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Comunicação na política evolui dos bilhetes de Jânio ao Telegram de Moro

12.out.1960 - Jânio Quadros (à dir.) na casa de José Ermírio de Moraes em Bertioga, litoral de São Paulo; jornalistas combinaram encontro com o então presidente por bilhete, mas só os fotógrafos entraram (um deles à esq.), como Edvaldo Dantas Ferreira e Antonio Pirozzelli pela Folha - Folhapress
12.out.1960 - Jânio Quadros (à dir.) na casa de José Ermírio de Moraes em Bertioga, litoral de São Paulo; jornalistas combinaram encontro com o então presidente por bilhete, mas só os fotógrafos entraram (um deles à esq.), como Edvaldo Dantas Ferreira e Antonio Pirozzelli pela Folha Imagem: Folhapress

Gabriel Garcia

Colaboração para o UOL, em Brasília

20/06/2019 04h00

Desde as cartas escritas a mão, que levavam dias para chegar aos destinatários, até as mensagens instantâneas dos atuais aplicativos dos celulares, a comunicação política evoluiu e se diversificou.

O paradoxo da evolução, segundo o professor de ciência política do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) Leandro Consentino, é "a falsa sensação de privacidade". "Enquanto perdemos acesso à documentação histórica, a maioria do conteúdo fica restrita aos aplicativos."

Curta e objetiva, a correspondência pelas telas dos smartphones inviabiliza o arquivamento de registros factuais relevantes, como foram as cartas e ofícios da ditadura militar citados pelo jornalista Elio Gaspari em uma série de quatro livros, os telegramas de Juscelino Kubitschek, os bilhetes de Jânio Quadros e a carta-testamento de Getúlio Vargas.

Por outro lado, o próprio meio de transmissão das missivas modernas, a internet, expõe seu conteúdo ao ataque de hackers e seus autores ao crivo da opinião pública.

O professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) Geraldo Tadeu aconselha as autoridades ao sobre os novos meios tecnológicos. Segundo ele, na dúvida, vale o conselho do ex-presidente Tancredo Neves: "Meu filho, só fale por telefone aquilo que você pode falar em público". Tancredo era alvo recorrente dos grampos da ditadura brasileira.

Getty Images
Imagem: Getty Images

O atual ministro da Justiça, Sergio Moro, foi protagonista de recente polêmica ao trocar mensagens vazadas com o procurador Deltan Dallagnol, coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato. Elas foram conseguidas pelo site "The Intercept" com uma fonte anônima, verificadas e publicadas em uma série de reportagens que analisam o comportamento do então juiz nas atividades do MPF em alguns processos.

Segundo a professora do Departamento de Jornalismo da UnB (Universidade de Brasília) Márcia Marques, houve excesso de informalidade no cumprimento do rito jurídico.

Marques diz que "exageros são cometidos por causa de um egocentrismo vivido no país". "Nossa cultura exige que se mostrem nossas atividades corriqueiras nas redes sociais. A política eleva [esse egocentrismo] à potência máxima", afirma.

Moro e Dallagnol são dois entre muitos agentes públicos do Judiciário, do Executivo e do Legislativo que usam as redes sociais como meios para emissão de opiniões pessoais, muitas vezes confundidas com declarações oficiais.

Sergio Moro durante audiência na CCJ do Senado - Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo
Sergio Moro durante audiência na CCJ do Senado
Imagem: Fátima Meira/Futura Press/Estadão Conteúdo

Getúlio era da rádio e das cartas, até para despedida

Num passado nem tão distante, as cartas, os telegramas, o rádio e os bilhetes eram os meios disponíveis para que os políticos divulgassem ideias, notícias e até mesmo despedidas.

Vargas interrompia a programação das emissoras de rádio para se comunicar com a população. Segundo Marques, "frequentava diariamente as ondas do [programa] Voz do Brasil".

Entre 1946 e 1950, período de seu refúgio em São Borja, no Rio Grande do Sul, manteve intensa correspondência sobre as novidades da política com sua filha Alzira Vargas, que vivia na capital, na época o Rio de Janeiro. Os portadores eram parentes e amigos, para driblar a vigilância oficial.

A derradeira mensagem, desta vez direcionada ao povo, foi escrita em 24 de agosto de 1954. Era a carta-testamento que anunciava a decisão de Vargas de "sair da vida e entrar para a história", antes de se suicidar.

Bilhetinhos de Jânio

Imprensa Oficial do Estado/Reprodução
Imagem: Imprensa Oficial do Estado/Reprodução
Nos anos 1950, o governador de São Paulo, Jânio Quadros, enchia seus colaboradores com bilhetes.

A prática de dar ordens aos funcionários mais próximos por meio de recadinhos lhe rendeu a fama de gestor eficiente.

Além dos limites do próprio gabinete, ficou célebre a nota de Jânio ao presidente do Santos em que mencionava preocupação com a venda do craque Pelé.

Pelo menos, 1.634 foram catalogados até abril de 1958 (como este que ilustra a reportagem).

Telegramas do Juscelino

O lirismo das cartas cedeu passagem às formas mais dinâmicas de comunicação. Populariza-se o telegrama, com trocas rápidas de informações abreviadas, suprimidas as preposições e artigos. À objetividade, Juscelino Kubitschek, presidente de 1956 a 1961, acrescentou a ironia.

"O Artista do Impossível", como o define o livro de Cláudio Bojunga, comunicou ao escritor Gustavo Corção, crítico ácido da construção de Brasília, o grande êxito da engenharia da época, a cheia do Lago Paranoá, vital para a dinâmica da nova capital. Mandou-lhe sem reservas: "Encheu, viu?".

Papéis preenchidos em todos os cantos

Documento recuperado em livro de Elio Gaspari mostra que o dono da editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira, preso em março de 1965 - Arquivos da Ditadura/Reprodução
Documento recuperado em livro de Elio Gaspari mostra que o dono da editora Civilização Brasileira, Ênio Silveira, preso em março de 1965
Imagem: Arquivos da Ditadura/Reprodução
No período da ditadura, o presidente Castelo Branco, o secretário Heitor de Aquino Ferreira e o general Ernesto Geisel também lançaram mão de bilhetes, alguns dos quais continham contribuições dos três em todos os cantos disponíveis do papel.

Normalmente, as pequenas anotações começavam com "peço". Anos mais tarde, Elio Gaspari, no livro "A Ditadura Envergonhada", revela que a prisão do ex-editor Ênio Silveira, dono da Editora Civilização Brasileira, foi assunto da peculiar modalidade de comunicação.

Castelo mandou a Geisel quatro folhas de bloco manuscritas com a palavra "reservado" no alto de cada uma. Ênio foi preso por oferecer uma feijoada ao ex-governador Miguel Arraes, considerado inimigo de primeira hora do regime.

Camisetas "filosóficas" de Collor

18.nov.1990 - Fernando Collor de Mello faz cooper com camiseta "filosófica" - Lula Marques/Folhapress
18.nov.1990 - Fernando Collor de Mello faz cooper com camiseta "filosófica"
Imagem: Lula Marques/Folhapress
Superada a fase dos bilhetes, a comunicação unilateral do ex-presidente Fernando Collor, nos anos 1990, passou a ser feita por meio de camisetas com frases filosóficas muito parecidas com um livreto de autoajuda.

Lia-se coisas como "O tempo é o senhor da razão" estampadas em seu peito, enquanto Collor corria pelas ruas de Brasília aos domingos.

Em agosto de 1992, conclama a população a se vestir de verde e amarelo para defender seu governo. Em resposta, ironicamente, o povo saiu usando camisetas pretas, e o Congresso Nacional votou pelo impeachment do político da Presidência.

Grampos no governo FHC

Em seguida, grampos nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso revelaram uma rede de tráfico de influência em favor da empresa norte-americana Raytheon, que venceu a licitação de US$ 1,4 bilhão para a compra do conjunto de radares do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam).

A NSA (Agência Nacional de Segurança Americana) gravou conversas entre funcionários do governo brasileiro e da empresa francesa Thomson-CSF, concorrente da Raytheon. Isso permitiu que a empresa norte-americana fizesse uma proposta melhor que a rival.

Dirceu e Cunha, unidos pelo mesmo blackberry

O ex ministro José Dirceu chega à sede da Polícia Federal em Curitiba para ser preso, com seu blackberry - EDUARDO MATYSIAK/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O ex ministro José Dirceu chega à sede da Polícia Federal em Curitiba para ser preso, com seu blackberry
Imagem: EDUARDO MATYSIAK/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
O ex-ministro José Dirceu e o ex-deputado federal Eduardo Cunha compartilharam cela no edifício da Polícia Federal em Curitiba, presos no âmbito da operação Lava Jato.

Antes disso, os dois ex-parlamentares já tinham em comum usavam o celular blackberry, precursor dos smartphones. Cunha teve seu aparelho apreendido, mas suas mensagens constantes podem ajudar a incriminá-lo.

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