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Hang é convocado por CPI, e Aziz marca depoimento para próxima quarta

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

23/09/2021 10h36Atualizada em 23/09/2021 13h03

A CPI da Covid aprovou hoje requerimento de convocação do empresário Luciano Hang, dono da varejista Havan. O empreendedor é apoiador declarado do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e defensor contumaz das pautas e interesses do chefe do governo federal.

Segundo o presidente do colegiado, senador Omar Aziz (PSD-AM), a oitiva será realizada na próxima quarta-feira (29), às 10h.

Os congressistas também aprovaram a convocação da advogada Bruna Morato, que atua em favor de médicos e ex-médicos da operadora de saúde Prevent Senior. Os profissionais entregaram à CPI um dossiê com denúncias. De acordo com o documento, a empresa utilizou, sem consentimento, seus pacientes para realizar um suposto estudo com o intuito de fundamentar o uso do chamado "kit covid" (medicamentos sem eficácia no tratamento da doença).

Desde o ano passado, de acordo com a CPI, Hang fez declarações favoráveis ao uso desses remédios, como a hidroxicloroquina, ivermectina e outros. O empresário foi identificado ao longo da apuração do colegiado como membro do chamado "gabinete paralelo".

O gabinete paralelo seria uma estrutura de assessoramento informal ao Palácio do Planalto, formado por personagens sem vínculo com o Ministério da Saúde e sem respaldo da comunidade científica.

O grupo teria sido responsável, afirmam senadores da comissão, por realizar estudos e coletar material com o intuito de balizar teorias defendidas pelo presidente Bolsonaro, como o uso de medicamentos, a tese de imunização de rebanho, entre outras.

Em nota divulgada após a convocação, Hang disse que "será um prazer estar presente e falar de todo o trabalho que nós fizemos, visando ajudar no enfrentamento da pandemia, buscando auxiliar na saúde do povo brasileiro e também na economia".

"Desde o princípio falamos que era preciso cuidar da saúde, sem descuidar da economia. Estou totalmente à disposição para esclarecer qualquer questionamento", acrescentou.

Empresário se defende e ataca CPI

Ontem (23), Hang foi mencionado por diversas vezes durante o depoimento à CPI do diretor da operadora de saúde Prevent Senior, Pedro Batista Júnior. Isso porque, após ser contaminada pela covid, a mãe do empresário foi hospitalizada em uma unidade da rede, em São Paulo. Ela acabou morrendo em virtude de complicações da doença.

Também ontem, reportagem do jornal O Estado de S. Paulo afirmou que 15 médicos que dizem ter trabalhado para a Prevent Senior entregaram um dossiê à comissão do Senado, apontando que a declaração de óbito da mãe de Hang, Regina Modesti Hang, foi fraudada.

Após a repercussão, Hang disse ter "total confiança nos procedimentos adotados pela Prevent Senior" e afirmou que nunca ocultou o motivo da morte da mãe e que o episódio está sendo usado como "artifício político" pela CPI da Covid.

Regina morreu aos 82 anos em fevereiro de 2021 após ser internada com covid-19, mas o prontuário médico dizia que a morte foi em decorrência de uma pneumonia bacteriana, de acordo com o Estadão.

Na nota divulgada hoje, após a repercussão do caso, Hang afirma que a "covid passou, mas ficaram as complicações por conta das comorbidades e, por isso, infelizmente ela se foi".

"Tenho total confiança nos procedimentos adotados pelo Prevent Senior e que tudo que era possível foi feito. Deixei claro a causa do falecimento de minha mãe em várias manifestações públicas e nas redes sociais, nunca foi segredo", disse ele na nota divulgada hoje à noite.

Em fevereiro, Hang lamentou a perda da mãe. "A dor de perder uma mãe é inexplicável, é um buraco enorme que se abre no peito, mas logo será preenchido por saudades e boas lembranças dos momentos únicos que compartilhamos juntos", disse Luciano Hang em postagem no Instagram, após agradecer a todos os profissionais que estiveram com Regina nos últimos dias.

No fim de janeiro, o empresário bolsonarista afirmou que ela chegou a ficar com 95% do pulmão comprometido.

Hang nega uso do kit covid

Hang negou ainda que a mãe teria recebido os medicamentos do chamado "kit covid" preventivamente.

"Ela era cardíaca, tinha diabetes, insuficiência renal, sobrepeso e outras comorbidades. Tomava dezenas de medicamentos diariamente, por isso não fizemos tratamento preventivo, aquele realizado antes de contrair o vírus."

De acordo com a reportagem do Estadão, o dossiê indica que "o prontuário médico da sra. Regina Hang prova que ela utilizou o kit antes de ser internada e que repetiu o tratamento durante a internação, assim como registram que seu filho, sr Luciano Hang, tinha ciência dos fatos".

Hang é apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Após a morte da mãe, ele publicou um vídeo em suas redes sociais em que dizia lamentar que a mãe não tivesse recebido o tratamento precoce.

A gravação foi exibida mais cedo em sessão da CPI. O relator, o senador Renan Calheiros (MDB-AL) classificou o comportamento do empresário como "macabro" e "repugnante".

Hang criticou membros da CPI da Covid, sem citar nomes. "Lamento que um assunto tão delicado seja usado como artifício político para me atingir, pelo simples fato de eu não concordar com as ideias de alguns membros que fazem parte dessa CPI."

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.