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Juliana Dal Piva

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Ex de Bolsonaro comprou mansão com dinheiro de apartamento, diz ex-assessor

Imagens externas da casa onde Ana Cristina e Jair Renan estão morando no Lago Sul em Brasília - Reprodução
Imagens externas da casa onde Ana Cristina e Jair Renan estão morando no Lago Sul em Brasília Imagem: Reprodução
Juliana Dal Piva

Juliana Dal Piva é formada pela Universidade Federal de Santa Catarina e possui mestrado pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas. Trabalhou nos jornais O Dia, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, O Globo e revista Época. Obteve oito premiações de jornalismo. Entre elas, o Prêmio Líbero Badaró de jornalismo impresso em 2014 e também foi menção honrosa do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Em 2019, recebeu ainda o Prêmio Relatoría para la Libertad de Expresión (RELE) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, pelo trabalho "Em 28 anos, clã Bolsonaro nomeou 102 pessoas com laços familiares".

Colunista do UOL

03/09/2021 06h00

Marcelo Luiz Nogueira dos Santos, ex-empregado da advogada Ana Cristina Siqueira Valle, contou em entrevista à coluna que a segunda mulher do presidente Jair Bolsonaro usou o dinheiro da venda de um apartamento no Rio de Janeiro para dar entrada na compra de uma mansão avaliada em R$ 3,2 milhões no Lago Sul, em Brasília. A mudança foi revelada pela coluna na semana passada.

Na entrevista à coluna, o ex-funcionário falou sobre os diversos imóveis que Ana Cristina comprou ao longo do casamento com Jair Bolsonaro. Questionado sobre um apartamento na Barra da Tijuca, Marcelo Nogueira, como é conhecido, contou que ela já não tinha mais o imóvel. "Não, ela já vendeu. Foi com esse dinheiro que ela tá fazendo a casa dela", afirma Nogueira, ao dizer que advogada não alugou a mansão, mas comprou o imóvel com o uso de laranjas. Essa informação foi apontada em reportagem do jornalista Guilherme Amado, do portal Metrópoles. Procurada, ela não retornou.

Uma pesquisa em cartórios do Rio de Janeiro feita pela coluna essa semana identificou que Ana Cristina realmente vendeu o apartamento na Barra da Tijuca em 13 de abril de 2020 por um total de R$ 1,290 milhão. Essa é outra negociação que chama atenção já que ela registrou em cartório a compra desse mesmo apartamento por R$ 420 mil apenas nove meses antes, em 19 de julho de 2019. Com isso, ela obteve três vezes mais que o valor que gastou para comprá-lo. Nesse período, a prefeitura do Rio de Janeiro avaliou o apartamento, para cálculo de impostos, em cerca de R$ 1,2 milhão.

No tempo do casamento, entre 1998 e 2008, Jair Bolsonaro e Ana Cristina compraram 14 imóveis. Desses, cinco foram pagos em dinheiro vivo. Além disso, em ao menos seis casos, as escrituras das negociações foram feitas em cartório com um preço declarado abaixo do que foi usado para calcular o imposto pago sobre a transmissão de bens imóveis, o ITBI — que representa um percentual do valor fiscal do bem, e é obrigatório.

Uma regra instituída em fevereiro de 2020 exige que transações com essas características, compras de imóveis declaradas muito abaixo do valor de avaliação, sejam declaradas pelos cartórios ao Coaf ( Conselho de Controle de Atividades Financeiras) como "movimentação atípica". A determinação da comunicação dos cartórios foi feita pela Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no combate à lavagem de dinheiro a partir de fevereiro do ano passado.

Mudança para a mansão

Ana Cristina e Jair Renan Bolsonaro, o filho '04' de Jair Bolsonaro, moram desde o dia 12 de junho no imóvel que fica a quatro minutos da ponte JK, uma das áreas mais nobres e valorizadas da capital.

A escritura da mansão registra que o imóvel foi comprado no dia 31 de maio por um corretor chamado Geraldo Antônio Machado. Ele vive em uma outra casa modesta a 30 quilômetros do local, num condomínio em Vicente Pires, região administrativa de classe média no Distrito Federal. Na escritura consta que a mansão do Lago Sul foi comprada por R$ 2,9 milhões (cerca de R$ 300 mil abaixo do valor avaliado da residência). Na semana passada, Machado disse ter alugado a mansão para Ana Cristina dias depois da compra porque teve um "problema" em outro negócio. No entanto, segundo Marcelo Nogueira, eles teriam algum contrato de gaveta.

"Ela já estava negociando a casa"

Marcelo Nogueira contou que chegou em Brasília, por um convite de trabalho de Ana Cristina, no dia 28 de maio deste ano. Ela e Jair Renan ainda estavam morando no apartamento de 70 metros quadrados que está no nome do presidente Jair Bolsonaro. "Quando eu cheguei em Brasília, ela já estava negociando esta casa", revela Nogueira. "Ela pegou a chave no dia 6 de junho e se mudou no dia 12", conta.

Depois disso, Nogueira diz que ajudou os dois a se mudar para a mansão e trabalhou dias seguidos. "Eu ajudei a fazer a mudança. Recebi a mudança de Resende. Eu que montei a casa toda. Sozinho", conta ele.

A casa no Lago Sul estava à venda até dias antes da mudança de Ana Cristina e Jair Renan. A coluna apurou que casas com tamanho próximo à de Ana Cristina estão sendo alugadas na mesma quadra por cerca de R$ 15 mil. A advogada, que é assessora da deputada federal Celina Leão (PP-DF), possui um salário líquido de R$ 6.200. O imóvel possui um terreno de 1.200 metros quadrados e cerca e de 800 metros quadrados de área construída em dois pisos. Ainda tem quatro suítes. Piscina de 50 metros e outros requintes.

Sigilo quebrado

Ana Cristina atualmente é investigada com outros parentes devido ao tempo em que foi chefe de gabinete do vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) entre 2001 e 2008. O MP-RJ apura as denúncias de existência de rachadinha e funcionários fantasmas no gabinete do filho "02" do presidente. Em maio, o TJ-RJ autorizou a quebra de sigilo de Carlos Bolsonaro e de Ana Cristina, além de outras 25 pessoas.

Marcelo Nogueira conta ainda que foi convidado por ela para ser assessor de Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) entre 2003 e 2007. Nesse período, ele era obrigado a devolver mensalmente 80% de seu salário nas mãos dela em dinheiro vivo.

Em junho, o podcast "UOL Investiga - A vida secreta de Jair" mostrou a fisiculturista Andrea Siqueira Valle, irmã de Ana Cristina, admitindo que devolvia 90% do salário e que Jair Bolsonaro demitiu um irmão das duas chamado André Valle porque ele não concordou em devolver o que recebia como assessor do gabinete do então deputado federal, hoje presidente da República.