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Esquerda ensaia busca por evangélicos, mas "engatinha" comparada à direita

Bolsonaro discursa ao lado de pastores evangélicos na Marcha para Jesus de Brasília - Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Bolsonaro discursa ao lado de pastores evangélicos na Marcha para Jesus de Brasília Imagem: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

24/01/2020 04h02

Resumo da notícia

  • Após sinal de Lula, PT se move com projeto em direção a evangélicos
  • Pastor designado como principal articulador sofre para encher sala no RJ
  • Outros partidos da esquerda ignoram movimento e criticam segmentação
  • Bolsonaro segue estratégia consolidada e se mantém como candidato religioso

A reorganização que Lula promove no PT desde que saiu da cadeia inclui a tentativa de reaproximação com o eleitorado evangélico, aparentemente fechado com Jair Bolsonaro (sem partido) desde as eleições. A tarefa se desenha difícil.

O pastor Daniel Elias, que comanda a Assembleia de Deus em Duque de Caxias (RJ), foi recrutado para a missão de atrair os evangélicos do Rio, local que chama de "ovo da serpente" pelo elevado número de igrejas alinhadas ao atual presidente da República.

Ele não esconde que o trabalho é incipiente. Tanto que vai realizar uma reunião neste sábado e a lista de convidados tem 10 nomes — e o religioso não sabe se todos vão comparecer.

Enquanto o PT luta para conseguir encher uma sala, Bolsonaro teve o nome exaltado por um pastor em entrevista a Folha de S.Paulo publicada na segunda-feira. O pastor em questão não é qualquer um. Trata-se de Samuel Câmara, irmão do líder da bancada evangélica na Câmara dos Deputados, Silas Câmara (Republicanos-AM).

"Votei nele, continuo votando. Oro para que dê certo, que o Brasil vá se conformando, até nas falhas e fraquezas", disse num trecho da entrevista.

A frase do pastor elogia o presidente que prometeu nomear para o STF (Supremo Tribunal Federal) um ministro "terrivelmente evangélico". Os acenos de Bolsonaro a esta fatia do eleitorado são constantes e as aparições junto a lideranças também. Este tratamento faz o deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) considerar fracassada desde já a tentativa petista de reaproximação. Ele cita pendências com a Justiça e a pauta dos costumes como argumentos.

Os corruptos jamais terão a simpatia do povo que aprendeu a ter a compaixão de Cristo e a compartilhar com os mais pobres. O PT já provou que faz ao contrário dos ensinamentos de Cristo.
Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), deputado federal

Marco Feliciano se tornou interlocutor de Bolsonaro junto aos evangélicos - Evaristo Sá/AFP
Marco Feliciano se tornou interlocutor de Bolsonaro junto aos evangélicos
Imagem: Evaristo Sá/AFP

Mesmo outros partidos de esquerda discordam da estratégia petista. O candidato a presidente pelo PDT nas últimas eleições, Ciro Gomes, afirmou que Lula está instituindo a divisão do povo por religião.

Eu acho criminosas essas iniciativas do lulopetismo. Daqui a pouco vamos ver pastor se elegendo deputado pelo PT, mas só aprofunda o apartheid no Brasil.
Ciro Gomes

Carlos Lupi, presidente do PDT, diz que criar tratamento diferenciado para determinado perfil de eleitor é um erro. Na avaliação dele, torna os partidos mais parecidos em uma época que o brasileiro considera tudo a mesma coisa.

Rio de Janeiro, a "Hollywood da religião"

A tentativa petista de diálogo está em curso sob o comando da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ). Ela é crente desde 1972, presidente do núcleo evangélico nacional e definiu a linha que dá base do trabalho.

Não aceitamos que, sendo o Estado laico, transforme-se uma tribuna em púlpito e um púlpito em tribuna.
Benedita da Silva (PT-RJ), deputada federal

A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, contou que, além do núcleo nacional, há 17 núcleos estaduais. O pastor Daniel Elias foi recrutado para mudar o panorama no Rio de Janeiro porque se enquadra naquilo que o partido classifica como evangélico progressista. Apoiou Fernando Haddad na eleição para presidente e viajou até Curitiba para ungir o cadeado da unidade da Polícia Federal em que o ex-presidente Lula estava preso.

A missão maior é ensinar para o crente que as leis da Bíblia são para a igreja e que o Estado é laico. Mostrar para eles que a esquerda e o PT não são coisa do diabo. E tirar da cabeça deles que Bolsonaro é enviado de Deus. Deus escolhe pastores para igreja, Deus não escolhe presidente.
Daniel Elias, pastor

O PT não tem esperanças de contar com pastores populares, por isso Elias diz que faz "um trabalho de formiguinha". Ele lamenta não haver nenhum nome evangélico de peso na estrutura do partido.

Pastor Daniel Elias ungiu cadeado de unidade da PF em que Lula estava preso - Reprodução Youtube
Pastor Daniel Elias ungiu cadeado de unidade da PF em que Lula estava preso
Imagem: Reprodução Youtube

O pastor explica que o Rio de Janeiro é a "Hollywood da religião" pelo grande número de canais com programação gospel. Sem espaço na TV, tem à disposição as redes sociais do PT. Mas Facebook, Instagram e Twitter não são as ferramentas preferidas dele.

"Debate em rede social é furada. Ali, as pessoas se agridem e não leva para lugar nenhum".

Ele diz que levar a discussão para a Bíblia é fundamental para ganhar confiança. Afirma que o crente vê a pessoa que não é evangélica como alguém passível de influência maligna e que qualquer especialista, por mais capacitado que seja na sua área, estará em desvantagem num debate com Marco Feliciano ou Damares Alves se não pertencer a uma religião evangélica.

Elias ainda defende que o diálogo com os crentes seja uma via de mão dupla. Ele argumenta que os petistas precisam entender a visão de mundo dos evangélicos porque considera haver preconceitos contra os fiéis. Uma indiferença da esquerda com a fé e espiritualidade, aliada à visão de que são pessoas ignorantes e manipuladas por pastores impede a aproximação.

A esquerda lembrou dos negros, mulheres, LGBT, igrejas afrodescendentes e esqueceu os evangélicos. Somos escrachados. Bolsonaro representa revolta inconsciente que o evangélico tem. O evangélico não se vê na novela e quando tem um, tratam de forma caricata. É a pessoa que não bebe cerveja, mas fica enchendo o saco de todo mundo.
Daniel Elias, pastor

Identificação de longa data

Enquanto o PT busca caminhos, Bolsonaro desfruta de popularidade numa aproximação que começou há tempos. Enquanto o Senado votava o impeachment de Dilma Rousseff, ele era batizado no rio Jordão, em Israel. A cerimônia foi comandada pelo pastor Everaldo, presidente do PSC.

Ele colocou Damares Alves no ministério que cuida da família e dos costumes, um tema muito caro aos evangélicos. Também apareceu em culto de Silas Malafaia e foi ungido por Edir Macedo. A presença evangélica também aparece na casa do presidente. Michelle Bolsonaro frequenta a igreja Batista Atitude.

Tamanha identificação é sustentada por acenos constantes a esta faixa do eleitorado e conta com apoiadores ferrenhos no Parlamento. Sóstenes Cavalcante trabalha para manter o PT longe do eleitor evangélico.

"O povo evangélico deu uma oportunidade à esquerda votando em Lula e Dilma. Ambos usaram a cadeira da presidência para lutar contra os valores cristãos. O povo evangélico é inteligente, nunca mais vai cair no 'conto do vigário' da esquerda. Eles sempre vão lutar, onde estiverem, contra os nossos valores. São ateístas e comunistas sempre".

Presidente e a mulher Michelle assistem a culto na igreja Batista Atitude comandado pelo pastor Josué Valandro -
Presidente e a mulher Michelle assistem a culto na igreja Batista Atitude comandado pelo pastor Josué Valandro

Fiel da balança

A disputa pelos evangélicos ocorre de olho em uma fatia do eleitorado decisiva na última disputa presidencial. Estimativa do Datafolha aponta que foram 21,5 milhões de votos para Jair Bolsonaro e 10 milhões para Fernando Haddad. A diferença é superior aos 10,7 milhões de votos de vantagem que o atual presidente obteve sobre seu adversário.

E a tendência é que este poder de decisão dos evangélicos se amplie. Estudos apontam que a partir de 2032 eles serão maioria religiosa no Brasil.

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