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Duelo Renan-Alcolumbre muda chefe da Polícia do Senado, há 14 anos no cargo

Edilson Rodrigues/Ag.Senado/31.out.2014
O servidor Pedro Ricardo Araújo Carvalho Imagem: Edilson Rodrigues/Ag.Senado/31.out.2014

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

2019-02-12T19:02:47

12/02/2019 19h02

Resumo da notícia

  • Pedro Carvalho, chefe da Polícia do Senado, deixa o cargo após 14 anos
  • Elo com Renan Calheiros teria desagradado novo presidente da Casa
  • Carvalho é investigado no caso das maletas antigrampo do Senado

Chefe da Polícia do Senado há 14 anos, o servidor Pedro Ricardo Araújo Carvalho perdeu o cargo nesta terça-feira (12), por decisão do presidente da Casa, Davi Alcolumbre (DEM-AP). A disputa de poder do democrata com o senador Renan Calheiros (MDB-AL) é a principal causa da queda de "Pedrão", apontam servidores com quem a reportagem conversou

O sucessor dele será Alessandro Morales Martins, um ex-agente da Polícia Federal que ingressou no Senado em 2014. Pedro Ricardo está há 14 anos no posto, segundo fontes ouvidas pelo UOL. Ele permanece no Senado, mas não em um cargo de chefia.

Na tarde desta terça, Carvalho ainda estava no seu gabinete na Polícia do Senado, no subsolo da Casa. Ele não quis falar com o UOL. Sua secretária repassou o recado de que não teria tempo que conversar.

Em entrevista na terça-feira, Alcolumbre negou que a ligação de Pedrão com o MDB tivesse pesado para sua dispensa. Ele falou em "oxigenação da gestão". "Achei por bem fazermos uma oxigenação na gestão, especialmente na Polícia do Senado", afirmou.

"Pesou o fato de o DEM, aliado a todos os outros partidos, entenderem que nós precisávamos mudar a condução da gestão. E a condução da gestão passa por uma polícia que possa se reoxigenar e se reinventar com a mudança do chefe do departamento de polícia legislativa."

"Afilhado" da família Sarney

Na Câmara, o cargo de chefe da segurança - ou "polícia legislativa" - é trocado a cada dois anos, quando se muda o presidente da Casa. No Senado, não. "Pedrão" permanecia no posto anos a fio. 

Uma vez, contou uma fonte do UOL, Renan ameaçou trocar o diretor da polícia, mas ele foi mantido na posição a pedido da mulher do ex-presidente José Sarney, Marly Macieira.

A dispensa ocorreu um dia antes da mais nova tentativa do STF (Supremo Tribunal Federal) de julgar a legalidade da operação que revelou maletas antigrampo usadas pela equipe de "Pedrão" para barrar escutas da Operação Lava Jato em imóveis de político. 

O caso fez o agora ex-chefe da Polícia do Senado ser investigado pela Operação Métis. Sua defesa no STF já afirmou que ele "nega peremptoriamente" todas as acusações.Quando assumiu o comando da Casa, em 2017, o então senador Eunício Oliveira (PMDB-CE) manteve-o no cargo, mesmo após Pedrão e três subordinados dele serem investigados por corrupção e obstrução da Justiça.

Há um ano e meio, Carvalho manteve a discrição em outro pedido de contato da reportagem. "Não quero contar minha história, não", falou. "Minha história está sendo contada. Pode ficar tranquilo."

Depois de se reunir com Pedro Ricardo, o advogado Max Telesca disse à reportagem que a saída do cargo nada tem a ver com julgamento de hoje no Supremo, mas com a troca de comando na Mesa do Senado.

Segundo ele, a defesa vai demonstrar aos ministros que, primeiramente, os fatos investigados pela Polícia Federal estão relacionados a senadores e, por isso, a apuração foi ilegal por não ter autorização do STF. Além disso, o advogado afirmou que será provado que os fatos - as varreduras feitas nos imóveis dos senadores depois das ações da Lava Jato - não significaram crime algum de obstrução à Justiça. "Os fatos são de competência do Supremo, e os fatos não são crime", resumiu Telesca.

"É a Casa do Povo? Não sabia", disse ex-diretor

Em 2009, quando Sarney enfrentava séria oposição da opinião pública, Carvalho protegia a Casa de protestos contra o emedebista. Num desses episódios, a população estava em frente ao gramado com cartazes e palavras de ordem sob um sol escaldante de Brasília. Carvalho ordenou que os policiais bloqueassem a entrada.

A reportagem perguntou qual o motivo de o protesto ser proibido tendo em vista que o local era público e, a poucos metros dali, uma placa indicava o Legislativo como "a Casa de todos os brasileiros". O servidor respondeu ironicamente: "É a Casa do Povo? Não sabia!".

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