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Encontros, notas e dúvida sobre pagamento: veja o que Lula falou sobre o sítio de Atibaia

14.nov.2018 - Lula depõe sobre sítio em Atibaia em processo da Lava Jato - Reprodução
14.nov.2018 - Lula depõe sobre sítio em Atibaia em processo da Lava Jato Imagem: Reprodução

Ana Carla Bermúdez, Bernardo Barbosa, Guilherme Mazieiro e Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

14/11/2018 22h30

Interrogado nesta quarta-feira (14) em Curitiba no processo da Operação Lava Jato sobre o sítio de Atibaia (SP), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) negou ter informações sobre as reformas que, segundo outros réus, testemunhas e o MPF (Ministério Público Federal), foram feitas em seu benefício por empreiteiras.

Neste processo, Lula é réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. De acordo com a acusação, o ex-presidente recebeu propina de cerca de R$ 1 milhão por meio de reformas bancadas pela Odebrecht, OAS e o pecuarista José Carlos Bumlai no sítio. Segundo o MPF, esses recursos vieram do esquema de corrupção na Petrobras. Os procuradores também afirmam que Lula atuou para beneficiar a Odebrecht e a OAS em contratos com a estatal.

A defesa do ex-presidente afirma que a referência à Petrobras foi um "pretexto" criado pela força-tarefa da Lava Jato no MPF do Paraná "para submeter Lula a processos arbitrários perante a Justiça Federal de Curitiba". Os advogados afirmam que Lula sofre perseguição política e não cometeu crimes.

De acordo com testemunhas e réus que têm acordo de delação premiada, as reformas teriam começado no fim de 2010. Bumlai, primeiro, e depois a Odebrecht, teriam se encarregado desta fase inicial, quando houve a construção de um anexo à casa principal e reparos na piscina, na sauna e em um campo de futebol. Já em 2014, a OAS teria bancado e realizado uma obra na cozinha do sítio.

Eu tenho a tranquilidade de dizer que eu não sei quanto custou, quanto gastou, quem fez, por que fez e o que fez. Quem pode dizer isso é o dono do sítio
Ex-presidente Lula, durante interrogatório

Lula ironizou a versão do empresário Emílio Odebrecht, também réu no processo, de que teria comentado com o presidente que o sítio estaria "pronto". Emílio relatou ter dito isso a Lula em dezembro de 2010. O empresário afirmou que, como Lula ficou em silêncio, pressupôs que o ex-presidente tinha conhecimento das reformas. 

"Eu vi até pela televisão o Emílio dizendo, dando um sorrisinho sarcástico, de que 'olha, até lembrei e falei com o presidente 'o sítio está pronto', ele não me respondeu nada, eu pressuponho que ele conhecia'. Ele poderia ter pressuposto que eu não conhecia, se eu conhecesse eu ia dar um abraço nele, 'obrigado, doutor Emílio, que maravilha que o senhor fez'".

Vista aérea de sítio em Atibaia atribuído a Lula - 5.fev.2016 - Jorge Araujo/Folhapress - 5.fev.2016 - Jorge Araujo/Folhapress
Vista aérea do sítio, onde teriam sido feitas as reformas para Lula
Imagem: 5.fev.2016 - Jorge Araujo/Folhapress

Marisa e pedidos de reforma

Lula também rebateu as declarações de outros réus de que a ex-primeira-dama Marisa Letícia teria pedido a eles -- Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht; José Carlos Bumlai; e Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS -- as obras no sítio. Pinheiro chegou a afirmar que o próprio Lula tratou das reformas com ele, o que o ex-presidente negou.

"Agora ficou fácil falar o nome da dona Marisa, porque ela morreu", reclamou.

Lula não disse que os acusadores mentiram, mas afirmou não acreditar que sua ex-mulher pudesse ter pedido as reformas no sítio, que pertence ao empresário Fernando Bittar. As famílias de Lula e de Bittar são amigas há décadas.

Não acredito que a dona Marisa tivesse efetivamente relação para pedir para uma empresa fazer obras. E também porque [o sítio] não era dela
Ex-presidente Lula

Lula declarou ainda não saber se Rogério Aurélio Pimentel, que foi seu assessor da Presidência da República e é réu no processo, acompanhou as obras no sítio, nem por que motivo notas fiscais de reformas feitas pela Odebrecht foram encontradas em seu apartamento -- mas não descartou que os comprovantes possam ter sido entregues para Marisa.

O ex-presidente reconheceu, por outro lado, que "o pedalinho foi ela que comprou mesmo". Ainda na fase de investigação, a PF encontrou no sítio dois pedalinhos com nomes de netos do casal.

Lula também confirmou que esteve em 2014 no sítio com o arquiteto Paulo Gordilho -- que trabalhava na OAS e também é réu -- e Léo Pinheiro, além de Fernando Bittar, Marisa Letícia e um de seus filhos -- segundo Gordilho, seria Fábio Luís. Segundo Lula, Pinheiro e Gordilho foram até lá "pela amizade", para avaliar a situação de um vazamento no lago da propriedade.

Foto obtida pela PF mostrou Lula no sítio de Atibaia com o ex-presidente da OAS, Léo Pinheiro - Polícia Federal - Polícia Federal
Foto obtida pela PF mostra Lula (de chapéu) no sítio de Atibaia com Léo Pinheiro
Imagem: Polícia Federal

OAS ofereceu "mobília", diz ex-presidente

Outro assunto em que Lula alegou desconhecimento foi a reforma da cozinha, que segundo a acusação custou R$ 170 mil e foi paga pela OAS.

"Eu não sei quem fez a reforma da cozinha. O que eu sei é que foi discutido entre o Fernando, a mulher do Fernando e a dona Marisa que era preciso tentar ver se aumentava a cozinha, que a cozinha estava pequena."

No entanto, Lula declarou que a OAS ofereceu, por meio de Gordilho, "um pacote de mobília para a cozinha", mas não soube dizer o motivo da oferta. Segundo o ex-presidente, Marisa já tinha uma "cozinha pronta" para levar a Atibaia.

"Precisa perguntar para o Léo [Pinheiro]. A dona Marisa se recusou dizendo que ela tinha as coisas prontas."

Dúvidas sobre pagamento

Lula afirmou não saber por que a OAS pagaria pela cozinha, e disse não ter estranhado que uma grande construtora fizesse uma reforma no sítio que frequentava.

"Eu não estranhei porque não era uma grande empreiteira fazendo uma reforma. Era uma pessoa [Léo Pinheiro] com quem eu tinha relação há mais de 20 anos fazendo uma coisa sem dizer, sem falar de caixa geral, que eu estou sabendo agora, e acho que ele tinha cobrado."

Segundo o ex-presidente da OAS, os recursos gastos pela empresa no sítio foram debitados de um "caixa geral" de propinas que a empreiteira tinha com o PT.

Lula também evitou comentar a declaração de Fernando Bittar de que, quando descobriu que as notas da reforma da cozinha tinham sido emitidas em seu nome, procurou Marisa para dizer que não teria dinheiro para arcar com as obras. Segundo Bittar, Marisa -- a quem se refere como "tia" -- disse que resolveria a questão.

"Se o Fernando se assustou com aquilo lá custando R$ 170 mil, a dona Marisa surtava”, declarou o ex-presidente, dizendo que Marisa tomava conta de suas finanças desde a década de 1970. "Ela era muito responsável, e não acredito que a Marisa tenha feito alguma coisa que possa resultar em ela não pagar alguém. Se ela não pagou, é porque alguém convenceu ela que não precisava receber." 

Em seu interrogatório, Bittar disse que pensava que Lula e Marisa pagariam pelas obras. Lula, por sua vez, afirmou que Bittar teria arcado com os trabalhos.

As obras não foram feitas para mim. Portanto, eu não tinha que pagar, porque achei que o dono tinha pago. Só isso
Ex-presidente Lula

Lula foi o último dos 13 réus do processo sobre o sítio a ser interrogado. Agora, será aberto prazo para que as defesas e a acusação façam seus últimos pedidos à Justiça. Na sequência, a juíza Gabriela Hardt, que substitui Sergio Moro, vai abrir prazo para as alegações finais das partes. Depois disso, a magistrada poderá proferir sua sentença.

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