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Líder de Bolsonaro na Câmara busca apoio e "toma lições" até com ex-lulista

Em meio a crise no PSL, Major Vitor Hugo foi ao Alvorada falar com Jair Bolsonaro  - Reprodução 14.fev.2019/Twitter
Em meio a crise no PSL, Major Vitor Hugo foi ao Alvorada falar com Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução 14.fev.2019/Twitter

Guilherme Mazieiro

Do UOL, em Brasília

15/02/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Falta de experiência parlamentar é motivo de críticas por parte de governistas e oposicionistas
  • Major se defende e diz que também tem o apoio de muitos parlamentares
  • José Múcio Monteiro, atual presidente do TCU e líder do governo Lula em 2007, é um de seus “conselheiros”

O líder do governo na Câmara, major Vitor Hugo (PSL-GO), completou ontem um mês no papel de articulador e representante do governo Jair Bolsonaro (PSL) entre os deputados federais.

Pelos corredores da Casa, é criticado por colegas por falta de proatividade, tato e negociação com os parlamentares.

Mas há quem o defenda, e acredite que esse é o caminho natural de um novato com boas intenções - ele tem até tomado "lições" de deputados veteranos para se adequar ao posto.

Sei do caráter estratégico e da sensibilidade da função. E aos modos dos outros novatos eu nunca fui político. A sociedade tem uma aspiração de ver a política renovada. Então isso vai ao encontro com o que a sociedade quer. Agora, é lógico que gera um ônus para quem está assumindo porque tem que entregar resultados
major Vitor Hugo, em entrevista ao UOL

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Por duas décadas, Vitor Hugo esteve nas fileiras do Exército, onde atingiu a patente que usa no nome
Imagem: Divulgação

O major tem entre umas das principais funções viabilizar o consenso em torno da reforma da Previdência. Ele entende que esta missão está sendo executada aos poucos, conhecendo as pessoas e entendendo as demandas.

E justamente por ser um iniciante é criticado pelos deputados, que questionam sua capacidade de articular e criar consensos.

A necessidade que o major tem de demonstrar recebimento de apoio pode ser percebida na sua rotina na Câmara. Durante uma caminhada pelo corredor da Casa, o deputado foi abraçado e levantado do chão pelo correligionário Professor Joziel (PSL-RJ).

"Você já viu um deputado ganhar um abraço desse? Você tem que retratar isso. Vocês só retratam quem bate em mim. Tem que dizer 'pô, o cara é abraçado no corredor'", disse, rindo, à reportagem após o abraço.

O esforço em demonstrar que angariou aliados está também nas redes sociais, canal preferido pelos bolsonaristas. 

No dia 8 de fevereiro, o líder do PSL na Câmara, delegado Waldir (GO), sugeriu a troca de Vitor Hugo. O major rebateu a postagem no Twitter e nos dois dias seguintes fez 12 publicações de parlamentares declarando apoio, entre eles o senador Major Olímpio (PSL-SP) e Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

"Ele tem que desempenhar o papel dele. A gente não sabe se é bom ou se ruim. Ele vai ser o para-raios de toda insatisfação que qualquer deputado tiver com o governo", disse ao UOL delegado Waldir (PSL-GO).

Vitor Hugo ponderou que, dos 31 dias que ficou na função, em 17 o presidente esteve fora de combate, internado em São Paulo, e que isso afeta o andamento do seu trabalho. Ontem os dois se encontraram no Palácio da Alvorada.

Sobre a semana de trabalho em plenário, o líder considerou uma vitória a negociação e aprovação, nesta semana, em torno da medida provisória que tratava de sanções a grupos terroristas.

Major Vitor Hugo discursa e fala sobre combate ao terrorismo

UOL Notícias

Já sobre a crise aberta com as denúncias e investigações sobre os laranjas do PSL, envolvendo o ministro da Secretaria-Geral, Gustavo Bebianno, silêncio. Nenhuma declaração pública do líder bolsonarista.

Escolha pessoal de Jair Bolsonaro, Vitor Hugo foi anunciado pelo Twitter do presidente, em 14 de janeiro. A postagem foi compartilhada pelo parlamentar e está fixada como a primeira publicação de seu perfil pessoal.

Novato na Casa, Vitor Hugo, 41, está no primeiro mandato e nunca tinha assumido um cargo eletivo. Por duas décadas figurou nas fileiras do Exército, onde atingiu a patente que usa no nome. Entrou para vida civil em 2015, quando passou em concurso público e assumiu a função de analista legislativo na Câmara.

Sob reserva, um parlamentar do partido disse que quadros do PSL querem "fritar o major" com declarações negativas na mídia. 

"É um processo que exige calma. Ele lembra um padre no trato, calmo e observador. Criticam ele porque o cargo é estratégico e outros partidos da base querem essa função", relatou. 

Rotina na Câmara

A agenda do líder do governo é ocupada por encontros com parlamentares, ministros e assessores técnicos. Mas recentemente abriu espaço para reuniões em que vai ouvir conselhos de figuras como:

  • Onyx Lorenzoni (ministro da Casa Civil)
  • general Santos Cruz (ministro da Secretaria de Governo).
  • José Múcio (PTB-PE), presidente do TCU (Tribunal de Contas da União) e ex-líder do governo Lula na Câmara (2007)
  • Zé Rocha (PR-BA), líder do PR na Câmara, que irá "ajudar a construir a base"

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Major Vitor Hugo aparece em missão, em foto de arquivo
Imagem: Divulgação

Um dos conselheiros procurados e que está fora das extensões bolsonaristas, o ex-líder lulista José Muci esteve com o deputado duas vezes nesta semana. O UOL apurou que entre os conselhos que Vitor Hugo recebeu do atual ministro do TCU, um dos mais importantes foi: "não trate adversários como inimigos. Trate-os com respeito, porque podem ser parceiros em muitas ocasiões".

O ministro aconselhou o líder a tentar criar consenso e garantir a solidez do seu nome dentro do próprio PSL. Assim conseguirá mostrar para os demais partidos força e boa articulação.

Múcio foi líder do segundo governo Lula, no seu quinto mandato e em um período que as lideranças no Executivo estavam calejadas com o traquejo político do Parlamento.

As tarefas do líder? 

  • nomear até 15 vices-líderes, que podem ser dos demais partidos vinculados à base
  • fazer a ponte entre parlamentares e o presidente
  • passar demandas do Executivo para a Câmara
  • pacificar o entendimento dos deputados
  • encaminhar votações de pautas relevantes para o governo

Famoso quem?

Entre partidos da oposição ao governo, o major ainda é um mero desconhecido. Dois líderes da esquerda criticam a postura de Vitor Hugo e cobram falta de diálogo.

Membros do PT e PCdoB disseram que ainda não foram convidados e não se reuniram com o novo líder do governo.

"Não sei o que te dizer sobre o desempenho dele. Não conheço. Não sei se é bom ou ruim, nunca conversou comigo. Fui vice-líder de governo da presidenta Dilma e falava com todos os parlamentares. Talvez seja uma estratégia do governo não dialogar com a oposição", disse ao UOL o líder do PT, Paulo Pimenta (RS).

Pimenta ainda questionou a habilidade política dos tutores de Vitor Hugo.

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Major Vitor Hugo ao lado de crianças, em missão
Imagem: Divulgação

"Aqui na Câmara todo mundo sabe que se vir o Onyx abraçado com alguém, separa que é briga. Só assim para ele estar junto de outro deputado. Nunca foi amigo de ninguém", disse. 

Outro líder que também não tem alinhamento com o governo, Orlando Silva (PCdoB-SP), disse que também não foi apresentado ao major, e por isso não consegue avaliar a condução dos trabalhos.

"Por enquanto não tenho muito o que falar, não tenho o que avaliar", resume Silva.