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Personagem da semana, ministro Ernesto Araújo tornou-se um pária político

O chanceler Ernesto Araújo, que está com o cargo ameaçado  - Ilustração sobre foto de Raylson Ribeiro/MRE
O chanceler Ernesto Araújo, que está com o cargo ameaçado Imagem: Ilustração sobre foto de Raylson Ribeiro/MRE

Jamil Chade e Tales Faria

Colunistas do UOL, em Genebra e em Brasília

27/03/2021 04h00

Durante uma solenidade para novos diplomatas do Itamaraty, no ano passado, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, declarou que se a atuação da diplomacia do Brasil "faz de nós um pária internacional, então que sejamos esse pária". Nesta semana, Araújo tornou-se um verdadeiro pária político. Com direito a uma participação constrangedora, na quarta-feira, 24, no encontro de chefes de poderes no Palácio da Alvorada, e com atuações vexaminosas durante seus depoimentos naquele mesmo dia, na Câmara e no Senado.

"Vossa excelência é uma unanimidade no Senado Federal. Coisa que eu nunca vi. O senhor é uma unanimidade de rejeição e de incompetência", declarou a senadora Simone Tebet (MDB-MS), que não chega a ser uma oposicionista ferrenha do governo.

Ante um ministro acuado e gaguejante, a senadora desafiou: "Nada do ministério de Vossa Excelência será bem recebido no Senado. Ajude o país e peça sua exoneração por 30 dias. Verá que, com esse gesto, conseguiremos mais rapidamente as vacinas que precisamos da China e dos Estados Unidos. Se isto não ocorrer, o senhor pode voltar ao governo."

Mara Gabrilli (PSDB-SP) dissecou o ministro: "O senhor foge do assunto. Ficou divagando o tempo todo com esse mesmo e fraco repertório. A gente pode inferir que é assim que o senhor se relaciona no trabalho, no dia a dia. O senhor não está funcionando. Olha a reação de todos os senadores aqui. Pede para sair, ministro. Vamos dar um basta nisso. Chega!"

No início da manhã, Araújo já havia encarado um amargo café da manhã, no Palácio da Alvorada, com direito a humilhação pública diante de seu chefe, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), regado a cenas de constrangimento cada vez que citavam seu nome ou a sua pasta.

Sentado numa longa mesa junto com os chefes dos três poderes, governadores e colegas da Esplanada dos Ministérios, chegou a ouvir do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), que não dava "para o Congresso ter que fazer o papel do Ministério das Relações Exteriores".

Lira se referia à carta assinada por ele e pelo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), solicitando aos governos dos EUA e da China que ajudem o Brasil a obter mais vacinas contra a Covid-19.

No depoimento da Câmara, o chanceler ouviu dos deputados que seus ataques ao governo chinês e ao resultado da eleição nos EUA, vencida por Joe Biden, só serviram para dificultar as negociações para compra de vacinas pelo Brasil. Além, é claro, das posições defendidas pelo seu chefe, o presidente da República.

Assessor internacional do PLanalto, Filipe Martins faz gesto obsceno durante sessão do Senado, atrás do presidente da Casa, Rodrigo Pacheco - Reprodução - Reprodução
Sentado atrás do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, o assessor internacional do Planalto, Filipe Martins, faz um gesto obsceno durante sessão do plenário
Imagem: Reprodução

Para piorar as coisas, Araújo levou ao depoimento no Senado o assessor internacional da Presidência, Filipe Martins. Sentado atrás de Rodrigo Pacheco, Martins resolveu fazer um gesto com os dedos que, no Brasil, significa um palavrão e, nos EUA, é usado pelos supremacistas brancos. Rodrigo Pacheco mandou abrir investigação contra o acompanhante do ministro, pediu sua demissão ao presidente e passou a fazer coro contra Araújo.

"A politica externa tem que mudar", disse o presidente do Senado em entrevista coletiva de imprensa na sexta-feira, 26, logo após comandar uma reunião com governadores da qual o presidente Jair Bolsonaro também participou.

Um líder governista ouvido pelo UOL disse que não vê mais clima para Ernesto participar de reuniões com Lira e Pacheco. E os presidentes da Câmara e do Senado estarão cada vez mais coordenando as ações de enfrentamento ao coronavírus. Ambos integram o Comitê de Enfrentamento à Covid-19 criado pelo presidente da República nesta semana, que coordenará as ações federais, estaduais e municpais de combate à pandemia.

A expectativa no Congresso é que Bolsonaro demita o ministro ainda nesta semana. Mas o presidente resiste. Araújo e Martins são apadrinhados pelo filho Zero Três do presidente, o deputado Eduardo Bolsonaro, e pelo guru do bolsonarismo de raiz, Olavo de Carvalho. Eduardo Bolsonaro só admite que eles percam seus cargos se forem alocados em alguma posição de prestígio.

O problema é que, para dar uma embaixada a Araújo, o governo terá que submeter sua aprovação a uma sabatina do Senado. Outra questão é que o ministro, um diplomata de carreira, é muito mal visto entre os seus pares no Itamaraty.

Araújo nunca havia chefiado uma embaixada antes de ser ministro. Embaixadores ouvidos pelo UOL. contam que ele era uma figura inexpressiva dentro da carreira diplomática. Visto apenas como o genro do ex-secretário-executivo do Itamaraty Luiz Felipe de Seixas Corrêa, este sim bastante respeitado.

Nas conversas com amigos, o sogro não poupa Ernesto Araújo. Classifica sua atuação como desastrosa, assim como a atual política externa do governo. Seixas Corrêa atingiu o ápice da carreira no governo Lula, mas circula bem entre tucanos.

O genro só chamou a atenção da ala radical de extrema direita e ultrareligiosos ao publicar textos que apontavam para um alinhamento com o pensamento conservador dos EUA e se aproximar de Olavo de Carvalho. Em um blog, seus artigos ainda citavam Donald Trump como o "único" que poderia "defender o Ocidente".

Dois anos depois de assumir o comando do ministério, Ernesto Araújo é alvo de desprezo por uma imensa maioria dos diplomatas. A ordem não escrita que já circula há meses é de que, em cada departamento e divisão da Chancelaria, apenas as informações sobre temas críticos são repassados até o gabinete do chefe. O restante não é o informado para não dar brecha ou espaço para que ele tenha "brilhantes ideias" e modifique posições tradicionais do país pelo mundo.

"A regra é informar só o mínimo necessário", comentou um embaixador em Brasília, na condição de anonimato.

"Novo Itamaraty"

Desde o início, ficou claro que a ideologização da pasta seria sua marca. Causou surpresa quando, antes mesmo da posse de Bolsonaro, ele mandou recolher um telegrama que havia sido enviado a todas as embaixadas estrangeiras em Brasília convidando para o ato. Numa nova versão produzida dias depois, ele havia excluído a Venezuela da lista de convidados.

Depois da posse, criou novas estruturas com nomes como "departamento de soberania", suspendeu a circulação de jornais que não gosta, incluiu blogs que disseminam desinformação na lista de leituras dos diplomatas e usou os ataques contra o "globalismo" como seu slogan.

Um de seus primeiros atos foi modificar o passaporte brasileiro para retirar a referência ao Mercosul e reforçar os símbolos nacionais.

Ironizado e desrespeitado pelos corretores, seus subordinados o apelidaram de Beato Salú, personagem da novela Roque Santeiro. Deu palco e medalhas para monarquistas, terraplanistas, pastores e para o submundo da extrema-direita. Em compensação, virou figurinha de mensagens de grupo de whatsapp.

Numa delas, que circula entre diplomatas, Araújo é apresentado como tendo quatro patas. Em outra, uma pessoa com um lençol vermelho imitando a bandeira da URSS se passa por um fantasma e diz: "Erneeestooo", como se estivesse tentando assombrar o ex-chanceler.

Ele também instaurou um clima de terror e tentativa de encontrar quem são os detractores. Ainda aprofundou o mal-estar ao promover perseguições internas, deslocar diplomatas que servem de referência para postos irrelevantes ou simplesmente deixá-los sem função. Em Brasília, diplomatas passaram a apagar todas as mensagens que trocavam, inclusive com a família, com medo de se tornarem alvo das milícias digitais do bolsonarismo.

Araújo foi extremamente eficiente em desmontar a política interna tradicional do Itamaraty . Infiltrou a diplomacia brasileira com uma ideologia de ultradireita, rompeu com consensos sobre direitos humanos, comprou brigas gratuitas e transformou a política externa numa das principais trincheiras da guerra cultural do bolsonarismo.

Para fontes dentro do Itamaraty, ele não foi mais longe em sua agenda apenas por dois fatores: perdeu o aliado americano - Donald Trump - e foi freado por militares e exportadores agrícolas no Brasil em determinadas pautas.

Hoje, porém, ficou sem o apoio interno para se blindar. Nem mesmo o setor exportador adota uma postura de consenso em relação aos resultados do chanceler e prefere atribuir os avanços nas vendas no mercado exterior à pasta da Agricultura.

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