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Aliado de Bolsonaro, Crivella adota isolamento, mas é poupado de ataques

O prefeito do Rio, Marcelo Crivella - Saulo Angelo/Futura Press/Estadão Conteúdo
O prefeito do Rio, Marcelo Crivella Imagem: Saulo Angelo/Futura Press/Estadão Conteúdo

Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

06/05/2020 04h00

Desde o início da pandemia do coronavírus, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), tem se equilibrado para manter as medidas administrativas que visam o isolamento social na capital, sem se indispor com Jair Bolsonaro (sem partido) —mesmo adotando as restrições, o prefeito não virou alvo do presidente da República.

Em meio a acenos ao clã Bolsonaro, Crivella sonha com o apoio expresso do presidente nas próximas eleições, quando tentará a reeleição para o cargo pelo mesmo partido que abrigou o senador Flávio Bolsonaro e o vereador Carlos Bolsonaro (ambos do Republicanos-RJ). Enquanto isso, o nome de Rogéria Bolsonaro, ex-mulher do presidente, não está descartado para concorrer como vice de Crivella à prefeitura.

Para não se comprometer, ele já assinou decretos que flexibilizaram a quarentena para determinados segmentos empresariais, em aceno a Bolsonaro, e fez questão de relativizar falas do presidente consideradas "pouco humanitárias".

Em troca, Crivella tem sido poupado das críticas vindas de Brasília, que atingem contudo o governador fluminense, Wilson Witzel (PSC), em razão de sua política de isolamento.

Em São Paulo, por exemplo, o prefeito da capital, Bruno Covas, tem sido atacado na mesma medida que o governador do estado, João Doria (ambos do PSDB).

Em 30 de abril, o prefeito do Rio estendeu até 15 de maio a quarentena no município, que determina o fechamento de escolas e parte do comércio. Na ocasião, Crivella prometeu endurecer as medidas restritivas, caso a curva de infecção não se reduzisse. "Se as pessoas não usarem máscaras e a curva continuar subindo, nós vamos endurecer ainda mais", defendeu.

No final da tarde de ontem, a capital fluminense registrava 713 mortes confirmadas por coronavírus e 7.832 casos da doença. Entre 26 de abril e 2 de maio, a cidade teve, em média, 51,8% de isolamento social —queda de oito pontos percentuais em comparação à semana anterior. No mesmo período, a cidade registrou aumento significativo (64,3%) no total de mortes.

Crivella: 'Às vezes o presidente é mal interpretado'

Em um dos episódios mais emblemáticos dessa relação, ocorrido na última semana, Crivella justificou a fala de Bolsonaro sobre o número de 5.000 mortos por covid-19 no Brasil. Na ocasião, Bolsonaro afirmou: "E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?", quando questionado por jornalistas em relação à marca negativa. Em meio às críticas, Crivella fez questão de colocar panos quentes no ocorrido.

"Conheço o presidente Jair Bolsonaro. Não sei se tem brasileiro com o coração tão generoso quanto aquele guerreiro. Garanto a você que o que acontece é que às vezes o presidente é mal interpretado. O presidente manifestou o desejo que todo brasileiro tem de a gente voltar logo. Pode ter certeza que jamais, é uma coisa remota, que ele tenha manifestado desprezo pela vida das pessoas", relativizou.

Dias antes, Crivella visitou as obras de um hospital de campanha na zona oeste carioca acompanhado de Flávio Bolsonaro. Ao fazer seu discurso, o prefeito não perdeu a oportunidade de se dirigir ao primogênito do presidente e agradeceu o apoio do governo federal. Crivella comparou o presidente a um João Batista no deserto, "clamando por esperança e fé em Deus".

No site da Prefeitura do Rio, também é possível ver materiais de divulgação que enaltecem o trabalho da Presidência e reforçam a parceria.

"Coronavírus: governo federal atende Prefeitura e mandará à China aviões para trazer 190 toneladas de equipamentos de combate à Covid-19", diz um dos textos. Em outro, publicado quatro dias antes, o tom se repete: "Coronavírus: Prefeitura recebe adiantamento de R$ 87 milhões do governo federal para combate à doença".

Na mesma semana, Bolsonaro criticava o prefeito de São Paulo pela abertura de novas covas em cemitérios da capital. "Eu não quero nem continuar a falar sobre esse prefeito [Bruno Covas], que é coladaço no governador João Doria. Lamento, é triste para o Brasil e para a política brasileira."

No final de março, Crivella anunciou a reabertura de lojas de material de construção e de conveniência em postos de gasolina. Pouco depois, reforçou contudo que as medidas de distanciamento social estavam mantidas, com exceção desses segmentos. A fala do prefeito ocorreu menos de 24 horas após pronunciamento em cadeia nacional em que Bolsonaro definiu a covid-19 como uma "gripezinha".

Ao todo, cinco secretários do prefeito foram infectados pelo coronavírus. Crivella fez o teste rápido da doença, que deu negativo.

No estado do Rio, até esta terça (5), foram registradas 1.123 mortes e 12.391 casos confirmados.

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