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Representante diz que Davati não comprovou entrega de vacinas a ministério

Frascos rotulados como de vacina da AstraZeneca contra Covid-19 em frente ao logo da empresa - Dado Ruvic/Reuters
Frascos rotulados como de vacina da AstraZeneca contra Covid-19 em frente ao logo da empresa Imagem: Dado Ruvic/Reuters

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió*

01/07/2021 04h00

O Ministério da Saúde recebeu, em março, uma segunda proposta para a compra de 300 milhões de doses da vacina AstraZeneca, enviada por um representante da empresa norte-americana Davati Medical Supply no Brasil, o advogado Júlio Caron.

A Davati é a mesma empresa da qual Luiz Paulo Dominguetti citou ser representante no caso em que ele disse ter sido procurado, em fevereiro, por um diretor do ministério para superfaturar o valor de cada dose em US$ 1.

A venda superfaturada de doses está sendo investigada na CPI da Covid após relato à Folha de que um diretor havia pedido propina para fechar o contrato. Nos emails trocados com o governo, a Davati envia uma carta de recomendação para vender 400 milhões de doses do imunizante da AstraZeneca. Em contrapartida, o ministério marca uma reunião para oficializar a proposta. Luiz Paulo Dominguetti, inclusive, é o depoente de hoje na CPI da Covid no Senado.

Já as negociações dessa segunda tratativa, diz Caron, não avançaram porque o ministério solicitou da empresa documentos que comprovassem a autorização para vender a vacina ao governo brasileiro. Mas ela nunca encaminhou essa documentação a ele.

Ele também afirma nunca ter se reunido com representantes do Ministério da Saúde para tratar da proposta.

Não tive reunião com ninguém, e eles não exigiram nada de favorecimento, não falaram de preço, nada disso. Apenas me pediram mais documentos para analisar melhor a operação.
Júlio Caron, representante da Davati

Por meio de nota, a AstraZeneca afirmou que fornece a vacina "para o maior número possível de países", mas diz que "não disponibiliza a vacina por meio do mercado privado ou trabalha com qualquer intermediário no Brasil". Todos os convênios são realizados diretamente via Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e governo federal.

O UOL obteve cópia dos emails e do documento da Davati designando Caron como representante no país para oferecer a proposta.

Caron afirma que sua proposta não tem qualquer relação com a feita por Luiz Paulo Dominguetti Pereira. "Eu não o conheço e não sei dizer se a Davati assinou com outras pessoas o mesmo documento que eu assinei. Se ele tiver documento, como o que tenho, que apresente", diz.

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Imagem: Arte/UOL

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Ministério pede documentação

A proposta feita por Caron foi enviada por email para o ministério em duas oportunidades: uma às 10h58 e outra às 16h59 no dia 9 de março. No texto, o representante informa ter "a possibilidade de lhe ofertar 300.000.000 milhões [sic] de doses da vacina AZD1222 para compra imediata pelo Ministério da Saúde".

No dia 10 de março, o email foi respondido por Paulo César Ferreira Júnior, então chefe de gabinete do ministro Eduardo Pazuello. Ele cobrou "a carta de autorização da Astra Zeneca [sic] concordando que a empresa o qual Sr representa, negocie doses de vacinas com o Governo Brasileiro, a fim de darmos continuidade no processo de aquisição das referidas doses de vacina".

Na troca de emails não houve detalhamento de valores por dose. Segundo Caron, a oferta seria de US$ 3,50 —mesmo valor citado por Dominguetti na proposta em que diz ter recebido pedido de superfaturamento.

Sem resposta da Davati, advogado diz ter desistido

Caron conta que procurou a Davati porque representa uma empresa canadense que atua no ramo de vacinas fora do país. "Em razão disso, tive acesso ao pessoal da Davati, que buscava ofertar lotes de vacina ao país. Em fevereiro, quando comecei a conversar sobre o assunto, não existia outra fonte de vacina a não ser laboratórios, e alguns distribuidores começaram a oferecer vacinas", explica.

Segundo Caron, o credenciamento à empresa foi feito apenas para a oferta dos 300 milhões de doses, que seriam produzidas no Instituto Serum, da Índia. "Eles não têm filial, não têm empresa aberta aqui no Brasil."

O advogado explica que desistiu de seguir adiante com a proposta porque não houve retorno da Davati sobre os documentos pedidos pelo ministério.

"Solicitei à Davati a documentação que mostrasse que eles eram autorizados a vender no Brasil. Disse: 'Preciso da documentação da vacina, preciso de uma carta dizendo que representava eles aqui, para que eu pudesse vender sem problema'. Como ela não mandou dizendo que tinha vacina, ou mesmo uma carta de autorização que podia vender, eu simplesmente parei com assunto. O processo ficou em aberto [no ministério] porque não foi formalmente encerrado", diz.

Outro motivo para desistir da venda foi que, com o pico da epidemia atingindo a Índia, o governo daquele país publicou uma diretriz determinando que não saísse nenhuma vacina da Índia enquanto não fosse vacinada toda a população. "Então, mesmo que a Davati ou qualquer outro representante de laboratório conseguisse vender, não ia sair nenhuma vacina de lá —e esse bloqueio segue até hoje", completa.

Caron ainda diz que, após o episódio, ficou mais rigoroso em analisar propostas de revendedores antes de oferecer doses de vacina contra a covid-19. "Me ligam várias empresas de fora dizendo que têm doses, mas aí digo: me manda a documentação do que tem, me manda uma carta de comprovação para que eu possa oferecer ao poder público, à iniciativa privada", diz.

Não vou oferecer sem essa comprovação para não acontecer o que ocorreu com a Davati: me prometeram a vacina, não me confirmaram nada, ficou um pedido aberto no ministério. Agora tenho que explicar um negócio que não vendi dose nenhuma, que não conheço as pessoas e não sei se as denúncias têm algum fundamento ou não.
Júlio Caron, representante da Davati

O UOL procurou a Davati com envio de emails, mensagens e ligações à sede da empresa e a representantes nomeados nas propostas encaminhadas ao ministério, mas não obteve retorno até a última atualização deste texto.

À reportagem da folha, o dono da empresa, empresário Herman Cardenas, afirmou que não houve negociação com o ministério, mas sim uma proposta que foi recusada pelo governo.

* Colaborou Nathan Lopes, do UOL, em São Paulo.

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