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Flávio aumentou proporção de dinheiro vivo em loja de chocolate, diz juiz

"É um comércio. As pessoas pagam em dinheiro também", disse Flávio Bolsonaro - 01.out.2019 - Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo
"É um comércio. As pessoas pagam em dinheiro também", disse Flávio Bolsonaro Imagem: 01.out.2019 - Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo

Gabriel Sabóia, Igor Mello, Silvia Ribeiro e Eduardo Militão

Do UOL, no Rio e em Brasília

20/12/2019 04h00

Resumo da notícia

  • Flávio Bolsonaro comprou uma loja de cafés e chocolates em 2015
  • O antigo dono disse em depoimento que percentual de vendas em espécie era de 20%
  • Na gestão do senador, esse índice subiu para 26%, afirma o juiz em despacho
  • Flávio diz que é normal receber dinheiro vivo, mas não explica aumento

Depois que comprou uma loja de chocolates, a gestão do senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) no estabelecimento aumentou o percentual de depósitos em espécie na conta da empresa. Essa taxa foi "bem superior" do que na gestão do antigo dono da franquia da Kopenhagen num shopping do Rio, conforme comparou em sua decisão o juiz da 27ª Vara Criminal do Rio, Flávio Itabaiana Nicolau. Ele autorizou ontem operação de busca e apreensão do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) contra endereços ligados a Flávio, ao ex-assessor Fabrício Queiroz e a parentes de Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro.

O Ministério Público suspeita que a loja tenha sido usada para lavar dinheiro de suposto esquema de "rachadinha" no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) —a prática consiste na devolução por funcionários de parte do salário recebido. A diferença entre depósitos em espécie e o faturamento da loja por meio de recursos eletrônicos foi de R$ 1,6 milhão, valor estimado pelo MP que pode ter sido lavado na loja do senador.

Para os investigadores, a discrepância coincide com repasses feitos pelo suposto operador do senador, Fabrício Queiroz, e era uma forma de desviar dinheiro obtido com a rachadinha.

O UOL pediu esclarecimentos à assessoria do senador sobre a gestão de sua loja, mas não os recebeu. Depois disso, o filho do presidente da República publicou um vídeo no YouTube em que afirma ser normal que a sua empresa recebesse pagamentos em espécie, mas não explicou porque houve um aumento em relação ao antigo dono do estabelecimento.

"A loja recebeu muitos depósitos em dinheiro", disse Flávio no vídeo em que critica os promotores e o juiz, a quem acusa de vazar informações do processo.

"É óbvio, inergúmenos [sic]. É um comércio. As pessoas pagam em dinheiro também. Pagam em dinheiro, a gente recebe na loja e depois deposita na conta da loja. Qual o problema? O que é que tem de ilegal nisso? Olha a narrativa absurda que estão construindo em torno disso, como se eu lavasse dinheiro lá."

Após a divulgação do vídeo, a reportagem questionou a assessoria do senador sobre o aumento na proporção de depósitos em espécie na conta da loja. Não houve resposta até o momento. Os esclarecimentos serão publicados se forem recebidos.

Taxas de dinheiro vivo "são bem superiores" com senador, anotou juiz

O juiz Flávio Itabaiana comparou os dados de vendas e depósitos da loja com o depoimento do antigo dono da firma, Cristiano Correia Souza e Silva. Itabaiana chegou a corrigir os cálculos apresentados pelo Ministério Público sobre a quantidade e proporção de dinheiro em espécie na loja do senador.

Mas a conclusão do magistrado permaneceu convergente com a dos promotores: houve aumento percentual no uso de dinheiro vivo em período coincidente com a suposta rachadinha de salários no gabinete do então deputado estadual na Alerj.

Cristiano Silva disse que, quando era dono da loja, o percentual de dinheiro vivo na empresa era de aproximadamente 20% ao ano. Acrescentou que, em uma outra loja que ele ainda possuía, essa taxa tinha sido de 16% no mês em que prestou depoimento.

Porém, entre 2015 e 2018, após Flávio comprar a empresa de Cristiano, a proporção de valores em espécie subiu para 26%, de acordo com os cálculos do magistrado.

Os percentuais de depósitos em espécie em relação (...) ao total do faturamento do período de 2015 a 2018 são bem superiores ao percentual de 20% informado por Cristiano"

Flávio Itabaiana, juiz da 27ª Vara Criminal do Rio

Na Páscoa, vendas sobem, mas dinheiro vivo não

Além disso, o magistrado notou que, no período de venda mais alta de chocolates, a Páscoa, as vendas realmente aumentavam. Mas o volume proporcional de recursos em espécie nas contas bancárias da loja caía.

Na quinzena de Páscoa de 2017, por exemplo, a taxa de dinheiro vivo na conta bancária da chocolateria caiu para 18,96%. Os dados mostram que isso se repetiu em todos os anos pesquisados, de 2015 até 2018. Isso foi menos do que o percentual indicado por Cristiano, anotou Itabaiana.

Para efeito de comparação, foi analisada uma quinzena do mês de novembro de 2017. Nela, a taxa de dinheiro em espécie subiu para 46,72%. Itabaiana destacou que era mais que o dobro indicado pelo antigo proprietário da empresa.

Para os investigadores, isso é evidência de que houve injeção de dinheiro ilícito vindo da suposta rachadinha da Alerj nas contas da loja.

"Evidenciada, pois, a realização de aportes de recursos em espécie na conta bancária da empresa de forma desproporcional ao seu faturamento, a comprovação da origem ilícita desses recursos decorre da coincidência do mesmo período em que Fabrício Queiroz arrecadava salários dos assessores na Alerj", escrevem os promotores.

"O destino final dos recursos ilícitos não era o empreendimento comercial, mas sim dar aparência lícita ao produto do crime de peculato antes do ingresso formal dos valores no patrimônio pessoal do parlamentar", afirma o pedido de busca e apreensão do Ministério Público.

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