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Todo mundo vai usar fake news nas eleições de 2020, diz pesquisador

O professor David Nemer, da Universidade da Virgínia (EUA), que cobra ação do Justiça para punir disparo de notícias falsas - Divulgação/Dan Addison/Universidade da Virgínia
O professor David Nemer, da Universidade da Virgínia (EUA), que cobra ação do Justiça para punir disparo de notícias falsas Imagem: Divulgação/Dan Addison/Universidade da Virgínia

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

04/11/2019 04h00Atualizada em 04/11/2019 09h12

Resumo da notícia

  • Professor de universidade nos EUA critica impunidade de casos da eleição passada
  • Para David Nemer, candidato que não aderir a notícias falsas sofrerá concorrência desleal
  • Ojetivo de disseminar fake news é criar dúvida no eleitor, afirma acadêmico
  • Segundo ele, estratégia beneficia tanto políticos de direita como de esquerda

O uso de fake news nas eleições municipais de 2020 será regra, prevê o professor da Universidade da Virgínia (EUA) David Nemer. Para o professor brasileiro, que pesquisa política e desinformação em grupos de WhatsApp, políticos que não aderirem à "estratégia" antidemocrática das notícias falsas sofrerão uma espécie de concorrência desleal com os demais.

"Que todo mundo vai para o fake news, isso aí já vai acontecer", afirmou Nemer, em entrevista ao UOL. "Resta saber como é que nossas cortes vão se comportar perante isso."

A disseminação de notícias falsas nas eleições de 2018 ficou comprovada por estudos. Na semana passada, o jornal "The Guardian" analisou uma amostra de 11 mil mensagens e descobriu que 42% das mensagens de cunho político com viés de direita eram falseadas e, nas de esquerda, 3%.

Parte da rede de robôs usada no passado continua ativa. Os disparos de desinformação eram feitos em massa, segundo afirmou o WhatsApp.

Para Nemer, o uso desse modelo de campanha é reprovável. "É totalmente ilegítimo, porque o objetivo é desestabilizar o conhecimento das pessoas, desestruturar, criar sentimentos de dúvida, sentimentos de medo para que a pessoa vote desinformada, no medo, sem segurança", afirma o professor.

Partidários do PSL, do presidente Jair Bolsonaro, do PT e de outras cores ideológicas devem se valer disso infelizmente, avalia Nemer. Ele destacou que a esquerda já se beneficiou de desinformação no passado, embora, nas últimas eleições, a direita bolsonarista tenha sido proporcionalmente muito mais eficiente no uso de tecnologias como o WhatsApp. "Coisa jamais vista", diz.

E o motivo do mau prognóstico do pesquisador é a falta de punições efetivas por parte do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). "O precedente já foi estipulado", diz.

"Bolsonaro e a [ex-líder do governo no Congresso, a deputada] Joice Hasselmann [PSL-SP] colocando nos canais oficiais deles que as que as urnas foram hackeadas, que as eleições foram hackeadas, o que foi fakenews, e o TSE não fez nada." O tribunal apenas suspendeu vídeo do hoje presidente mencionando uma fraude sem provas e, ainda assim, até o Ministério Público foi contra a remoção da informação falsa.

No passado, tentava-se dar mais informações aos eleitores para que eles votassem conscientemente. Mas, agora, diz Nemer, a situação é pior que a ignorância. "Pior que você não ser informado é você achar que está informado", afirmou o pesquisador.

Nemer é professor do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade da Virgínia (EUA), com mestrado pela Universidade de Saarland, na Alemanha, e doutorado pela Universidade de Indiana (EUA). É autor do livro "Favela digital: o outro lado da tecnologia", lançado em 2013.

Desde março de 2018, ele analisa o comportamento dos grupos de debates políticos que usam o aplicativo WhatsApp. Nemer prepara uma pesquisa acadêmica sobre o assunto.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

UOL - O senhor acha que o disparo de mensagens falsas é legítimo? As pessoas têm o direito de exercer sua posição política ou ele também prejudicou a democracia porque tinha muita desinformação?
David Nemer - As fake news são totalmente ilegítimas, porque o objetivo delas é desestabilizar o conhecimento, desestruturar, criar sentimentos de dúvida, sentimentos de medo para que a pessoa vote desinformada, no medo, sem segurança. E não é honesto.

Por quê? Porque o WhatsApp foi criado para fazer a comunicação pessoa por pessoa. Não foi feito para fazer máquina-pessoa. Por isso que o WhatsApp bane essas contas, porque há a infração das políticas internas da empresa. É diferente, por exemplo, no Messenger do Facebook, que aceita robôs por questões de atendimento ao cliente. No WhatsApp, não. A plataforma só quer saber de pessoas comunicando com pessoas. Por isso que é ilegal na plataforma e imoral. .

Se antes já era difícil votar informado sobre políticos, imagina agora. Não só as pessoas não estão informadas, elas estão desinformadas.

Então o problema disso é que o seguinte: pior que você não ser informado é você achar que está informado, o que, infelizmente, é baseado desinformações.

Jair Bolsonaro se beneficiou disso? Fernando Haddad também teve votos com isso?
Eu acho que os dois, embora o Bolsonaro tenha se beneficiado bem mais proporcionalmente --coisa jamais vista. Falar que o PT não se beneficiou disso no passado é fechar os olhos. Eles eram bem ativos com os blogueiros na época da [ex-presidente] Dilma [Rousseff, PT]. Nas eleições passadas, eram artigos em comunidades, o Orkut [rede social que existiu entre 2004 e 2014], por exemplo. Não é exclusivo do Bolsonaro, não. O PT também fazia essa prática, sim.

A diferença é que, nas últimas eleições, a campanha do Bolsonaro, os eleitores do Bolsonaro foram muito mais espertos em como apropriar tecnologia em benefício do candidato deles.

Essa foi a diferença. No estudo do [Projeto] Comprova [que monitorou a desinformação nas eleições passadas], saiu quantas fake news pró-Bolsonaro tinha e quantas fake news pró-Haddad [Fernando Haddad, candidato derrotado do PT] tinha. Era uma coisa sete pró-Bolsonaro e três pró-Haddad. Você vê que a maioria era para o Bolsonaro, mas também tinha pro Haddad.

Divulgação/Dan Addison/Universidade da Virgínia
Imagem: Divulgação/Dan Addison/Universidade da Virgínia

Na próxima eleição, pode ser que tenhamos os dois grupos atuando com a mesma intensidade?
É, infelizmente, vai ser isso. Ou, então, se a nossas cortes, essas cortes brasileiras tomarem jeito e ficarem em cima, eles podem vetar isso. Porque, durante as eleições, nós tivemos os candidatos Bolsonaro e Joice Hasselmann colocando nos canais oficiais deles que as urnas foram hackeadas, que as eleições foram hackeadas, o que foi fake news, e o TSE não fez nada [Houve apenas suspensão dos vídeos, mas até o Ministério Público foi contra a remoção da informação falsa]. Até hoje não fez nada.

Então, se as cortes fecharem os olhos, isso vai virar uma loucura, de todos os lados. Vai depender de como que a lei vai ser pode botada em prática. Esse vai ser o diferencial.

Que todo mundo vai para as fake news, isso aí já vai acontecer. Resta saber como é que nossas cortes vão se comportar perante isso.

Quem não der fake news vai ser prejudicado por quem fizer?
É, infelizmente, é esse o jeitinho brasileiro. Ninguém quer perder, por mais que seja coisa errada, ninguém quer perder.

É exagero dizer que a leniência da Justiça fará com que mais haja "malandragem" na próxima eleição?
O precedente já foi estipulado. A gente viu a quantidade de fake news espalhadas durante as eleições de 2018. E a gente viu quantas pessoas foram punidas. Nenhuma. Ou seja, isso só motiva as pessoas a fazer esse tipo de comportamento.

Se a corte [TSE] pegar um caso para exemplo, pode ter certeza que muita gente vai pensar duas vezes antes de se engajar nisso.

A gente viu que descobriram uma empresa de marketing que fez disparos pró-Bolsonaro e não aconteceu nada. Levaram multa? Nem sei que fim deu nisso. Tem pessoas como [o empresário que cedeu casa no Rio de Janeiro para o funcionamento da campanha de Bolsonaro] Paulo Marinho falando em entrevista que ele distribuiu fake news e nada acontece com ele.

A Rebeca Félix falou que trabalhou com Paulo Marinho... hoje ela é contratada do Planalto. Então, assim, são coisas absurdas. Não dá para entender como é que a coisa é descarada e, ao mesmo tempo, ninguém faz nada.

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