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PM que pagou boleto de Flávio é empregado por amigo de senador na Alerj

O PM Diego Ambrósio, citado pelo MP em suposto esquema de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro - Reprodução/ Instagram
O PM Diego Ambrósio, citado pelo MP em suposto esquema de lavagem de dinheiro de Flávio Bolsonaro Imagem: Reprodução/ Instagram

Igor Mello e Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

20/12/2019 17h15

Resumo da notícia

  • Em entrevista ao UOL, o PM Diego Ambrósio afirmou que Flávio Bolsonaro lhe devolveu mais de R$ 16 mil em dinheiro vivo
  • O valor é referente ao pagamento da prestação de um imóvel em nome da mulher de Flávio feita com a conta do PM
  • Para o MP, Ambrósio, que também é empresário, ajudou Flávio a lavar dinheiro da rachadinha na Alerj
  • O PM diz que fez um favor a Flávio ao pagar o boleto durante uma confraternização
  • Em julho, o policial foi nomeado assessor parlamentar na Alerj por um aliado de Flávio Bolsonaro

O sargento da Polícia Militar Diego Sodré de Castro Ambrósio —investigado pelo MP (Ministério Público) do Rio por supostamente ter auxiliado o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) a lavar recursos que teriam sido obtidos em esquema de rachadinha— é assessor parlamentar na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio), nomeado por um amigo do filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em entrevista ao UOL, ele admitiu que recebeu mais de R$ 16 mil em dinheiro vivo de Flávio, como ressarcimento por ter pago prestação de apartamento.

Diego Ambrósio, como é conhecido, foi nomeado no dia 10 de julho como assessor da Comissão do Servidor Público da Alerj, presidida pelo deputado estadual Bruno Dauaire (PSC-RJ). O político era um dos aliados mais próximos de Flávio durante seus mandados como deputado. Segundo o próprio assessor, Flávio e Dauaire são "do mesmo círculo de amizades".

Dono de uma empresa de segurança em Copacabana, na zona sul do Rio, ele tem bom trânsito no meio político do estado. O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL-RJ) já mencionou o PM diversas vezes em publicações em seu perfil no Facebook, inclusive postando fotos dos dois.

Questionado pelo UOL sobre as circunstâncias de sua nomeação, Ambrósio disse que não foi indicado por Flávio Bolsonaro, mas admitiu que o filho do presidente e seu atual chefe fazem parte "do mesmo círculo de amizades".

"Eu sou amigo do Bruno e ele é amigo do Flávio de anos. É do mesmo círculo de amizades. Bruno, salvo engano, estudou com Flávio", afirmou.

Ambrósio afirma que foi convidado por Dauaire para trabalhar na Alerj no fim do ano passado. Contudo, sua nomeação só ocorreu em julho. Um mês antes, ele foi cedido pela Polícia Militar para a Alerj, segundo registros em Diário Oficial. De acordo com o PM, ele se divide entre sua firma de segurança e o trabalho na Alerj.

Flávio devolveu R$ 16 mil em dinheiro vivo, diz PM

Ele admitiu em entrevista ao UOL que Flávio Bolsonaro lhe entregou mais de R$ 16 mil em dinheiro vivo. O valor é referente a uma prestação um imóvel, em nome de Flávio e de sua mulher, paga com a conta bancária do PM. Para os promotores, a movimentação financeira pode ter sido usada pelo senador para lavar recursos obtidos de maneira ilícita.

"Eu paguei o boleto para um amigo de dez anos, quando estávamos em uma confraternização, para ele não ir ao banco. Ele me ressarciu no outro dia. O valor é subjetivo, né? Para quem ganha R$ 1000 é muita coisa. Para quem ganha R$ 20 mil ou R$ 30 mil, [pagar] R$ 15 mil não é muita coisa", disse.

O PM afirma que Flávio devolveu o valor pago em dinheiro vivo. "Foi em dinheiro. No dia seguinte ou no mesmo dia quando ele [Flávio] chegou em casa. Mas foi em dinheiro."

Ambrósio é citado no pedido de medidas cautelares feito pelos promotores do Gaecc (Grupo de Atuação Especializada no Combate à Corrupção) como integrante de um dos núcleos que auxiliariam Flávio e o ex-assessor Fabrício Queiroz a lavar dinheiro desviado do salário de assessores.

O MP destaca que, no dia 3 de outubro de 2016, Ambrósio pagou um boleto de R$ 16.564,81 em nome da mulher de Flávio, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, referente a uma prestação de um apartamento comprado pelo casal em Laranjeiras, área nobre da zona sul carioca.

O PM afirma que, no dia do pagamento, ele e Flávio estavam em uma confraternização em Bento Ribeiro, na zona norte da cidade. A justificativa dada para assumir a despesa foi que o amigo não tinha o aplicativo de seu banco instalado no celular, e teria que deixar o local para ir até uma agência bancária pagar a prestação.

Para ele, o fato de Flávio Bolsonaro preferir circular pela cidade com uma alta quantia em dinheiro vivo ao invés de optar por um meio de pagamento mais prático —como um depósito ou transferência bancárias— não provocou estranhamento na época.

"É verdade [que Flávio poderia ter transferido o dinheiro], mas ele não fez. Nenhum estranhamento [com o pagamento em dinheiro vivo]", disse. "Na época, o Flávio ganhava como deputado o teto do funcionalismo estadual. A esposa dele também trabalha."

Compra de panetones

Ainda segundo os investigadores, o PM fez pagamentos, tanto com sua própria conta bancária quanto com a de sua empresa de segurança, à loja de chocolates de Flávio —apontada no Caso Queiroz como uma das formas recorrentes de lavagem de dinheiro da suposta organização criminosa comandada pelo político.

Ele repassou R$ 4.446,70 por transferência bancária em dezembro de 2015; além de cheques de R$ 3.000 em dezembro de 2016, R$ 8.688,50 em dezembro de 2017 e R$ 8.389,50 entre dezembro de 2017 e janeiro de 2018. No total, os repasses somam mais de R$ 21 mil.

Segundo o PM, os pagamentos à loja de Flávio eram pagamento por panetones, que ele distribui anualmente para clientes e colaboradores.

"Eu compro de cem a 120 panetones por ano. Quando o MP fez a busca na minha sala, eu tinha 70 panetones por lá", cita.

Fotos publicadas no Instagram de sua empresa de segurança mostram que houve, de fato, a distribuição de panetones para dezenas de clientes. As imagens foram publicadas na rede social no dia 23 de dezembro de 2017, próxima de parte do fluxo de recursos.

Em vídeo publicado ontem em seu canal no Youtube, Flávio Bolsonaro deu versão semelhante para explicar as transferências.

"Aí vão cruzar as informações dos depósitos bancários e aí, como ele é um pequeno empresário, a principal renda dele não é a Polícia Militar, ele é um pequeno empresário bem-sucedido. E ele comprava produtos na minha loja no final do ano para dar de presente para seus clientes. Como ele tem uma empresa de vigilância, em Copacabana, ele, no final do ano, comprava produtos na minha loja e entregava aos seus clientes, que eram síndicos dos prédios ali em Copacabana. O que é que tem de absurdo nisso? Para de ficar criando uma narrativa para dar a entender para as pessoas que há algo ilegal nisso. Expliquei aqui em 30 segundos", afirmou.

Trânsito com políticos

Ambrósio, que é dono de uma empresa de segurança em Copacabana, na zona sul do Rio, tem bom trânsito no meio político fluminense. O deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL) já mencionou o PM diversas vezes em publicações em seu perfil no Facebook, inclusive postando fotos dos dois.

Ambrósio disse que foi convidado por Dauaire para trabalhar na Alerj no fim do ano passado. Contudo, sua nomeação só ocorreu em julho. Um mês antes, ele foi cedido pela Polícia Militar para a Alerj, segundo registros em Diário Oficial. De acordo com o PM, ele se divide entre sua firma de segurança e o trabalho no Legislativo fluminense.

"Eu trabalho na Comissão do Servidor. Sou o único militar e levo demandas para ele [Dauaire], o atualizo de fatos", resumiu. "Sou formado em direito, então olho [a situação dos militares] pelo lado jurídico."

Ambrósio diz que também conhece Rodrigo Amorim, classificado por ele como alguém com quem tem "relação ótima", mas não é seu amigo. Os dois se conheceram na campanha eleitoral de 2016, quando Amorim foi candidato a vice-prefeito na chapa de Flávio.

O PM trabalhou como voluntário em diversas campanhas de Flávio na última década. Apesar do trânsito com políticos e a participação em disputas eleitorais, ele nega que tenha atuação política.

"Não sou político, não. Nunca me candidatei a nada. Mas eu ajudo amigos. Se você é meu amigo e diz que vai ser candidato a vereador, eu ajudo. No sábado eu vou dar uma caminhada com você no centro da cidade e por aí vai", explica.

Ele também nega ter uma posição de liderança em Mesquita, cidade na Baixada Fluminense onde morava. Em 2010, chegou a organizar nessa cidade uma reunião de policiais militares com Flávio e Jair Bolsonaro —que então tentavam a reeleição como deputado estadual e federal, respectivamente.

"Eu fiz a reunião em Mesquita porque na época eu morava lá. Mas a reunião foi voltada para policiais: colegas de turma, gente que trabalhava comigo. Tinha gente de Mesquita, mas era vizinho, familiar."

Deputado diz que manterá PM investigado

O UOL tentou falar com o deputado Bruno Dauaire durante a manhã e a tarde de hoje, mas não obteve retorno. O parlamentar decidiu se manifestar por meio de sua assessoria de imprensa. Segundo a nota, Ambrósio será mantido no cargo.

"Como presidente da Comissão dos Servidores, convidei o Diego Ambrósio para ajudar nas pautas de defesa dos policiais. Ele tem sido importante na articulação com a tropa em demandas da categoria. Não tem nada que desabone a conduta dele no trabalho", afirmou o deputado Bruno Dauaire.

De acordo o Portal da Transparência da Alerj, Diego Ambrósio é nomeado em um cargo com o código CCDAL-5, que tem salário líquido de R$ 5.109,17.

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