranquilidade, com muitas manifestações e um movimento muito maior na rua. Acho que o bairro vai ficar estigmatizado por conta desta cadeia, que não é uma fama boa", afirmou a costureira, que vive ali com o marido, o filho, três cachorros e dez calopsitas.

Na segunda-feira (27), o UOL notou faixas colocadas na entrada da cadeia. Elas pediam à Vara de Execuções Penais investigação de supostas regalias na prisão. O Ministério Público do Estado do Rio apreendeu, na semana passada, castanhas, presunto cru, queijos finos variados, bolinhos de bacalhau, iogurte em balde de gelo e outras iguarias em um pente fino nas celas de Cabral, de sua mulher Adriana Ancelmo, do empresário dos ônibus Jacob Barata Filho e da ex-governadora Rosinha Garotinho.

Segundo uma moradora, os protestos decorrentes do aniversário de um ano de prisão de Cabral, em 17 de novembro, duraram quatro dias --participaram dos atos servidores de diferentes categorias e de diversas regiões do Estado.

E as manifestações não devem parar por aí. Com o atraso no pagamento dos salários de mais de 200 mil funcionários públicos, o Muspe (Movimento Unificado dos Servidores Públicos Estaduais) convocou uma caminhada até a cadeia. O ato foi marcado para o próximo sábado (2), a partir das 10h.

Freguesia diferente e segurança

A "prisão da Lava Jato" era, até outubro do ano passado, o endereço do BEP (Batalhão Especial Prisional), onde ficavam detidos policiais militares condenados por crimes ou que aguardavam julgamento. Mas uma agressão à juíza Daniela Assumpção, da Vara de Execuções Penais, que foi fiscalizar regalias, como a realização de churrasco regado a bebidas alcoólicas, acabou provocando a desativação do lugar. O BEP e seus 221 PMs detidos foram então transferidos para Niterói, na região metropolitana.

Reformada com mão de obra prisional e recursos de R$ 26 mil, a cadeia foi reinaugurada em fevereiro com o nome de José Frederico Marques.

O novo presídio tem capacidade para 512 presos, em sua maioria, internos provisórios, já que funciona como porta de entrada para o sistema prisional do Estado. Os detidos ficam por lá, no máximo, por dois dias, enquanto aguardam audiência de custódia e transferência para outros presídios.

Na porta, parentes aflitos procuram saber para onde vão os detidos provisórios depois dali. Uma lista com o "paradeiro" deles e os respectivos crimes é colocada, presa por um prego, numa árvore na calçada.

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A entrada principal da Cadeia Pública José Frederico Marques

A reforma separou 162 das 512 vagas para presos com diploma de nível superior e para os que não pagam pensão alimentícia. Esta parte conta com três galerias e ocupa todo o segundo andar da cadeia. Eles permanecem lá por tempo indeterminado, cumprindo suas penas ou esperando julgamento, e não provisoriamente como os outros que não têm diploma e aguardam suas transferências para presídios estaduais. É lá que estão os presos da Lava Jato.

A Frederico Marques também conta com uma ala para condenados que conquistaram o regime semiaberto e uma cadeia feminina, onde Adriana Ancelmo e Rosinha dividiam cela.

As visitas na cadeia acontecem às terças, quartas e sábados, de 9h às 16h --as da Lava Jato apenas terças e sábados. A Seap (Secretaria de Administração Penitenciária) diz que o pátio é pequeno e que, por isso, divide as alas para receber as visitas.

Para o morador Robson Barreto, o aumento da circulação de pessoas que ainda cumprem pena agravou a insegurança. "Muitos saem cedo para trabalhar e voltam para dormir na cadeia, mas acabam consumindo drogas e realizando pequenos roubos e furtos na região."

A dona de casa Cristina Assis, 40, é uma das que reforçou as grades de sua residência na Célio Nascimento. "Já entraram na parte de trás da casa três vezes. Vou ter que aumentar ainda mais o arame farpado. Roubaram uma bicicleta e um sapato do meu marido. Moro aqui há 15 anos e antes a gente tinha mais paz. Era bem melhor. Queria que não tivesse esse presídio aqui. Odeio", criticou.

Enquanto os ambulantes faturam na porta da cadeia, o comércio regular da rua também reclama. Há 14 anos no comando do Bar do Ricardo, Ricardo Ribeiro, 48, preferia a freguesia anterior, de parentes de PMs detidos.

"Eles vinham relaxar do peso das visitas e tomavam uma cervejinha aqui. Agora os presos da Lava Jato e seus parentes ricos jamais pisam aqui no meu bar e os que estão sob custódia são muito humildes e também não compram nada. O movimento caiu 50%", lamenta Ricardo.

O dono do bar discorda, contudo, dos vizinhos que apontam para um aumento de delitos na área. "Tem viaturas passando na rua toda hora, seja da PM, da [Polícia] Civil ou da Polícia Federal. Também temos juízes passando com seguranças. Acho que ficou mais seguro", acredita.

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O conjunto Pedregulho, projetado pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy, pode ser visto da rua do presídio

Os fundos da cadeia --onde fica o pátio do banho de sol dos detentos da Lava Jato-- dão para a avenida Carlos Mattoso Corrêa, entrada da favela Parque Arará, que conta com uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora). Há rampas externas de acesso aos corredores das celas.

Moradores da avenida disseram ao UOL nunca terem visto Sérgio Cabral descendo por ali para o banho de sol. "Graças a Deus nunca o vi. Isso aí não é um presídio, é um hotel cinco estrelas", disse uma moradora. Segundo ela, que pediu para não ser identificada, o local é tranquilo e não tem muito barulho.

Reportagem da "TV Globo" afirmou que bailes funk na comunidade têm atrapalhado as noites de sono de Cabral. Consultado, o advogado do ex-governador, Rodrigo Roca, disse desconhecer o problema.

"O baile mesmo é lá dentro da comunidade, bem próximo à avenida Suburbana, longe daqui e da cadeia. Não dá para escutar. Aqui é muito sossegado", explicou ela, vizinha dos fundos da cadeia.

Segundo outros moradores que também pediram para não serem identificados, são carros que colocam som alto --funk e forró-- nos bares da Carlos Mattoso. "Mas é só no fim de semana", minimizou uma idosa.

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