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UOL Entrevista: Só faltou Bolsonaro falar que vírus sai na urina, diz Lula

Do UOL, em São Paulo

30/04/2020 11h52Atualizada em 30/04/2020 14h57

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou, durante o UOL Entrevista desta quinta-feira, a postura pública do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) diante da pandemia do novo coronavírus que já matou 5.466 pessoas no país, levando em conta casos oficiais. A conversa foi conduzida pelo colunista do UOL Leonardo Sakamoto

Para o petista, o atual ocupante do Palácio do Planalto desinforma e desmobiliza a população ao se declarar contra medidas de isolamento social, que ajudam a conter a propagação da covid-19.

O presidente disse que era uma gripezinha, que o cara que é atleta como ele ia tirar isso na urina, só faltou falar isso. Mas não é assim, é uma doença desconhecida, cientistas estão orientando. É preciso cuidar, esse é o papel do presidente.

Lula declarou ainda que Bolsonaro "vai acabar com o país" se continuar no cargo.

"Ou a gente encontra um jeito de pegar os crimes de responsabilidade que o Bolsonaro cometeu e tira ele, ou ele vai acabar com esse país, do jeito que vai", completou.

Lula criticou também os embates com governadores e prefeitos em meio à pandemia.

O governo não pode ficar brigando com governador, prefeito, precisa ser o maestro dos entes federados. Ele não cuida da pandemia, da economia, do emprego, do trabalho. Que governo é esse?

Lula ainda criticou a postura de Bolsonaro nas relações exteriores. "O meu problema com o Bolsonaro é que ele não cuida da pandemia, da economia, da política de relações exteriores... O Brasil nunca foi tão avacalhado no exterior como agora."

Por outro lado, o ex-presidente elogiou a postura do governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

"Ele tem se comportado de forma muito mais verdadeira do que o Bolsonaro. Problema está sempre na mão de governador e prefeito, Planalto está muito distante. Bolsonaro tem ido visitar poucas coisas, tem inaugurado muita coisa militar".

"Moro foi lambe-botas de Bolsonaro até o último dia"

A respeito das chances do ex-ministro da Justiça, Sergio Moro, de ser eleito presidente da República, o ex-presidente afirmou que não se sabe o ex-juiz federal, que o condenou no caso do tríplex do Guarujá, estará preparado para uma disputa eleitoral.

Moro pode ser nome forte em 2022, quero ver se está preparado para fazer isso. Uma coisa é ter proteção da toga e falar o que quiser sem poder ser retrucado. Outra é participar de debate, enfrentar rua. Isso eu quero ver. Não é um pensamento único, ele tem que ouvir o pensamento da rua.

Ao deixar o governo Bolsonaro, Moro reconheceu a autonomia que a Política Federal (PF) teve. Os governos de Lula —2003 a 2010— e Dilma Rousseff (PT) —2011 a 2016— foram os principais alvos da Operação Lava Jato, cujos processos eram comandados por Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba.

"Foi garantida a autonomia da Polícia Federal durante esses trabalhos de investigação. É certo que o governo na época tinha inúmeros defeitos, aqueles crimes gigantescos de corrupção", afirmou o ex-juiz em pronunciamento ao deixar o governo Bolsonaro.

Mesmo com esse elogio, Lula afirmou que o ex-ministro é um "mau-caráter". Procurado pelo UOL, Moro afirmou que não iria comentar as declarações de Lula

"[Esse pronunciamento] só demonstra o mau-caratismo do moro. Ele utilizou o PT para atacar o Bolsonaro. Ele foi lambe-botas do Bolsonaro até o dia em que saiu. Para ser honesto, Moro poderia ter dito também que cuidamos do Ministério Público bem, que eu garantia autonomia a todos os indicados ao meu governo", disse.

Lula disse ainda que Moro é "uma criatura inventada pela Globo" e que ministros não podem se achar maiores do que a República.

Troca na PF

O ex-presidente afirmou também que a troca no comando da Polícia Federal não pode se tornar uma guerra.

Ontem, o Supremo Tribunal Federal (STF), em caráter liminar, barrou a nomeação de Alexandre Ramagem para o cargo de diretor-geral da PF.

O fato de o delegado ser amigo do Bolsonaro precisa provar se tem alguma relação suspeita. Se tiver, para o bem da própria instituição, é importante que não seja indicado alguém que tenha um compadrio com o presidente ou com a família do presidente. Mas não pode ser uma guerra a troca.

O ex-presidente negou as comparações feitas sobre uma troca na PF que fez em 2007.

"O ministro era o Márcio Thomaz Bastos [ex-ministro da Justiça], e estava na hora de fazer uma mexida na PF, porque o Márcio ia sair do ministério e era um cara indicado por ele. Ele achava que era importante haver a troca do Paulo Lacerda por uma pessoa que não tivesse a relação que tinha com ele. Lacerda teve toda a liberdade que quis para trabalhar, porque sempre achei que as instituições têm que ter liberdade para que o Estado brasileiro seja cada vez mais democrático", diz.

Lula relembrou a investigação que a Polícia Federal fez na casa de seu irmão, Vavá.

"Fiquei sabendo com 11 horas de antecedência que iriam fazer uma investigação na casa do meu irmão. Eu disse: 'Se estiverem cumprindo a lei, que cumpram, porque não é o irmão do Vavá que está sabendo, é o presidente da República'".

Apesar de não concordar, Lula lembrou que aceitou a decisão. O ex-presidente também se lembrou de 2016, quando teve proibida a sua nomeação para ser ministro da Casa Civil do governo Dilma Rousseff (PT).

"Eu, na época, não falei nada, você não vai encontrar uma frase minha contra a decisão do Gilmar [Mendes]. Alguns dias depois veio o golpe, o Moreira Franco foi indicado (por Michel Temer) e ninguém vetou", recordou.

"Atual Congresso é nefasto"

A configuração atual do Congresso Nacional também foi alvo de críticas de Lula, que comentou a aproximação do presidente com o chamado "centrão". Ele afirmou que nunca um Congresso foi "ideologicamente tão grosso", o que é "nefasto para democracia".

"Eu às vezes acho engraçado a criação das siglas que a gente vai criando dentro do Congresso. O Congresso é resultado da cabeça política do eleitor no dia que ele foi votar. Esses cidadãos viraram deputados. Maioria eleita é muito conservadora. Nós nunca tivemos um Congresso ideologicamente tão grosso como esse. A quantidade de militares, delegados...é uma coisa nefasta à democracia".

"Quero ser cabo eleitoral em 2022"

A mais de dois anos das eleições de 2022, o ex-presidente descartou que será candidato novamente à Presidência. Lula disse que já estará com 77 anos e tem a intenção de ser apenas um "cabo eleitoral".

O petista foi condenado em segunda instância nos casos do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia, imóveis atribuídos a ele no estado de São Paulo. Pela Lei da Ficha Limpa, Lula não pode se candidatar à Presidência da República.

"Fico olhando minha vida e já fui longe demais, espero que quando chegar 2022 o PT tenha candidato. Eu sinceramente vou estar com 77 anos quando chegar outubro de 22. Se eu tiver juízo, tenho que ajudar com que o PT tenha outro candidato e que eu seja um bom cabo eleitoral. Quero ajudar a eleger alguém que tenha compromisso com o povo trabalhando", disse.

Para que eu fosse candidato em 2022 teria que estar com 100% de saúde, com a disposição que eu tenho agora, porque não posso ser candidato e ficar um velhinho arrastando o pé dentro do palácio, isso não é bom. Já prestei serviço para o país. Espero que o Brasil e o PT não precisem de mim.

O governo Bolsonaro teve início em 1º de janeiro de 2019, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (então no PSL) e de seu vice-presidente, o general Hamilton Mourão (PRTB). Ao longo de seu mandato, Bolsonaro saiu do PSL e ficou sem partido. Os ministérios contam com alta participação de militares. Bolsonaro coloca seu alinhamento político à direita e entre os conservadores nos costumes.