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Marca da Petrobras nos anos Lula, Comperj ainda em obras e com prejuízo recebe ex-presidente

Bernardo Barbosa

Do UOL, em São Paulo

  • Stéferson Faria 31.mar.2008/Divulgação/Petrobras

    Em março de 2008, como presidente, Lula inaugurou as obras do Comperj ao lado de Dilma, Cabral, Pezão, Crivella, Lobão e outros políticos

    Em março de 2008, como presidente, Lula inaugurou as obras do Comperj ao lado de Dilma, Cabral, Pezão, Crivella, Lobão e outros políticos

Parada desta quinta-feira (7) na "caravana" do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pelo Estado do Rio, o Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro) foi uma das marcas da grandiosidade almejada para a Petrobras no governo do petista, mas se tornou sinônimo de prejuízo bilionário, corrupção e atraso. Mais de dez anos depois de o próprio Lula lançar a pedra fundamental do complexo, toda a região da cidade de Itaboraí, a cerca de 50 km do Rio, ainda espera que as obras deslanchem de vez.

A história do Comperj é repleta de turbulências. A maior delas foi a Operação Lava Jato, cuja investigação descobriu uma série de irregularidades em contratos da Petrobras com empreiteiras para serviços no complexo -- o ex-governador fluminense Sérgio Cabral (PMDB) chegou a ser condenado por receber propina ligada a obras de terraplanagem no local.

A revelação do esquema de corrupção afetou a execução dos contratos, e as obras do Comperj estão paradas desde setembro de 2015. Mas, mesmo antes disso, o andamento dos trabalhos já havia sido afetado por inúmeras greves de funcionários do complexo e por uma anulação judicial das licenças ambientais para a construção.

O resultado disso, do lado de dentro do complexo, são instalações enferrujadas e furtos de fiações, segundo reportagem da "Folha de S. Paulo" publicada em abril. Do lado de fora, os moradores de Itaboraí perderam centenas de empregos e a cidade, milhões de reais em arrecadação.

Questionada pelo UOL sobre o impacto da interrupção das obras sobre a cidade, a prefeitura de Itaboraí --uma cidade de cerca de 200 mil habitantes-- disse que o município arrecadou cerca de R$ 33 milhões em 2016 contra um total de quase R$ 800 milhões entre 2013 e 2015. 

Dados do Ministério do Trabalho, por sua vez, mostram que Itaboraí perdeu mais de 16 mil empregos com carteira assinada entre 2014 e 2016. A prefeitura confirma que esta perda tem relação com a interrupção das obras no Comperj. O poder público municipal tornou-se o maior empregador da cidade e oferece dados dos moradores cadastrados no Sine (Sistema Nacional de Empregos) a empresas privadas.

"No auge, a gente chegou a 35 mil empregos diretos e indiretos entre 2012 e 2014", disse o secretário municipal da Fazenda, Edson Brandão.

Fernando Donasci - 14.jun.2006/Folha Imagem
Lula lança pedra fundamental do Comperj com o então presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli

Sem prazo para terminar

Lula lançou a pedra fundamental do Comperj em 14 de junho de 2006. Naquele momento, a Petrobras previa investimentos de US$ 6,5 bilhões (R$ 21 bilhões, segundo a cotação atual) e a geração de 200 mil empregos, com as operações começando em 2012. Além de uma refinaria, a intenção era erguer um parque industrial para a produção de derivados de petróleo. Era o maior projeto individual da história da estatal.

As obras só começaram em março de 2008, já com uma nova estimativa de investimentos: US$ 8,4 bilhões (R$ 27,4 bilhões). 

Agora, o Comperj se resume à refinaria e a uma unidade de processamento de gás natural. Segundo a Petrobras, esta parte entrará em operação em 2020. Já a refinaria ainda não ganhou um prazo para conclusão, pois isso depende de parcerias com empresas privadas.

Em fevereiro, a Petrobras anunciou que as obras da unidade de processamento de gás natural exigiriam mais US$ 2 bilhões e deveriam ser retomadas no segundo semestre desse ano. A estatal não respondeu ao UOL se a previsão se confirmou.

A Petrobras também não informou quanto já foi investido nas obras do Comperj e quanto ainda precisará ser gasto para que o complexo seja concluído. Segundo uma estimativa divulgada na Câmara em 2016, a estatal já havia gastado US$ 14,3 bilhões (R$ 46,2 bilhões) desde 2008 e ainda precisaria desembolsar mais US$ 5,3 bilhões (R$ 17,1 bilhões) para terminar a construção. 

Divulgação/Petrobras
Vista aérea da região onde o Comperj está sendo erguido

Para efeito de comparação, a soma das estimativas do que já havia sido gasto e do que ainda precisava ser investido no Comperj (R$ 63,3 bilhões) é praticamente igual à metade dos recursos previstos para o Ministério da Saúde no Orçamento de 2017 (R$ 125,3 bilhões).

No mês passado, o TCU (Tribunal de Contas da União) apontou um prejuízo de US$ 12,5 bilhões (R$ 40,3 bilhões) na construção do Comperj. Desse valor, US$ 9,5 bilhões (R$ 30,7 bilhões) seriam "atribuíveis aos ex-dirigentes" da estatal.

Em abril, o TCU bloqueou bens de oito empreiteiras para cobrir um prejuízo de R$ 544 milhões decorrente do superfaturamento de quatro contratos de obras no Comperj.

No relatório de divulgação de resultados financeiros do terceiro semestre deste ano, a Petrobras comunicou a seus investidores uma perda de R$ 129 milhões decorrente de desvalorização de ativos no Comperj.

Petistas foram contra visita de Lula

O retrato do Comperj como um projeto que consumiu bilhões e está associado com casos de corrupção fez dirigentes petistas incentivarem Lula a cancelar a visita ao complexo. O temor é de que o nome do ex-presidente fique associado aos escândalos envolvendo ex-governadores do Rio e à grave crise econômica que assola o Estado. 

No entanto, a coordenação da "caravana" lulista diz que o objetivo da ida ao Comperj é denunciar o abandono da obra --segundo petistas, em função da Lava Jato.

Há meses, o mercado especula que a Petrobras vai se associar à chinesa CNPC para concluir o Comperj. O presidente da Petrobras, Pedro Parente, já confirmou as negociações, mas até agora nenhum anúncio formal da parceria foi feito. 

A Prefeitura de Itaboraí diz que espera a retomada das obras no primeiro semestre de 2018, segundo informações obtidas junto à Petrobras. De acordo com estimativas não oficiais do secretário Brandão, a volta dos trabalhos na unidade de gás pode gerar 450 empregos em 2018 e 6 mil em 2019.

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