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Política

Vírus da discórdia: entenda a crise da PF que separou Moro de Bolsonaro

Tensão entre ex-juiz e presidente começa com declaração sob a mangueira do Alvorada - Gabriela Biló/Estadão
Tensão entre ex-juiz e presidente começa com declaração sob a mangueira do Alvorada Imagem: Gabriela Biló/Estadão

Eduardo Militão

Do UOL, em Brasília

10/05/2020 02h06

Às 11h da manhã de 24 de abril, Sergio Moro, o ministro mais popular do presidente Jair Bolsonaro, deixou o governo acusando o chefe de tentar interferir na Polícia Federal. O ex-juiz da Lava Jato e um dos símbolos do combate à corrupção mostrou-se ressentido com uma série problemas que enfrentou desde o início da gestão.

Deflagrou uma crise que envolve a polícia, o governo, os filhos do presidente, o Supremo Tribunal Federal (STF), o Coaf e as leis anticrime e de abuso de autoridade.

Mas nada se compara ao estresse vinculado à PF, tensão que começou, na manhã de 15 de agosto do ano passado, com uma declaração do presidente sob a mangueira da entrada do Palácio da Alvorada.

Os reflexos desse episódio, que poderia se chamar "Vírus da discórdia", não têm prazo para terminar.

Primeira temporada: Briga pelo Rio

Pomo da discórdia

15.ago.2019. Debaixo da mangueira do Alvorada, onde costuma cumprimentar apoiadores e fazer declarações aos repórteres que o esperam, Bolsonaro diz que vai trocar o chefe da Polícia Federal no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi, por "motivos" de "gestão e produtividade".

"Todos os ministérios são passíveis de mudança. Vou mudar, por exemplo, o superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro. Motivos? Gestão e produtividade."

Ricardo Saadi, ex-superintendente da PF - Ian Cheibub/Folhapress - Ian Cheibub/Folhapress
O delegado Ricardo Saadi
Imagem: Ian Cheibub/Folhapress

PF desmente presidente

No fim da tarde, a Polícia Federal, comandada pelo delegado Maurício Valeixo, uma indicação pessoal do ministro da Justiça, divulga nota desmentindo os motivos alegados pelo presidente da República.

"A troca (...) já estava sendo planejada há alguns meses e o motivo da providência é o desejo manifestado, pelo próprio policial, de vir trabalhar em Brasília, não guardando qualquer relação com o desempenho do atual ocupante do cargo", afirmou a corporação.

A PF ainda indicou o substituto de Saadi, e disse que a escolha foi feita por Valeixo. "O nome do substituto, escolhido pela Direção Geral da Polícia Federal, é o do delegado de Polícia Federal Carlos Henrique Oliveira Sousa."

Maurício Valeixo, diretor-geral da PF - Denis Ferreira/Estadão - Denis Ferreira/Estadão
O delegado Maurício Valeixo
Imagem: Denis Ferreira/Estadão

Bolsonaro bate o pé

16.ago.2019. No dia seguinte, mesmo após a nota da PF, Bolsonaro afirma que é outro policial quem vai assumir o cargo no Rio. Tratava-se de Alexandre Saraiva, superintendente da corporação no Amazonas.

"O que eu fiquei sabendo... Se ele resolver mudar, vai ter que falar comigo", disse Bolsonaro. "Quem manda sou eu... deixar bem claro. Eu dou liberdade para os ministros todos. Mas quem manda sou eu. Está pre-acertado que seria o lá de Manaus."

E citou Sergio Moro: "Pergunta para o ministro da Justiça, Sergio Moro. Já estava há três, quatro meses para sair o cara de lá. Quando vão nomear alguém, falam comigo. Eu tenho poder de veto ou vou ser um presidente banana. Agora, cada um faz o que bem entende e tudo bem? Não."

Aparentemente, PF vence a batalha

Após a declaração do presidente, Maurício Valeixo ameçou se demitir - conforme Moro contaria em depoimento prestado à PF em 2 de maio de 2020. Mas o ministro conseguiu demover Bolsonaro. Carlos Henrique seria mesmo nomeado, apesar de o presidente preferir Alexandre Saraiva.

O delegado da Polícia Federal Alexandre Silva Saraiva, superintendente da PF no Amazonas - Divulgação/ADPF - Divulgação/ADPF
O delegado Alexandre Saraiva
Imagem: Divulgação/ADPF

Bolsonaro ameaça demitir Valeixo

22.ago.2019. Jair Bolsonaro diz que, se não pode trocar um superintendente no Rio, vai mudar o diretor geral da Polícia Federal. "Se eu trocar (o diretor-geral da PF) hoje, qual o problema? Está na lei que eu que indico, e não o Sergio Moro. E ponto final." E continuou: "Ele (Valeixo) é subordinado a mim, não ao ministro. Deixo bem claro isso aí."

29.ago.2019 - O então ministro da Justiça, Sergio Moro, e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) durante lançamento do projeto 'Em frente, Brasil' - Marcos Corrêa/PR - Marcos Corrêa/PR
"Eu que indico, e não o Moro"
Imagem: Marcos Corrêa/PR

Clima esquenta; Moro quase é demitido

No mesmo dia, policiais reunidos em Salvador (BA) aumentam críticas a Bolsonaro. Culpam também Moro, por falta de ação na defesa da corporação. Mas, segundo o livro "Tormenta", de Thaís Oyama, naqueles dias o presidente ameaçara demitir Sergio Moro por causa do impasse na polícia. O general Augusto Heleno teria impedido a saída do ministro da Justiça.

07.mai.2020 - O livro "Tormenta", da jornalista Thaís Oyama, narra o primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução


Flávio Bolsonaro investigado pela PF

26.ago.2019. Um inquérito da PF estava pendente de análise pela Polícia Federal do Rio. Ele apurava a suspeita de que o filho mais velho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), lavou de dinheiro com imóveis após esquema de "rachadinha" de salários de assessores na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O caso também é apurado na Polícia Civil e no Ministério Público Estadual.

Senador Flávio Bolsonaro no Palácio do Planalto - Reprodução - Reprodução
Filho do presidente e investigado por lavagem
Imagem: Reprodução

Troca é efetivada

28.ago.2019. O Diário Oficial publica a saída de Saadi da chefia da PF. Conforme Moro contaria em 2 de maio de 2020, "principalmente, a partir dessa época o presidente passou a insistir" na troca de Valeixo. Ele disse que "conseguiu demover o presidente dessa substituição por algum tempo".

A troca não foi simples. Saadi sai em 28 de agosto e o delegado Tacio Muzzi ocupa o cargo interinamente, porque Carlos Henrique só assumiria em 20 de novembro.

07.mai.2020 - DO registra a saída do delegado Ricardo Saadi da PF do Rio de Janeiro em 28 de agosto de 2019. Carlos Henrique Oliveira só assumiria posto em 20 de novembro de 2019 - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Segunda temporada: A fritura

Bolsonaro pressiona Moro a tirar Valeixo

Janeiro.2020. Em uma reunião no Palácio do Planalto, informa o depoimento de Sergio Moro, Jair Bolsonaro diz ao ministro que deseja trocar Valeixo pelo diretor geral da Abin, Alexandre Ramagem. Bolsonaro indicou ainda outros dois nomes: o secretário de Segurança do DF, Anderson Torres, e um subordinado dele, Alfredo Carrijo (na foto abaixo, com o líder do governo na Câmara, Vítor Hugo, PSL-GO). Moro disse que Torres e Carrijo dois não tinham "qualificação necessária"

Em contrapartida, Moro sugeriu Disney Rossetti, então diretor-executivo da PF, e Fabiano Bordignon, então diretor do Departamento Penitenciário do Ministério da Justiça.

Torres reclama de Moro em ofício

22.jan.2020. O secretário de Segurança do DF, Anderson Torres envia ofício a Moro. Nele, o secretário de Segurança questiona o "silêncio" do ministro sobre a presença de líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital) detidos em Brasília. Moro rebate: "Não há qualquer reclamação da permanência desses presos em Brasília, salvo do próprio Governo do Distrito Federal".

07.mai.2020 - O secretário de Segurança do DF, Anderson Torres, reclama do silêncio de Sergio Moro sobre presos do PCC em Brasília - Reprodução - Reprodução
O ofício de Torres para Moro
Imagem: Reprodução

Bolsonaro fala em dividir ministério

23.jan.2020. Bolsonaro faz uma reunião sem Moro com todos os secretários de Segurança do país. Próximo a a ele, estava Torres. Na conversa, divulgada pelo próprio presidente, ele fala em dividir o Ministério da Justiça em dois, tirando poderes de Moro. Ao mesmo tempo, líderes do "Centrão" e da bancada da bala no Congresso começam a pressionar para tornar Torres o novo ministro da Segurança Pública.

Em público, água na fervura

24.jan.2020. A reunião irritou Moro. Mas, um dia depois, o presidente jogou água na fervura. Disse que havia "chance zero" de dividir o ministério de seu auxiliar mais popular. Mas não descartou mudança de planos. Na foto abaixo, Bolsonaro e Anderson Torres (à direita).

Terceira temporada: A demissão

'Só quero a PF do Rio', teria dito o presidente

Março.2020. Sergio Moro afirmou em depoimento que, no começo de março de 2020, recebeu uma mensagem de Bolsonaro pedindo que Carlos Henrique saísse da PF do Rio. "A mensagem tinha, mais ou menos o seguinte teor: 'Moro você tem 27 superintendências, eu quero apenas uma, a do Rio de Janeiro'."

Sede da PF no Rio de Janeiro - Gabriel Sabóia/UOL - Gabriel Sabóia/UOL
Sede da PF no Rio
Imagem: Gabriel Sabóia/UOL

"PF na cola de bolsonaristas"

22.abr.2020. O jornal O Globo e o site O Antagonista publicam que a Polícia Federal deve tomar medidas contra 10 a 12 deputados bolsonaristas investigados no STF no inquérito das Fakenews. Bolsonaro encaminha essa notícia duas vezes a Moro. Na segunda vez, pouco antes de uma reunião em 23 de abril, escreve: "Mais um motivo para a troca". Moro responde que as eventuais ordens de busca são tomadas pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, e que a PF não tem controle sobre isso.

Pelo WhatsApp, o presidente Jair Bolsonaro diz ao então ministro Sergio Moro em 23 de abril de 2020: "Mais um motivo para a troca" - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
“Mais um motivo para a troca”
Imagem: Reprodução/TV Globo

A ameaça

23.abr.2020. Bolsonaro e Moro conversam às 9h da manhã. Ele pede a demissão de Valeixo. Bolsonaro quer nomear Alexandre Ramagem para a PF. Moro resiste e novamente cita Bordingon e Disney Rosseti como alternativas. O presidente não aceita. Moro ameaça se demitir.

19.dez.2018 -- Novo chefe do Depen, o delegado Fabiano Bordignon comandava o posto da Polícia Federal em Foz do Iguaçu (PR). Ele já foi diretor de dois presídios federais, um deles o de Catanduvas (PR), onde conheceu o juiz Sergio Moro, que atuava como corregedor da unidade - Reprodução - Reprodução
O delegado Fabiano Bordignon
Imagem: Reprodução

"Vá para o STF"

As notícias sobre a ameaça de Moro correm Brasília. Pelo WhatsApp, a deputada Carla Zambelli (PSL-SP) manda mensagem para o ministro a fim de que ele aceite a nomeação de Ramagem. Oferece ajuda para que Bolsonaro o indique para uma vaga no Supremo. "E vá em setembro para o STF", escreve a deputada. "Prezada, não estou à venda", responde o então ministro.

Moro discursa em casamento de Carla Zambelli - Reprodução/Redes sociais - Reprodução/Redes sociais
Moro no casamento de Carla Zambelli
Imagem: Reprodução/Redes sociais

Um telefonema de adeus

Em telefonema à noite, Bolsonaro fala com Valeixo por telefone. O delegado é avisado que vai ser exonerado. Questionam a ele se podem colocar uma demissão "a pedido" no Diário Oficial. Segundo, Moro, Valeixo disse que não lhe cabe responder a essa pergunta.

Alexandre Ramagem e Maurício Valeixo - Ag.Senado e Denis Ferreira/Estadão - Ag.Senado e Denis Ferreira/Estadão
Os delegados Ramagem e Valeixo
Imagem: Ag.Senado e Denis Ferreira/Estadão

Demissão com acusação

24.abr.2020. O Diário Oficial publica a demissão de Valeixo, "a pedido". A edição ainda mostra a assinatura de Moro, embora o ministro afirme também que não assinou o documento. Às 11h, o ministro faz um pronunciamento em que anuncia sua carta de demissão. Ele acusa o presidente de tentar interferir na Polícia Federal. Moro revela que Bolsonaro queria obter relatórios de inteligência da PF diretamente e ainda desejava trocar superintendências do Rio, de Pernambuco e de outras regionais. Afirma ainda que o presidente estava preocupado com inquéritos que tramitavam no Supremo.

O inquérito

Horas depois do pronunciamento de Moro, a Procuradoria-Geral da República pede um inquérito para avaliar se ele e Bolsonaro cometeram crimes. A investigação estava só começando.

Augusto Aras cumprimenta Jair Bolsonaro - Isac Nóbrega/PR - Isac Nóbrega/PR
Augusto Aras e Bolsonaro
Imagem: Isac Nóbrega/PR

"Isso é interferir na PF?"

Às 17h, Bolsonaro faz um pronunciamento ao lado de ministros, do filho Eduardo e mais dois deputados. Ele nega interferência na PF, mas admite que quer, sim, obter relatórios de inteligência diretamente da polícia. Afirma que já faz isso em relação a órgãos das Forças Armadas. Bolsonaro diz que pediu para a polícia atuar em casos de seu interesse: o caso do porteiro de seu condomínio, um depoimento sobre seu filho Jair Renan e o esfaqueamento que sofreu de Adélio Bispo.

Carla Zambelli está ao lado dele. Bolsonaro então trata da oferta de uma vaga para o STF, mencionada pela deputada em conversa com Moro horas antes.

Os novos chefes

28.abr.2020. Bolsonaro nomeia o delegado Alexandre Ramagem para diretor da PF e o advogado geral da União, André Mendonça, para o Ministério da Justiça.

André Mendonça toma posse como novo ministro da Justiça - TV Brasil/Reprodução - TV Brasil/Reprodução
Mendonça assume o lugar de Moro
Imagem: TV Brasil/Reprodução

Supremo barra Ramagem

29.abr.2020. No entanto, no dia seguinte, horas antes da posse, o ministro do Supremo Alexandre de Moraes suspende a nomeação de Ramagem, por ser amigo da família do presidente. Irritado, Bolsonaro discursa na posse de Mendonça enfatizando que os poderes são independentes e que "quase houve uma crise institucional". Ou seja, que quase não obedeceu a ordem do Supremo. No dia seguinte, diz que Moraes só chegou ao cargo por causa da amizade com o ex-presidente Michel Temer.

Ministro Alexandre de Moraes - Pedro Ladeira/Folhapress - Pedro Ladeira/Folhapress
O ministro Alexandre de Moraes
Imagem: Pedro Ladeira/Folhapress

Moro presta depoimento à Polícia Federal

02.mai.2020. Sergio Moro presta depoimento à PF em Curitiba. Os peritos extraem mais conversas dele com o presidente, ministros e a deputada Carla Zambelli (PSL-SP). Apoiadores do presidente agridem jornalistas e entram em conflito com apoiadores do ex-juiz da Lava Jato.

Nomeação em 34 minutos

04.maio.2020. Num intervalo de 34 minutos, Bolsonaro nomeia no Diário Oficial e dá posse ao delegado Rolando Alexandre Souza como diretor da PF. Ele trabalhou com Ramagem na Abin.

De novo, o Rio

No primeiro de dia de trabalho, Rolando Alexandre inicia mudanças no Rio de Janeiro, foco da crise iniciada no ano passado e que ainda mantém alguns casos sensíveis a Bolsonaro. Ele convidou o chefe da PF no Rio, Carlos Henrique Oliveira, para virar diretor executivo em Brasília. Mas, para o lugar dele, convidou Tacio Muzzi, especialista em lavagem de dinheiro e pessoa da confiança de Ricardo Saadi. A medida trouxe alívio aos policiais.

07.mai.2020 - O delegado Carlos Henrique Oliveira, ex-superintendente da PF no Rio de Janeiro - Divulgação/ADPF - Divulgação/ADPF
O delegado Carlos Henrique Oliveira
Imagem: Divulgação/ADPF

Quarta temporada: Justiça e Congresso

Trailler dos próximos episódios

Após as acusações de Sergio Moro, Jair Bolsonaro trava uma guerra na Justiça. No Congresso, ganha apoio, que antes não tinha, do chamado "Centrão". E o que vem depois?

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