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Recusas, dossiê e ida à CPI: defesa de médicos expõe guerra com Prevent

Fachada do prédio do Hospital Sancta Maggiore Dubai, em São Paulo, que pertence à rede da Prevent Senior - Andre Ribeiro/Futura Press/Folha
Fachada do prédio do Hospital Sancta Maggiore Dubai, em São Paulo, que pertence à rede da Prevent Senior Imagem: Andre Ribeiro/Futura Press/Folha

Luciana Amaral e Hanrrikson de Andrade

Do UOL, em Brasília

28/09/2021 04h00

Antes de o dossiê com uma série de denúncias contra a Prevent Senior chegar às mãos de senadores da CPI da Covid, o grupo de 12 médicos insatisfeitos com atitudes da operadora de saúde em que trabalham ou trabalhavam tentou chegar a um acordo para que a empresa reconhecesse o que enxergam como erros ao longo da pandemia.

No entanto, a Prevent teria recusado a aproximação e, por isso, o grupo recorreu à Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado, segundo afirmou ao UOL a advogada do grupo, Bruna Morato.

Hoje, a CPI fecha o cerco às suspeitas de irregularidades nos hospitais da Prevent com o depoimento da advogada, a partir das 10h. Ela afirma só ter "uma história, que é a verdade".

A oitiva com Bruna expõe um confronto de versões, em especial quanto às circunstâncias que envolvem a elaboração do dossiê, o encaminhamento das denúncias aos senadores e a tentativa de um acordo entre as partes.

A Prevent nega o teor das acusações, as quais define como "sistemáticas e mentirosas", e confirma que houve contato prévio por parte dos médicos antes de o caso chegar à CPI. No entanto, para a empresa, o que ocorreu foi uma tentativa de chantagem.

Bruna informou ao UOL que os médicos fizeram denúncias internas na Prevent e a empresa foi procurada em julho deste ano. As conversas, segundo ela, ocorreram, sobretudo, por meio de conversas por mensagens de celular com a coordenadora do departamento jurídico da Prevent.

Para a advogada dos médicos, a Prevent "sabia das irregularidades, dos pedidos", mas houve "menosprezo".

"Como a Prevent Senior não cedeu aos pedidos, informei, antes de apresentar a denúncia [aos senadores], que as irregularidades seriam apresentadas para a CPI, porque elas precisavam ser averiguadas para que os médicos lá na frente não fossem indevidamente responsabilizados por aquilo que não fizeram", explicou. "Em nenhum momento escondi nada da Prevent."

O dossiê entregue a senadores, ao qual o UOL teve acesso, é datado de 31 de agosto deste ano. A reportagem apurou que senadores da CPI tiveram reuniões remotas com os médicos envolvidos na montagem do dossiê para obter mais detalhes e confirmar a existência deles.

Já na opinião da Prevent, "estranhamente", Bruna insinuou que "as denúncias não seriam encaminhadas à CPI se um acordo fosse celebrado".

Por isso, segundo nota enviada na semana passada, a empresa informou que "tomará todas as medidas judiciais cabíveis para esclarecer os fatos e reparar os danos a sua imagem".

Procurada ontem pelo UOL, a operadora não se manifestou.

Bruna Morato negou que o acordo procurado pelos médicos junto à Prevent Senior envolvesse dinheiro. Segundo ela, a intenção era que a empresa reconhecesse dois pontos relativos a ações tomadas, como o estímulo ao chamado kit covid, e ajudasse os profissionais em eventuais processos que sofressem por conta do trabalho realizado na rede. Ou seja, os médicos também querem se defender de eventuais acusações de má conduta ética.

"Eles queriam que a operadora assumisse a responsabilidade pelo protocolo adotado, pela divulgação da pesquisa [com o kit covid], já que [a Prevent] disse que havia sido conclusiva, e, depois, que assumisse a responsabilidade por eventuais processos que [os médicos] viessem a sofrer. [...] Caso a Prevent assumisse, não haveria motivo para encaminhar a denúncia à CPI da Covid, porque assumiria responsabilidades, os testes acabariam e esses profissionais poderiam ter um pouco de paz", afirmou.

Um exemplar do chamado kit covid distribuído pela Prevent Senior, segundo profissionais que denunciam a empresa por supostas irregularidades. Ele seria composto por azitromicina (antibiótico), ivermectina (antiparasitário), hidroxicloroquina, corticoide, vitaminas e suplemento alimentar de proteína em pó - Reprodução - Reprodução
Um exemplar do chamado kit covid distribuído pela Prevent Senior, segundo profissionais que denunciam a empresa por supostas irregularidades. Ele seria composto por azitromicina (antibiótico), ivermectina (antiparasitário), hidroxicloroquina, corticoide, vitaminas e suplemento alimentar de proteína em pó
Imagem: Reprodução

Bruna alega que os médicos não tinham autonomia para trabalhar dentro da rede de atendimento da Prevent, "tanto que os kits covid vinham fechados".

Segundo a advogada, havia instrução pronta para uso dos remédios e os médicos tinham que entregar esses kits lacrados aos pacientes. Portanto, não poderiam retirar algum medicamento com o qual não concordavam com o uso.

Em depoimento à CPI, na quarta-feira (22), o diretor-executivo da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, chamou o dossiê dos médicos de "peça de horror" e afirmou que o "modelo" de atuação dos denunciantes "chama a atenção", pois os "acusadores nunca levaram os dados à Justiça".

"Sempre tentaram ferir a imagem da Prevent Senior na imprensa com denúncias anônimas e, posteriormente, buscavam contatos com o nosso setor jurídico para firmar acordos", disse ele, dando a entender que teria ocorrido a suposta chantagem.

Possível retaliação

Do grupo de 12 médicos que ajudaram a montar o dossiê entregue à CPI, 6 estão na empresa e outros 6 já saíram — 5 deles foram demitidos e um outro pediu demissão —, disse Bruna. A advogada relatou que a Prevent demitiu alguns depois que as denúncias se tornaram públicas.

Ela ainda afirmou que os médicos estão com medo de se revelar publicamente por estarem acuados e preocupados com o futuro profissional.

"Esses médicos não são chantagistas, não são pessoas do mal. São pessoas muito boas que querem trabalhar e queriam salvar a vida dos pacientes", disse.

No Senado, o diretor da Prevent, Pedro Benedito Batista Júnior, contestou as informações de que tenha ocorrido uma retaliação aos médicos.

"Nenhum médico foi constrangido, uma vez que esses dados e essas imagens de anônimos estão tentando apenas usurpar o nome da empresa e sua idoneidade. Esses médicos foram excluídos da empresa por graves falhas éticas e morais, como invasão de prontuários e tratamento inadequado de pacientes, muitos deles com queixas em compliance."

O diretor da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, negou retaliações e disse que médicos foram demitidos da empresa por "graves falhas éticas e morais, como invasão de prontuários" - Edilson Rodrigues/Agência Senado - Edilson Rodrigues/Agência Senado
22.set.2021 - O diretor da Prevent Senior, Pedro Benedito Batista Júnior, negou retaliações e disse que médicos foram demitidos da empresa por "graves falhas éticas e morais, como invasão de prontuários"
Imagem: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Ao UOL Bruna afirmou que trabalha dando orientação jurídica a médicos vinculados à rede da Prevent Senior desde 2014, mas com poucos casos de judicialização, que teriam acontecido por divergências em relação a demandas trabalhistas antes da pandemia. Portanto, os processos não tinham relação com a atuação médica ou determinações profissionais da Prevent em si.

No entanto, desde o início da pandemia, a advogada afirma que passou a receber relatos que chamou de "muito pavorosos" de médicos sobre o que estava acontecendo nos hospitais da Prevent, como supostas irregularidades relacionadas ao uso de cloroquina. À medida que os depoimentos foram crescendo, ela disse ter buscado entender "o que estava acontecendo".

No início deste ano, segundo ela, um profissional lhe passou uma série de informações que "fez com que tudo o que tinha ouvido antes fizesse sentido a ponto de acreditar nesses médicos, entender essa história e buscar uma solução". Solução, esta, explica, que seria o acordo.

O requerimento de convocação de Bruna Morato à CPI foi apresentado pelo senador Humberto Costa (PT-PE) e aprovado um dia após o depoimento de Pedro Benedito Batista Júnior.

Do que trata o dossiê

O dossiê feito pelos médicos da Prevent e entregue aos senadores da CPI contém uma série de denúncias. Os profissionais acusam a empresa de, alinhada aos interesses do governo federal, implementar um experimento utilizando pacientes de covid-19 como cobaias e com o intuito de promover medicamentos que compõem o chamado kit covid —como hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina e outros que não têm eficácia comprovada para o tratamento da doença.

03. abr. 2020 - Limpeza de leito de UTI em hospital Sancta Maggiore localizado no bairro Paraíso - Avener Prado/UOL - Avener Prado/UOL
03.abr.2020 - Limpeza de leito de UTI em hospital Sancta Maggiore localizado no bairro Paraíso, em São Paulo
Imagem: Avener Prado/UOL

O documento também indica que a Prevent possa ter ocultado óbitos provocados pela covid e ter feito alterações em registros de pacientes. O objetivo seria resguardar um possível resultado positivo do estudo a ser produzido.

Na semana passada, reportagem publicada pelo UOL com base no dossiê mostrou que a direção da Prevent Senior induziu uma competição entre médicos para impulsionar a prescrição do kit covid durante o auge da pandemia, em 2020. Todas as denúncias são contestadas pela operadora de saúde.

Na Prevent, o kit era prescrito a pacientes com sintomas gripais, ainda que sem diagnóstico de covid-19, segundo os médicos que elaboraram o dossiê. Os relatos indicam que a metodologia consistia em prescrever os remédios sem o consentimento dos pacientes.

Além da política de estímulo, a direção fazia cobranças aos médicos quando os resultados não estavam agradando, de acordo com imagens de diálogos da equipe anexadas ao dossiê.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde) e estudos realizados em vários países, não há remédio com eficácia comprovada contra a covid-19. Alguns fármacos, no entanto, são utilizados nos hospitais a fim de amenizar o impacto dos sintomas pós-contaminação, como febre, problemas respiratórios, entre outros.

A CPI da Covid foi criada no Senado após determinação do Supremo. A comissão, formada por 11 senadores (maioria é independente ou de oposição), investiga ações e omissões do governo Bolsonaro na pandemia do coronavírus e repasses federais a estados e municípios. Tem prazo inicial (prorrogável) de 90 dias. Seu relatório final será enviado ao Ministério Público para eventuais criminalizações.