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Ex-alunos de Vélez e Olavo e ala ligada a militares dominam o novo MEC

Indicado por Olavo de Carvalho, Ricardo Vélez nomeou alunos de ambos - Ernesto Rodrigues/Estadão Conteúdo
Indicado por Olavo de Carvalho, Ricardo Vélez nomeou alunos de ambos Imagem: Ernesto Rodrigues/Estadão Conteúdo

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

12/01/2019 04h00Atualizada em 14/01/2019 16h08

A equipe que assumiu o MEC (Ministério da Educação) com o início do governo Jair Bolsonaro (PSL) revela o domínio de dois grupos na pasta: um ligado ao ministro Ricardo Vélez Rodríguez e ao escritor Olavo de Carvalho, incluindo ex-alunos de ambos, e outro indicado por militares, com ligações com o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica).

"Os alunos do ministro e o pessoal da Aeronáutica estão mandando no MEC", diz um integrante da equipe que trabalhou na transição do governo Michel Temer (MDB) para a administração Bolsonaro, no fim de 2018.

Os grupos não estão necessariamente em oposição. O próprio ministro tem relações com militares. Ele é professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, que forma oficiais de alta patente.

Comparação com movimento católico

A ênfase ideológica no discurso do ministro, que fala em combater, por exemplo, o que ele chama de marxismo cultural, levou especialistas em educação e integrantes da equipe de transição a chamar os membros do grupo de Vélez de "inquisidores", em referência à inquisição espanhola, movimento da Igreja Católica de combate a hereges, que se valeu de processos, perseguições e torturas entre os séculos 15 e 19. 

A influência de Olavo de Carvalho na pasta inclui o próprio ministro, indicado pelo escritor. Colombiano naturalizado brasileiro, Vélez fez sua carreira acadêmica na área de filosofia e atuou como professor em pelo menos 14 instituições de ensino. Ele colocou ex-orientandos no comando de três das sete secretarias da pasta. Discípulos de Olavo ocupam outras posições, como a chefia de gabinete, a secretaria de Alfabetização e a direção de Avaliação da Educação Básica, órgão do Inep responsável pelo Enem.

Balão Mágico nas raízes de Londrina (PR)

Uma parte do grupo tem raízes em Londrina (PR), cidade onde o ministro trabalhava - ele foi professor da UEL (Universidade Estadual de Londrina) e da Faculdade Arthur Thomas, na mesma cidade. São ligados a Londrina o chefe de gabinete Tiago Tondinelli e o secretário de Alfabetização, Carlos Francisco de Paula Nadalim. Ambos se formaram na UEL.

Tondinelli é advogado, tem mestrado em letras, doutorado em filosofia e fez o curso online de filosofia de Olavo de Carvalho. Elogiado pelo escritor, Nadalim também se formou em direito, mas fez mestrado em educação e especialização em filosofia. Ele dá aulas de filosofia, música e violão, além de trabalhar em um método de alfabetização aplicado na escola de sua família em Londrina, a Mundo do Balão Mágico.

Outro seguidor de Olavo, mas sem relação com a cidade paranaense, é o diretor de Avaliação da Educação Básica, Murilo Resende Ferreira. Ele é doutor em economia pela FGV (Fundação Getúlio Vargas) e professor na Escola Superior Associada de Goiânia. 

Conexões de Juiz de Fora (MG)

A outra parte do grupo tem conexões com a UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora), onde Vélez também trabalhou. O secretário de Educação Profissional e Tecnológica, Alexandro Ferreira de Souza, foi orientado pelo ministro durante a graduação em filosofia. Depois, fez mestrado e doutorado em Ciência da Religião na mesma universidade. 

O secretário de Regulação e Supervisão da Educação Superior, Marco Antônio Barroso Faria, fez a mesma trajetória acadêmica do colega, mas foi orientado por Vélez no mestrado e no doutorado. Ele é professor na UEMG (Universidade Estadual de Minas Gerais), no campus de Ubá.

Bernardo Goytacazes de Araújo, secretário de Modalidades Especializadas de Educação, também se graduou em filosofia na UFJF. Foi orientado pelo ministro em um curso de especialização em ética e filosofia política feito na mesma universidade. Sua experiência em gestão aconteceu na Prefeitura de Três Rios (RJ), em que ocupou o cargo de secretário.

"O novo governo tem uma fragilidade monumental quanto a quadros na educação. O ministro fez escolhas de foro pessoal, bem íntimo, nomeando pessoas que ele conheceu. Não vejo consistência", diz uma pessoa ligada ao ministério que pediu para não ser identificada. "Se o corpo técnico do MEC se impuser e ensinar para essas pessoas sem experiência o que precisa ser feito, a nova equipe poder ter futuro", avalia.

Vínculos com as Forças Armadas

No grupo indicado por militares, destacam-se o secretário executivo Luiz Antonio Tozi e o designado para comandar a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), Anderson Ribeiro Correia.

Este grupo chega com experiência de gestão. Ribeiro Correia é professor e reitor do ITA, tem graduação em engenharia civil, com mestrado em engenharia de infraestrutura aeronáutica e doutorado em engenharia de transportes.

Tozi também fez trajetória acadêmica nas engenharias - naval, oceânica, infraestrutura aeronáutica e mecânica - e pós-graduação no ITA. Vinha atuando como diretor da Faculdade de Tecnologia de São José dos Campos (SP). 

Ele estava cotado para ser secretário de Educação Básica, mas foi deslocado às vésperas da posse, quando o cientista político Antônio Flávio Testa, que ocuparia a secretaria executiva, foi desconvidado pelo ministro Vélez.

O general Oswaldo de Jesus Ferreira foi nomeado para comandar a Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), estatal que cuida da gestão dos hospitais universitários federais.

A equipe nomeada por Vélez também tem duas figuras ligadas à FGV-Rio: o economista Carlos Alberto Decotelli da Silva, que comanda o FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação); e o engenheiro Marcus Vinicius Carvalho Rodrigues, à frente do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira).

A nova secretária de Educação Básica, Tânia Leme de Almeida, era diretora da Fatec (Faculdade de Tecnologia) de São Carlos (SP). E o secretário Educação Superior, o matemático Mauro Rabelo, é o único remanescente da equipe do governo Temer.

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