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Papel de ex de Bolsonaro no esquema de rachadinhas é cada vez mais evidente

Ana Cristina Valle - Arte/UOL
Ana Cristina Valle Imagem: Arte/UOL

Juliana Dal Piva

Colunista do UOL

04/09/2021 04h00Atualizada em 04/09/2021 12h56

O papel central da advogada Ana Cristina Siqueira Valle, segunda mulher do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), no esquema ilegal de entrega de salários de funcionários dos gabinetes da família fica evidente a cada nova testemunha que entra em cena. O esquema configura o crime de peculato (mau uso ou roubo de dinheiro público) e é conhecido, popularmente, como "rachadinha".

O mais novo personagem é Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, ex-assessor de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ). Ele contou, em entrevistas a esta colunista e ao portal Metrópoles, que no período em que foi funcionário de Flávio Bolsonaro na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) era obrigado a entregar mensalmente 80% de seu salário, das férias, do que recebia como vale-alimentação e ainda da restituição do imposto de renda. De acordo com Nogueira, ele precisava entregar esses valores em dinheiro vivo nas mãos de Ana Cristina Siqueira Valle. Isso ocorreu todos os meses ao longo de mais de quatro anos.

O depoimento de Marcelo Nogueira é importante não apenas por se tornar público, mas porque se soma a um conjunto de outros depoimentos e documentos já conhecidos. Como ele, outra assessora de Flávio também relatou ao MP-RJ que entregou 90% do salário e todos os outros benefícios no tempo em que esteve lotada no gabinete. Antes disso, a coluna mostrou gravações de Andrea Siqueira Valle, irmã de Ana Cristina também admitindo que devolvia R$ 7 mil todos os meses, o que representava 90% dos vencimentos dela. Outra que também era funcionária fantasma.

Ele foi assessor de Flávio Bolsonaro na Alerj no período de 1º de fevereiro de 2003, início do mandato de Flávio, até 6 de agosto de 2007, quando Ana Cristina e Jair Bolsonaro se separaram.

Nessa mesma época, a ex-mulher do agora presidente era a chefe de gabinete de Carlos Bolsonaro, em seu primeiro mandato na Câmara Municipal do Rio. As mesmas condições, segundo ele, foram impostas a funcionários de Carlos na Câmara. "Tudo a mesma coisa", afirmou Nogueira, à coluna.

Em maio, o TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) autorizou a quebra de sigilo bancário e fiscal de Carlos, Ana Cristina e outros 25 assessores para apurar a suspeita de rachadinha e da nomeação de funcionários fantasmas no gabinete do vereador. O fato foi tornado público essa semana.

Ana Cristina - FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO - FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO
A advogada Ana Cristina Valle, ex-mulher de Jair Bolsonaro
Imagem: FÁBIO MOTTA/ESTADÃO CONTEÚDO

"Queria me escravizar"

Marcelo Nogueira morou os últimos cinco anos com Ana Cristina, em Resende, no sul do Rio de Janeiro. Eles se desentenderam depois que ela o convidou para ir trabalhar com ela em Brasília e, segundo ele, não pagou os valores acordados anteriormente. Como a coluna mostrou na semana passada, a segunda mulher do presidente mudou em fevereiro para a capital federal e recentemente passou a viver em uma mansão de R$ 3,2 milhões no Lago Sul, região das mais nobres de Brasília.

De acordo com Nogueira, o imóvel foi comprado por Ana Cristina, que se utilizou de laranjas para ocultar a aquisição.

"Ela falava 'você tá fazendo questão, mas não vai ter nem gasto, vai tá morando na minha casa.' Eu falava que 'não sou seu escravo não, não trabalho pra morar na casa de ninguém não'. A gente trabalha pra ter nossas coisas, sou igual todo mundo, não é porque sou preto que vou ficar em casa de patrão não. Ela queria me escravizar, né?" Ele considera que Ana Cristina foi "praticamente" racista com ele. "Ela me viu como o quê? Só porque eu era preto".

Esse foi um dos motivos alegados pelo ex-funcionário para denunciá-la ao MPT (Ministério Público do Trabalho). Ele afirmou ainda que pretende ingressar com uma ação na Justiça por danos morais contra a ex-mulher de Bolsonaro.

Imóveis de Ana Cristina e Bolsonaro

Nogueira disse que acompanhou as compras de imóveis feitas por Ana Cristina no período do casamento com Jair Bolsonaro. A advogada não tinha bens antes da união, em 1998.

"Isso foi antes da separação. Ela que comprava isso tudo. Tudo quem fazia era ela. Tudo quem comprava era ela. Ele mesmo nunca se envolveu muito. Ela tomava conta de tudo", diz Nogueira.

Já no fim do casamento, Ana Cristina e Jair Bolsonaro eram donos de 14 imóveis dos quais cinco foram comprados em dinheiro vivo. Questionado se sabia que os imóveis estavam em nome de Ana Cristina e Bolsonaro, o ex-assessor afirmou que "ela colocava, mas ele não concordava muito não".

O casal ainda tinha carros, ações e dinheiro vivo nos cofres da família. "Ela comprava muita joia. Sei que ela comprava muita coisa", diz Marcelo.

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