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Manifestação tem tudo para dar errado, mesmo se der certo, diz Flávio Dino

O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), durante entrevista - Gilson Teixeira/Divulgação
O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), durante entrevista Imagem: Gilson Teixeira/Divulgação

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

23/05/2019 12h00Atualizada em 23/05/2019 14h11

Representante da oposição, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), diz que o governo de Jair Bolsonaro precisa "deixar de comportar como uma seita" e de estimular conflitos com os demais Poderes e imprensa.

O ex-juiz federal se refere às críticas que membros do governo e do PSL têm feito ao Congresso Nacional e ao STF (Supremo Tribunal Federal) para incensar as manifestações pró-Bolsonaro marcadas para o domingo em várias cidades.

As redes sociais bolsonaristas têm compartilhado material que fala em fechamento do STF e culpa o Parlamento pela falta de encaminhamento das pautas do governo, como a reforma da Previdência e o pacote anticrime proposto pelo ministro Sergio Moro.

Mas, para ele, não há motivação legal que possa resultar em um processo de impeachment do presidente. "Acho que, neste momento, ainda não há nenhuma causa constitucional evidente que levasse a isso. O que visualizo é que há uma tendência perigosa de estimular conflitos entre Poderes da República. Se continuar nessa linha, corre sério perigo de configurar, adiante, violação de deveres constitucionais e crime de responsabilidade", afirma.

Em entrevista ao UOL, Dino diz que houve uma "convocação desastrada" do presidente para participação nas manifestações.

"Essa manifestação tem tudo para dar errado, mesmo se der certo. De duas uma: ou serão pequenas --aí politicamente é muito ruim--, ou haverá manifestações importantes, mas com uma pauta contra o Congresso, contra o STF. Portanto, é uma pauta que pode ser entendida como violadora de deveres constitucionais, já que foi o próprio presidente quem convocou."

Bolsonaro chegou a dizer que cogitava ir a um dos atos do domingo. Na terça-feira, voltou atrás e pediu que seus ministros também evitem as ruas.

"Propostas equivocadas"

Para Dino, o grande problema de Bolsonaro é governar com olhos apenas para pequenos grupos. "Acho que ele precisa abandonar o princípio de seita. Ele governa de um modo muito sectário o tempo todo, olhando pouco para a maioria do país e priorizando demandas de pequenos segmentos, de guetos, de supostos segmentos mais extremados. Falta essa largueza de quem foi eleito para governar uma nação. Tem faltado sobretudo visão de diálogo, uma visão pacificadora e mais ampla das instituições democráticas", afirma.

Outro ponto criticado por Dino é com base na pauta presidencial. "Ele precisa deixar de estipular agendas profundamente equivocadas, como essa [do decreto] das armas. Ela é bem sintomática de uma atitude bem sectária, que interessa a uma pequena fração da sociedade, mas que põe em risco toda a população."

Outro exemplo foram os cortes, não só na educação, mas em várias áreas do governo. "Se você olhar o conjunto das políticas públicas do país, não é só a temática da educação. Você tem indicadores muito graves de paralisação. Se pegar no terreno da infraestrutura, muitas obras paradas, outras abandonadas. O governo até agora se caracteriza pela confusão e por inércia --e, quando sai da inércia, é sempre com agendas erradas", afirma.

Ele foi um dos 14 signatários de uma carta pela anulação do decreto das armas.

Amanhã, Dino e os demais governadores do Nordeste vão se reunir com Bolsonaro no Recife. Ele afirma que espera um diálogo aberto. "Os governadores não estão pedindo favor, estamos apresentando propostas para o país. A gente quer que o governo cumpra compromissos que têm com os estados", diz.

Ele discorda de lideranças locais que defenderam protestos contra a visita do presidente à região. "Não se deve ter essa visão de que não pode deixar, não pode permitir que ele venha. Todos os segmentos têm direito e devem apresentar seus descontentamentos, suas pautas, mas discordo de qualquer ideia de impedir o presidente de visitar qualquer o estado. O direito e a obrigação dele devem ser respeitados."

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