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Vendedor diz que foi agredido por Damares e pede investigação à PGR

Arquivo pessoal
O vendedor Thiego Santos, 34 Imagem: Arquivo pessoal

Janaina Garcia

Do UOL, em São Paulo

2019-01-08T14:30:29

08/01/2019 14h30

O vendedor Thiego Santos, 34, protocolou pedido na PGR (Procuradoria Geral da República) para que o órgão abra investigação criminal contra a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. No pedido, apresentado nesta segunda-feira (7), Santos afirma ter sido agredido, ameaçado e constrangido pela ministra na loja de roupas em que ele trabalha, em um shopping de Brasília, na semana passada.

A associação do nome dele ao da ministra veio a público quando o vendedor postou um vídeo em suas redes sociais questionando o fato de Damares estar com roupa azul. Isso ocorreu um dia depois de a ministra ter afirmado, após tomar posse, que o Brasil estaria entrando em uma "nova era" em que "meninos vestem azul e meninas vestem rosa". As imagens mostram Damares deixando o local visivelmente aborrecida. Com a repercussão, ela disse ter sido constrangida pelo vendedor "como mulher e consumidora".

No pedido de investigação, a defesa do vendedor afirma que ele só conseguiu filmar com o próprio celular a parte final da conversa com a ministra, dentro da loja. "Pelo vídeo que Thiego postou, a impressão que se passou à sociedade é que ela teria entrado na loja e sido provocada por ele, que a filmou saindo indignada", afirmou o advogado de Santos, Suenilson Sá. "Mas, na verdade, o vídeo dele faz parte de uma sequência muito maior. Foi uma defesa que ele teve a uma atitude da ministra, que estava acompanhada de duas assessoras quando foi recebida por ele."

De acordo com o advogado, na primeira abordagem a Damares, Santos teria dito a ela que a loja estava "toda em promoção". Ao pegar uma blusa e mostrar às assessoras, continuou Sá, elas teriam desaprovado a peça. Ao começar a se retirar, o vendedor teria indagado sobre a roupa azul que Damares usava, em contraste com a declaração dela na véspera.

"Nesse momento, a ministra disse a ele: 'não se trata disso. Quero acabar com essa ideologia de gênero nas escolas'." Thiego respondeu a ela: 'isso não existe. Minha mãe é professora há 20 anos, ela nunca fez isso'. Nesse instante, a ministra colocou a mão no pescoço dele e esbravejou: 'existe, sim, eu sou professora e isso vai acabar'. A reação do Thiego foi retirar o celular bolso para filmar esse gesto, mas uma das assessoras bateu na mão dele e ele soltou o aparelho. Só conseguiu filmar elas já saindo da loja", segundo o relato do advogado.

O defensor diz que não houve constrangimento por parte do vendedor. "O que ele fez foi um movimento de defesa. A partir do momento em que ela colocou a mão no pescoço dele, essa é uma intimidação que configura ameaça, vias de fato, constrangimento ilegal, e precisa ser investigada. A PGR tem que zelar pelo direito à liberdade de expressão", disse.

Procurada nesta terça (8) sobre a representação à PGR, a assessoria de imprensa da ministra informou que se manifestaria mais tarde. Na semana passada, sobre o vídeo, Damares havia dito que "como mulher e consumidora fui constrangida pelo vendedor na porta do provador onde experimentei uma roupa. Saí da loja não pelos questionamentos, mas porque deixei de ser atendida na compra".

No pedido à PGR, foi solicitado que o órgão requeira à loja Cantão, onde Santos trabalha, imagens do circuito interno de TV a fim de que a narrativa seja analisada.

Em vídeo publicado ontem ao lado do advogado, do lado de fora da PGR, o vendedor agradece o apoio e diz que não vai parar. 

Defesa relata ameaças racistas e homofóbicas à polícia

Além da PGR, a defesa do vendedor também registrou queixa ontem na Decrim, delegacia especializada de crimes por discriminação racial, religiosa ou por orientação sexual, em razão de ameaças que o rapaz estaria sofrendo desde que publicou o vídeo.

Segundo o advogado, foram "mais de 400" ameaças de conteúdo racista ou homofóbico --Santos é negro e assumidamente gay--apresentadas à Polícia Civil por meio de mensagens recebidas nas redes sociais do vendedor.

"A ideia dele era não levar adiante essa questão da ministra, mas, diante da repercussão, vieram essas centenas de ameaças, inclusive, algumas bastante insidiosas, sobre a cor da pele e a orientação sexual dele. Não atribuo a esse governo empossado 100% do discurso de ódio que está colocado, mas fica o alerta de que muita gente se sente à vontade para colocar seus demônios para fora. Não há que se partidarizar isso", afirmou.

O UOL teve acesso a algumas das mensagens apresentadas à polícia --há ofensas racistas explícitas, como xingamentos de "macaco", e outras, com conteúdo intimidatório, sugerem que ele deixe o país. "Um dia você vai pagar o que fez com a ministra. Aguarde", escreveu uma internauta.

"Metáfora contra ideologia de gênero"

A declaração de Damares sobre o uso de azul por meninos, e de rosa, por meninas, repercutiu nas redes sociais, virou meme e provocou reação de celebridades e políticos.

Com a repercussão, em entrevista ao jornal "O Estado de S.Paulo", a ministra reagiu: "fiz uma metáfora contra a ideologia de gênero, mas meninos e meninas podem vestir azul, rosa, colorido, enfim, da forma que se sentirem melhor".

Em comunicado à imprensa semana passada, a assessoria da loja informou que "nenhum tipo de preconceito ou falta de respeito é aceito" pelo grupo e disse estar "resolvendo essa questão de forma clara e humana com os envolvidos, buscando compreender melhor todo o contexto (não publicado) do vídeo".