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Bolsonaro é o 1º presidente brasileiro populista desde Collor, diz pesquisa

Bolsonaro é populista, mas menos que Trump, avalia estudo -
Bolsonaro é populista, mas menos que Trump, avalia estudo

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

04/04/2019 04h02

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) é o primeiro político populista a chegar ao Planalto desde Fernando Collor (ex-PRN, 1990-1992), que foi cassado após um processo de impeachment. A informação está em pesquisa internacional que classificou, num banco de dados, centenas de discursos de líderes mundiais. Alguns deles governaram no início do século passado, como Getúlio Vargas (PTB), nos anos 30, 40 e 50.

Um dos principais responsáveis pelo estudo é o brasileiro Bruno Castanho Silva, doutor em Ciência Política e coordenador do grupo de análise textual do Team Populism (Equipe Populismo). Trata-se de uma rede internacional de cerca de 80 pesquisadores, dirigida pelo professor Kirk Hawkins, da Universidade de Brigham Young (BYU), nos EUA.

Bolsonaro reimplanta um modelo que não se via no país desde a eleição de 1989. "O Brasil tem o seu primeiro presidente populista desde Fernando Collor", esclareceu Castanho, em entrevista ao UOL, nesta semana.

Brasileiro de 30 anos, ele mora em Colônia, na Alemanha, onde faz uma tese de pós-doutorado em política europeia. O professor explica que, para ser considerado populista, o político tem que fazer discursos que coloquem "o povo" - a nação sem imigrantes, para a direita, ou os pobres e os trabalhadores, para a esquerda - em oposição à "elite". As elites costumam ser os inimigos de ambos, e formam-se pela classe política, banqueiros, FMI (Fundo Monetário Internacional), imprensa, União Europeia, teorias da conspiração como "globalismo" ou o megainvestidor George Soros.

Populismo pode ser de direita, de esquerda, extremistas ou não. Embora nem sempre seja autoritário, o modelo político populista costuma ter "ataques à democracia", como restrições à liberdade de imprensa, à independência do Judiciário e do Legislativo e um fortalecimento indesejável do Poder Executivo.

Na prática, regimes populistas tendem a ter consequências negativas para a democracia.
Bruno Castanho, pesquisador do Team Populism

Trump e Maduro x Merkel

Apesar de ser populista, Bolsonaro está alguns pontos atrás de outras figuras, como os presidentes dos EUA, o republicano Donald Trump, e o da Venezuela, o chavista Nicolás Maduro. Enquanto o chefe do Executivo no Brasil recebeu nota 0,5 numa escala de zero a dois, o americano teve 0,8 e o venezuelano, 1,6.

Para ser considerado populista, é preciso ter nota igual ao superior a 0,5 de acordo com os critérios da pesquisa. A chanceler alemã, Angela Merkel, é considerada uma política não-populista. Teve nota zero

O Bolsonaro tem alguns apelos nacionalistas, mas, ao mesmo tempo, não tem essa ideia do povo que tem que tomar as ruas ou que tem que tomar conta da política para implementar a vontade popular.
Bruno Castanho, pesquisador do Team Populism

Ele (Bolsonaro) fala muito da mídia, dos outros partidos, do governo, de tudo... Os ataques à elite são bem presentes. Mas ele não fala quase em nenhum momento do povo brasileiro de uma maneira geral. Talvez o Bolsonaro esteja mais à direita do que Donald Trump. Ele não é tão populista quanto nós mesmos esperávamos, afirma Castanho.

No Brasil, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB) não foram considerados populistas durante o período em que governaram o país. Veja os principais trechos da entrevista:

UOL - Políticos usam o termo "populismo" pejorativamente. O que é populismo?
Bruno Castanho - O populismo está no campo das ideias. É um tipo de discurso que vê a política fundamentalmente separada em dois grupos. O povo e as elites.

Para os populistas, a diferença é moral. O povo é bom, no sentido moral do termo, e a elite é má e terrível, no sentido moral, corrupta e tudo o mais. E o populismo não vê nenhuma diferença relevante na política. Não tem espaço para pluralismo. Não tem espaço para ver diferenças dentro do povo que podem existir.

Dentro de uma democracia, você tem diferentes grupos e opiniões. No populismo, isso desaparece. A única coisa que importa é que de um lado você tem o povo, essa entidade homogênea, unitária, e do outro, as elites. E por isso ele pode ser associado com ideologias de esquerda de direita. Tem populistas de direita, principalmente na Europa, que vão definir o povo como "a nação", que são nacionalistas, para quem o povo é quem pertence à nação húngara ou francesa. E as elites podem ser o FMI [Fundo Monetário Internacional], a União Europeia, algumas teorias da conspiração, falando sobre globalismo, dominação judaica internacional...

O pesquisador Bruno Castanho Silva - Divulgação
O pesquisador Bruno Castanho Silva
Imagem: Divulgação

O senhor citou vários atores nessa elite. O megainvestidor George Soros está aí?
É. Exatamente.

E no populismo de esquerda, quem é o povo?
O populismo de esquerda tende a definir o povo mais em termos econômicos. São os trabalhadores, os que têm menos condições econômicas. As elites não são tão diferentes quanto as de direita. União Europeia, o FMI, os EUA -- se é um país em que a esquerda está no poder, é claro, a classe política, os banqueiros, a imprensa.

Tanto para a esquerda como para a direita, a imprensa é vista pelos populistas como uma parte das elites, principalmente quando eles chegam ao poder.

Aliados do ex-presidente Lula na esquerda identificam em Bolsonaro um poder de comunicação semelhante ao do petista. Por que Lula não foi um presidente populista?
Porque populismo não é sinônimo de carisma. Pode-se ser muito carismático sem ver a política como essa disputa entre o povo e a elite. O oposto do populismo não é um tecnocrata, alguém que não saiba conversar, falar uma linguagem mais popular.

Ser populista é ser autoritário?
Não necessariamente. O populismo tem um componente antiliberal. Ele não lida muito bem com diferenças de opinião. O povo teria um interesse só e qualquer um que se oponha a esse suposto interesse do povo é parte da elite, um inimigo do povo.

Ao mesmo tempo o populismo tem grande ênfase na soberania popular: a política está lá para implementar a vontade popular. Isso está na base de qualquer sistema democrático. Então, há essa tensão em dois aspectos da democracia. Na prática, regimes populistas tendem a ter consequências negativas para a democracia.

Alguns ataques a elementos da democracia acontecem com governos populistas. Alguns deles dão alguns passos em direção a um regime menos democrático, alguns deles completamente para um lado mais autoritário, como é o caso mais extremo da Venezuela. Vários regimes populistas atacam sistematicamente a liberdade de imprensa.

Que outros ataques à democracia os populistas costumam desferir?

O plenário do Supremo Tribunal Federal - Rosinei Coutinho/STF/29.nov.2018
O plenário do Supremo Tribunal Federal
Imagem: Rosinei Coutinho/STF/29.nov.2018
Relativamente comuns são os ataques à independência do Judiciário. Você vê membros de governos populistas substituindo membros da Suprema Corte para conseguir controle sobre ela. Isso aconteceu em alguns países da América Latina. Houve algumas tentativas de ataque ao Judiciário na Polônia.

Em alguns casos mais extremos, você vai ter confrontos... Mudanças constitucionais para concentrar poder no Executivo e tirar poder político do Parlamento. O Congresso tem menos poder para controlar as ações do Executivo.

Esse tipo de concentração de poder é relativamente comum? É o caso da Venezuela?
Sim, a Venezuela do [Hugo] Chávez e do [Nicolás] Maduro é o exemplo mais paradigmático de um regime populista que leva a um regime ditatorial.

Bolsonaro tem nota de populismo 0,5, Donald Trump, 0,8, e Nicolás Maduro, 1,6. Por quê?
O Bolsonaro não usa tão consistentemente esses elementos do populismo que eu falei. Ele não fala tanto do povo como essa entidade mágica, boa, ética, moralmente superior. Essa ideia do povo soberano absoluto na política. Esse não é um elemento tão constante no discurso dele quanto você observa no Donald Trump, que não é tão consistente quanto você observa no Maduro.

O Bolsonaro tem alguns apelos nacionalistas, mas, ao mesmo tempo, não tem essa ideia do povo que tem que tomar as ruas ou que tem que tomar conta da política para implementar a vontade popular.

Isso não é uma coisa que a gente observou nos discursos de campanha dele. Esse foi o principal fator pelo qual ele não recebeu uma nota maior: a falta desse apelo popular. Isso explica o fato de o Bolsonaro, numa escala de populismo, ser menos populista do que o Trump. Agora, se estivéssemos medindo ideologia, em termos de esquerda e direita, talvez o Bolsonaro esteja mais à direita do que o Donald Trump. Ele não é tão populista quanto nós mesmos esperávamos.

O que o Trump diz para estar pontos à frente do Bolsonaro?
O Trump fala do povo americano tomar o poder político nos EUA. Se você ler o discurso da posse dele, em 2016, ele fala que a política estava controlada pelas elites em Washington, trabalhava contra o povo. Fala em devolver o poder ao povo americano. Esse tipo de referência ao povo como essa entidade política homogênea que é o que o Bolsonaro, pelo menos nos dois discursos de campanha dele, não usa tão consistentemente quanto o Trump e o Nicolás Maduro.

Jair Bolsonaro exibe a bandeira do Brasil após discursar no Palácio do Planalto - Wilton Junior/Estadão COnteúdo
Jair Bolsonaro exibe a bandeira do Brasil após discursar no Palácio do Planalto
Imagem: Wilton Junior/Estadão COnteúdo
E o que vocês encontraram nos discursos de Bolsonaro analisados?
Ele tem vários ataques ao que ele considera elite, principalmente no último discurso [última transmissão ao vivo pelo Facebook antes do primeiro turno das eleições do ano passado]. Ele fala muito da mídia, dos outros partidos, do governo, de tudo. Os ataques à elite são bem presentes. Ele não se refere ao povo. Ele fala dos seus apoiadores, das pessoas que estão apoiando a sua candidatura, o partido dele. De uma maneira positiva, esse é o "nós" do Bolsonaro. Mas ele não fala quase em nenhum momento do povo brasileiro de uma maneira geral. É isso que o Trump faz que o Bolsonaro, naqueles discursos de campanha, não fazia tanto. Na convenção do PSL, a maior parte do discurso ele passa agradecendo as pessoas que apoiaram ele. Tem uma grande parte contando sua história.

Bolsonaro critica a imprensa constantemente, fala em "nova política" e fala em mudar tudo o que aí está. Ele está caminhando para ser considerado um presidente ainda mais populista?
Ele pode estar indo nessa direção. Pode ser que, quando a gente vir os novos discursos dele no poder, pode ser que ele se torne mais populista, do que na nota que ele recebeu antes. Agora, a nota de 0,5 que ele recebe não quer dizer que ele não seja um populista. Só quer dizer que ele não é um populista tão forte ou consistente quanto Nicolás Maduro. Não quer dizer que ele seja um não-populista como a [chanceler da Alemanha] Angela Merkel [recebeu nota zero no estudo do Team Populism]. Tem uma diferença de nível entre os dois.

O populismo vai e vem?
É uma coisa que se observa, principalmente na América Latina. A época de populismo clássico na América Latina foi com Getúlio Vargas [1934-1945 e 1951-1954], o Juán Perón [presidente da Argentina nos anos 50 e 70]. Depois, tem a segunda leva, o populismo neoliberal, como o [Alberto] Fujimori, no Peru, Carlos Menen, na Argentina, e o próprio Fernando Collor, no Brasil. Depois, vem esse populismo de esquerda dos anos 2000, com o Hugo Chávez, o Rafael Corrêa, no Equador, o [Evo] Morales [na Bolívia], e agora o [André] López Obrador, no México. O populismo tem esse elemento redentor, de clamor pela soberania popular.

Talvez ele seja uma resposta a uns momentos de crise política nos quais parece que as elites ou classe política estão muito distantes dos anseios da população.

As pessoas não se sentem bem representadas. E daí elas se voltam para um candidato populista que promete mudar tudo o que está aí e devolver o poder pro povo. Quando os populistas chegam ao poder e não fazem isso, você tem uma volta, um movimento pendular. Um tipo de política voltado à soberania popular e um tipo de política mais voltado ao pluralismo de opiniões e à disputa partidária mais convencional.

O que fez de Collor um presidente populista?
A base de dados no artigo do [jornal] "The Guardian" [que encomendou uma pesquisa à parte para o Team Populism] foi feita para começar em 1998, mas nós temos mais dados de mais presidentes e primeiros-ministros. Os discursos dele [Collor] já tinham sido avaliados pelo professor [Kirk] Hawkins na primeira vez que iniciou esse método. Ele aparece como alguma coisa populista. Ele não é um populista muito forte. Não é um Nicolás Maduro. Mas está no mesmo nível do Bolsonaro. "Somewhat populist, pero no mucho" (um tanto populista, mas não muito). O Collor tinha esse elemento de caça aos marajás, de anticorrupção, em nome do povo brasileiro contra tudo isso, que era um elemento populista.

O Brasil retomou o populismo da era Collor?
O Brasil tem o seu primeiro presidente populista desde Fernando Collor. Mas isso não quer dizer necessariamente que o povo brasileiro hoje seja mais populista do que dez anos atrás.

Em sua posse, presidente Jair Bolsonaro faz pronunciamento oficial à nação

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