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"Instante Bolsonaro" me custou a eleição a governador, diz Márcio França

Fernando Moraes/UOL
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

22/04/2019 04h00Atualizada em 23/04/2019 13h06

Resumo da notícia

  • Ex-governador se lança para disputa à Prefeitura de São Paulo do ano que vem
  • França diz que perdeu disputa ao governo de SP porque Doria se colou a Bolsonaro
  • França afirma que transferência de líderes do PCC não foi ato de coragem

Márcio Luiz França Gomes, 55, veio de um ritmo frenético em 2018. Assumiu o governo de São Paulo em abril, disputou para se manter no cargo, mas não conseguiu. Agora, como presidente estadual de seu partido, o PSB, o ritmo diminuiu. Se divide entre a capital paulista e Brasília e acaba de se lançar como um pré-candidato à prefeitura da cidade.

"Não é uma decisão para tomar agora, mas todas as condições estão preenchidas, todos os números que eu pego são positivos. Eu ganhei bem na capital", afirmou o ex-governador em entrevista exclusiva ao UOL. "Há um mundo do Bolsonaro, outro do PT. E há o miolo que, hoje, não tem um perfil definido. Quem é o nome para conciliar os dois? Diria que o normal, para mim, é disputar a prefeitura ano que vem", complementou.

A disputa do ano passado ficou marcada por bate-bocas públicos entre França e João Doria (PSDB). O tucano acabou sendo eleito. Caso França consiga se eleger prefeito no ano que vem, terá de lidar com o desafeto. "Uma vez prefeito, minha relação com Doria seria normal. Institucional. Nesse ponto, ele é profissional. Eu também. Cada um fica no seu ponto, que são divergentes, mas não haveria problema", disse.

João Doria venceu Márcio França com 51,7% do total de votos. Na capital, no entanto, o pessebista venceu o tucano por 58,1%, contra 41,9%. "Tudo está polarizado. Eu apostei minha vida inteira para criar o oposto disso. Na prefeitura, eu teria condições de fazer isso", afirmou.

Diferentemente da relação com Doria, França elogia o atual prefeito, Bruno Covas (PSDB). "Tenho, pessoalmente, uma relação de simpatia com toda a família Covas. Pai e avô dele foram pessoas muito importantes na minha vida. Uma chapa seria muito difícil, pouco provável. Mas o Bruno é uma pessoa com quem eu tenho bons relacionamentos", afirmou. Covas, com apoio de Doria, deve tentar se lançar à reeleição ano que vem.

Por que perdeu a disputa ano passado?

"Por causa do episódio Bolsonaro. 100%. O instante Bolsonaro. Não me permitia declarar voto ao Bolsonaro, nem defender o PT". É a justificativa de França para não ter sido reeleito ano passado. Ao fim do primeiro turno, Doria afirmou que votaria em Jair Bolsonaro para presidente, lançando o slogan do "voto Bolsodoria".

Em nota, o PSDB afirma que "o eleitor paulista, de forma consciente, votou em Doria por considerá-lo mais capacitado".

"Todo mundo sabe que eu não votaria no Bolsonaro, e que tinha uma dificuldade de votar, não no Haddad, mas divergia o tempo inteiro sobre como o PT sempre tocou suas situações. Então, não é questão de revelar. Mas imagino que seja óbvio qual foi meu voto. De verdade, tenho até boa relação com o Haddad, sempre muito simpático, mas eu sabia que ele iria perder", afirmou.

Com oito meses como governador, França diz que conseguiu "iniciar abertura de conciliações". Tachado como socialista por Doria, para surfar ao lado da popularidade de Bolsonaro, França diz se identificar com o posicionamento de centro-esquerda. "Socialismo hoje é garantir oportunidades iguais para as pessoas. Me vejo uma pessoa que quer garantir oportunidades iguais para as pessoas. Assim que eu trabalhei a minha vida toda", afirmou.

Márcio França apoiou João Doria para a prefeitura de São Paulo em 2016 - 13.jun.2016 - Jorge Araújo/Folhapress
Márcio França apoiou João Doria para a prefeitura de São Paulo em 2016
Imagem: 13.jun.2016 - Jorge Araújo/Folhapress

Ele avalia que, em pouco mais de cem dias de governo Doria, o tempo é curto para uma avaliação, mas alfineta. "Ainda não tem uma marca. É o que ele é: o melhor produtor de eventos que já conheci. Tudo muito rápido, mas superficial. Criou o BAEP (batalhão de polícia especial) em Presidente Prudente. E aí? Isso vai dar a solução para o problema da polícia? A data base dos policiais e todos os servidores era março. Qual a solução pra isso?", questionou.

Não vamos resolver o problema da segurança pública com mais polícia, armando mais. Se fosse assim, a gente já teria solucionado. Está faltando criar oportunidade. Há uma multidão de jovens que está desesperançosa.

Márcio França, ex-governador de SP

França, que homenageou a policial Kátia Sastre, que matou um criminoso em frente à escola de sua filha, afirma que a homenagem que Doria fez a PMs que mataram 11 suspeitos é uma medida para tentar se reaproximar dos servidores públicos. "Deu a palavra dele de que haveria um reajuste agora, cujo mês já passou. Havia esse sentimento na polícia de que o governo tirava a mão", afirmou.

Ao lado de crianças, mãe PM reage a assalto e mata ladrão em SP

TV Folha

Crítica à transferência de líderes do PCC

Doria criticou, recentemente, o fato de líderes do PCC não terem sido levados do estado para presídios federais na gestão França. O ex-governador minimiza. "Em todas as vezes que há mudança de governo, começa essa coisa de que tem que transferir, de que é urgente porque tem uma fuga planejada etc. Você nunca sabe se é verdade ou se não é. O que eu sei é que a transferência é feita pela execução penal. Não é o estado que transfere. Eu tinha uma desconfiança se isso não tinha sido plantado", afirmou.

"Queria entender como transferir um preso seu para outro estado é um ato de coragem. Sinceramente, é como você pegar uma feira e passar a feira para a rua do vizinho. Não vejo nenhum problema de fazer os isolamentos. Mas São Paulo tem que ter a capacidade de prender. Tudo bem, transferiu 10, 12, 15, e os outros? Porque há outros", complementou o ex-governador.

Durante a transição do governo, França disse que se reuniu com Doria para falar sobre o assunto. "Disse: 'eu não acho correto tomar uma decisão sem ouvir vocês, porque vou entregar o governo daqui uns dias'. Eu poderia jogar uma bomba na mão das pessoas. E eles entenderam que seria ruim. Do meu grau de conhecimento, as transferências tinham sido autorizadas só neste ano. Para nós, não chegou essa decisão", afirmou.

22 líderes da facção criminosa foram transferidos de dois presídios paulistas para três penitenciárias federais diferentes em 12 de fevereiro. "No fundo, havia um certo desconforto dos PMs da Rota que iriam para a região, porque é longe. O prefeito da cidade disse que eles achavam ótimo, porque estava com bastante polícia. O próprio Doria, por que não mandou dia 2, 3 ou 10 de janeiro?", questionou.

Movimentação na região de Presidente Prudente durante a transferência

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