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Suspeito de pagar propina olímpica, empresário quase ficou fora da Rio 2016

Gabriel Sabóia e Igor Mello

Do UOL, no Rio

05/07/2019 04h00

O empresário Arthur Soares, apontado como financiador da compra de votos junto a membros do COI (Comitê Olímpico Internacional) para que o Rio de Janeiro pudesse sediar os Jogos Olímpicos de 2016, quase teve que ver as competições pela televisão.

O ex-governador Sérgio Cabral (MDB) disse ontem ao juiz federal Marcelo Bretas --responsável pelas ações em primeira instância da Lava Jato no Rio-- que o empresário foi esquecido na distribuição de credenciais e por pouco ficou sem entradas para assistir às disputas.

De acordo com Cabral, Soares repassou US$ 2 milhões ao presidente da Federação Internacional de Atletismo, Lamine Diack, que distribuiria o dinheiro aos membros do COI comprados. Foragido da Justiça, o empresário é conhecido como Rei Arthur devido ao fato de ter sido o maior fornecedor de mão de obra do estado.

"Em 2016, eu já não era governador, mas o [Carlos Arthur, ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro] Nuzman me procurou para mostrar um esboço da abertura e encerramento dos jogos no meu escritório. Era uma gentileza dele, que me mostrou o projeto. Passado isso, eu liguei para o Arthur [Soares] e perguntei se ele havia recebido ingressos para os Jogos Olímpicos. Ele disse que não. Liguei pro Nuzman e disse: 'Arthur Soares, pô! Faça esta gentileza'. E ele recebeu ingressos", contou em depoimento.

Cabral disse que foi credenciado para a Olimpíada como membro do COI. "O Thomas Bach [ex-presidente do Comitê Olímpico Internacional] me fez esta gentileza, eu fui como membro do COI", disse.

Cabral diz que ex-atletas olímpicos foram comprados

De acordo com o ex-governador, entre os votos comprados, está o do nadador Alexander Popov, bicampeão olímpico nas provas de 50 m e 100 m livres em 1992 e 1996, e o do ucraniano Serguei Bubka, campeão olímpico em 1988 no salto com vara. De acordo com Cabral, nove dos 95 membros votantes foram comprados ao todo por US$ 2 milhões.

O depósito teria sido feito no exterior por Soares, no ano de 2008, a Lamine Diack, que distribuiria a propina. Cabral e Soares são réus no processo oriundo da Operação Unfair Play, desdobramento da Lava Jato no Rio, que apurou a compra de votos na escolha do Rio como cidade-sede da Olimpíada de 2016. Bubka e Popov negaram qualquer participação no esquema, e o ex-nadador, inclusive, afirmou que não votou no Rio na eleição.

Cabral afirmou que o ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (hoje no DEM, na época no MDB) e os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Michel Temer (MDB) foram informados após a compra dos votos. O ex-governador não apontou, contudo, envolvimento ativo dos políticos citados na negociata. Eles negam as acusações de Cabral (veja abaixo).

Cabral afirmou que Arthur Soares não pediu vantagens específicas para fazer o depósito, mas que os valores repassados a membros do COI foram debitados da propina que o ex-governador recebia mensalmente do empresário. Em seu último depoimento, Cabral já havia dito que o empresário pagou propina a ele ao longo dos seus dois mandatos, além de ter contribuído para campanhas por meio de caixa 2.

No entanto, o ex-governador sempre havia negado a compra dos votos para que o Rio sediasse a Olimpíada de 2016. Com a realização dos Jogos Olímpicos, várias obras públicas foram realizadas no Rio.

Popov e Bubka negaram as acusações. O nadador russo disse que sequer votou no Rio de Janeiro para sediar a Olimpíada. "Posso dizer que nem votei no Rio de Janeiro. Participei na votação, mas o meu voto não foi para o Rio de Janeiro. Agora não sei o que devo fazer. Estou desamparado e não entendo o que acontece a respeito do Rio de Janeiro. Alguém está mentindo, é muito grave", declarou Popov.

Já o saltador com vara ucraniano disse, em sua conta no Twitter, que não participou da negociata. "Rejeito completamente as falsas alegações do governador do estado do Rio", escreveu. Bubka também recordou que Cabral "cumpre atualmente uma longa pena de prisão por corrupção".

Deflagrada em setembro de 2017, a Operação Unfair Play resultou nas denúncias contra Cabral, Lamine Diack e o filho dele Papa Massata Diack por corrupção passiva. Nuzman se tornou réu por organização criminosa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Leonardo Gryner responde por organização criminosa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro, enquanto Arthur Soares é acusado de corrupção ativa.

Os processos foram desmembrados pelo juiz Marcelo Bretas. Na ação em que Cabral prestou depoimento ontem também tem Nuzman e Gryner como réus. Lamine e Papa Massata Diack respondem a outro processo. Uma terceira ação foi aberta contra Arthur Soares.

2.out.2009 - Carlos Arthur Nuzman (de braços erguidos na 1ª fileira), Lula, Cabral e Paes comemoram a escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, em Copenhague (Dinamarca) - OLIVIER MORIN/AFP
2.out.2009 - Carlos Arthur Nuzman (de braços erguidos na 1ª fileira), Lula, Cabral e Paes comemoram a escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos de 2016, em Copenhague (Dinamarca)
Imagem: OLIVIER MORIN/AFP

Cabral diz que Nuzman propôs propina por votos

De acordo com Cabral, a candidatura do Rio à sede dos Jogos Olímpicos começou em 2008, segundo ano de seu primeiro mandato frente ao governo fluminense.

"O então presidente do COB [Comitê Olímpico Brasileiro], Carlos Arthur Nuzman, e o ex-presidente da Fifa João Havelange me visitaram depois da realização dos Jogos Pan e Parapanamericano de 2007 no Rio. Eles me solicitaram um dossiê à candidatura do Rio à Olimpíada", contou em depoimento.

Na primeira fase da disputa, sete cidades lançaram suas candidaturas. No entanto, apenas quatro passariam à fase final. "Precisávamos de um número mínimo de votos. Montamos um time muito profissional e o presidente Lula foi acionado para que, sempre que visitasse um país, pedisse o apoio dos delegados daquele país à candidatura do Rio. De maneira muito profissional, fomos à frente", disse.

Em 2009, o Rio passou à final com Chicago, Madri e Tóquio. "Nesta época, eu estava inseguro, pois o COI é muito 'europeizado'. Nuzman me ligou e pediu uma reunião de emergência. Ele foi junto do Leo Gryner [ex-diretor de Operações do Rio 2016] à minha casa e disse que podíamos ganhar."

Nuzman disse que Lamine Diack se abria a vantagens indevidas. Leo Gryner havia falado com o filho dele, Papa Diack, que assegurava cinco a seis votos, em troca de US$ 1,5 milhão, segundo Cabral.

O ex-governador afirmou não ter tido dificuldades para levantar o valor.

Perguntei [ao Nuzman] qual era a garantia que tínhamos desses votos favoráveis. Ele me disse que tradicionalmente este tipo de compra não costumava falhar. Perguntei de onde viriam estes votos e ele me disse que esses votos vinham de membros africanos do COI, mas também do Comitê Internacional de Atletismo. Serguei Bubka, ucraniano, teria recebido propina. O nadador Alexander Popov também teria recebido propina.

Cabral afirmou ter dito a Nuzman: "Presidente, não vou me meter nisto. Mas vou arrumar um empresário com contas no exterior e vai viabilizar este pagamento. Chamei o Arthur Soares na minha casa, expliquei a necessidade desse dinheiro para obtenção de votos e ele fez este primeiro depósito".

Em setembro daquele ano, em um novo encontro, desta vez em Paris, Nuzman e Diack teriam pedido mais US$ 500 mil para garantir até nove votos ao Rio.

"Eu fui ao lançamento do Guia Michelin em Paris. Este encontro ficou famoso pelo episódio conhecido como "A Farra dos Guardanapos". Fui chamado pelo Gryner e pelo Nuzman num canto, que me disseram que o Diack conseguiria chegar a nove votos comprados, mas para isto precisaria de mais US$ 500 mil".

Mais uma vez, o empresário teria sido acionado, segundo relato de Cabral. "Liguei novamente para o Arthur Soares e disse que precisava deste dinheiro até o dia 3 de outubro para a compra de votos. Em 29 de setembro de 2008, o depósito foi feito. Ele me mandou o comprovante de depósito."

Por 66 votos a 32, o Rio venceu Madri, na rodada final, e foi escolhido sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

Outro lado

A defesa de Arthur Soares, que está foragido, afirmou em nota que o empresário "está e sempre esteve à disposição das autoridades para esclarecimentos".

A assessoria de imprensa de Lula negou as acusações. "É inverídica e sem provas a referência feita ao ex-presidente Lula pelo ex-governador Sérgio Cabral", afirma comunicado.

O ex-prefeito Eduardo Paes negou as denúncias de Cabral. "Não só não participei [do esquema de compra de votos] como não sabia. E não me contaram porque sabem que eu não concordaria. Simples assim", afirmou. "Nuzman jamais me procuraria para algo assim", afirmou Paes.

Carlos Arthur Nuzman também refuta as acusações, segundo o advogado João Francisco Neto relatou ao Blog Olhar Olímpico.

"O depoimento do ex-governador Sérgio Cabral foi muito positivo para a defesa do senhor Nuzman. Ele falou de uma suposta compra de votos, que é uma alegação que ele faz talvez por estar em uma situação de condenado a mais de 200 anos de prisão. Cada processo ele tem que dizer alguma coisa. Ele resolveu dizer aquilo que ele não pode provar: que houve uma suposta intermediação na compra de votos", disse o defensor.

A defesa de Leonardo Gryner, ex-diretor de Operações da Rio 2016, também negou as acusações, destacando que Cabral não apresentou provas. "Ficou claro que Sérgio Cabral falta com a verdade e não apresenta qualquer prova de seus relatos, mantendo-se íntegra a prova produzida na instrução criminal que isenta Leonardo Gryner de qualquer responsabilidade! Se houve compra de votos, Leonardo não participou!", diz comunicado de sua defesa.

Lamine Diack e seu filho Papa Massata Diack --apontado como responsável por operacionalizar o pagamento de propinas-- sempre negaram as acusações. Em entrevista ao jornal americano The New York Times, em 2017, Papa negou as acusações. Segundo ele, seu pai votou na candidatura de Tóquio, uma das três cidades adversárias do Rio. "Quem quer que diga o contrário está mentindo."

A reportagem também procurou Carlos Roberto Osório, mas ele ainda não se manifestou. O UOL não conseguiu contato com a assessoria de Michel Temer (MDB).

De acordo com o COI, a direção de Ética e Compliance da entidade "deu seguimento imediato" ao caso diante das alegações apresentadas por Cabral. "A CECO entrou em contato com os membros do COI mencionados em seu depoimento", indicou a entidade, com sede em Lausanne, na Suíça.

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