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Witzel compara Bolsonaro a Chávez e cita Guedes: "Ele me atende"

O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado do governador do RJ Wilson Witzel - Pedro Ladeira/	Folhapress
O presidente Jair Bolsonaro, acompanhado do governador do RJ Wilson Witzel Imagem: Pedro Ladeira/ Folhapress

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

17/12/2019 13h39

Resumo da notícia

  • Witzel afirmou que desavenças com Bolsonaro não afetam o Rio, já que Paulo Guedes o atende
  • O governador comparou o presidente a líderes autoritários estrangeiros, como Chávez e Erdogan
  • Eleito na esteira do bolsonarismo, ele se disse "decepcionado" com o governo do ex-aliado
  • Pré-candidato declarado à Presidência em 2022, Witzel negou motivação política para a briga

O governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), desdenhou hoje das desavenças públicas com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) menos de um ano após ter sido eleito ao se alinhar ideologicamente com o chefe do Executivo. Além de se dizer "decepcionado" com a gestão do ex-aliado, Witzel afirmou que a briga entre os dois não afeta o estado, já que ele mantém diálogo constante com o ministro da Fazenda, Paulo Guedes —o que faria do contato direto com Bolsonaro desnecessário.

O governador também comparou Bolsonaro a líderes autoritários, como o presidente da Turquia, Ercep Erdogan, e o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. "Não houve quebra de diálogo entre o governo federal e o Rio de Janeiro. Estou indo ao Posto Ipiranga [apelido pelo qual Bolsonaro se refere a Guedes]. Lá, sigo sendo atendido", disse Witzel.

Questionado por jornalistas quanto ao rompimento com o presidente diante do desejo declarado de concorrer à Presidência da República em 2022, Witzel negou que a briga tenha motivação meramente política e afirmou ter tido dificuldades de estabelecer diálogo desde o primeiro dia de mandato.

"Fui à posse dele e não consegui o cumprimentar. O presidente tem um comportamento difícil. Basta ver como ele se expressa a todo instante. O comportamento dele se assemelha ao de Erdogan e Chávez, como mostra aquele livro 'Como as Democracias Morrem'. A todo instante ele usa expressões como 'traidor' e 'cavaleiro de República'. Eu não interfiro em investigações", disse em relação à sua suposta influência nos rumos das investigações do Caso Marielle, como dito por Bolsonaro.

Witzel foi eleito governador do Rio depois de se aliar ao senador Flávio Bolsonaro (sem partido) e se declarar alinhado aos ideais do então candidato à Presidência. Em pouco mais de duas semanas, o ex-juiz federal saltou nas pesquisas de intenção de votos e foi eleito governador após participar de caminhadas com o senador.

No entanto, as seguidas manifestações de vontade de Witzel em assumir o Palácio do Planalto fizeram com que ambos se afastassem. O embate político fez com que o Flávio (à época presidente do diretório fluminense do PSL) impedisse os deputados estaduais do partido de votar de acordo com os interesses do governador. A decisão, porém, foi revista alguns dias depois.

A crise alcançou seu ápice no último mês, quando veio à tona a informação de que Bolsonaro foi citado na apuração do Caso Marielle por um porteiro do condomínio onde mantém casa no Rio. Num depoimento à Polícia Civil, o funcionário atribuiu a Bolsonaro a autorização para entrada no condomínio Vivendas da Barra de um dos acusados do crime. Em nova oitiva, desta vez à Polícia Federal, o porteiro recuou e disse que errou ao citar o presidente.

Dias depois, Bolsonaro disse que a sua vida "virou um inferno" depois que Witzel passou a manipular as investigações, tentando incriminá-lo. Em resposta, Witzel prometeu entrar na Justiça contra o presidente.

A relação com o presidente foi assunto durante boa parte do encontro que Witzel realizou com jornalistas na manhã de hoje, onde apresentou um balanço do seu primeiro ano de mandato. Eleitor declarado de Bolsonaro, ele se disse "decepcionado" com o primeiro ano de mandato do agora adversário.

"Ele não se preparou para o cargo"

"É evidente que ele não se preparou para o cargo. Você não consegue conversar com ele sobre economia ou sobre as reformas necessárias. A pauta dele é muito mais ideológica do que prática. Se estou decepcionado? Basta olhar os níveis de reprovação deste governo. Não adianta impulsionar a economia em 4% ou 5%, se não houver uma reforma de previdência consistente ou investimentos sólidos em educação", afirmou.

A reportagem procurou Bolsonaro por meio da sua assessoria para comentar as declarações do governador do Rio, mas até o momento não teve resposta.

O governo fluminense ainda espera a prorrogação do RRF (Regime de Recuperação Fiscal) para não repetir nova crise financeira como ocorreu em 2016. Com uma diferença de R$ 10,7 bilhões entre as despesas fixadas e as receitas estimadas para 2020, o RRF serviria como forma de adiar para 2023, o pagamento das dívidas do estado com a União —que segue como o maior credor do governo do Rio. No total, o estado acumula R$ 6,5 bilhões em dívidas.

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