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Em reunião, Doria dá bronca por vídeos de secretários e Garcia é exaltado

Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo
Imagem: Roberto Casimiro/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Marcos Sergio Silva

Do UOL, em São Paulo

25/01/2022 04h00

"Esse vídeo deve ter sido feito pela equipe do Penido. Ô vídeo chato."

A reclamação do governador João Doria (PSDB) tinha alvo: uma gravação de aproximadamente dois minutos apresentada por Fernando Chucre, presidente do Fundo Social de São Paulo. Era um vídeo sobre as obras do Parque da Cidadania, em Heliópolis (zona sul de São Paulo). Marcos Penido, responsável pela pasta de Infraestrutura e Meio Ambiente, embora citado, permaneceu quieto, enquanto os demais participantes continuavam imóveis em uma das cerca de 50 cadeiras ladeadas em um dos salões do Palácio dos Bandeirantes.

Doria liderava aquela que diz ser uma das 150 reuniões de secretariado de seu governo, à qual convidou a reportagem do UOL, na segunda-feira (24). Tirou números para saudar o mais recente encontro: gestões anteriores não haviam feito mais do que 30 reuniões como essa. Gestões tão tucanas quanto a atual.

Ele já havia se irritado com a impossibilidade de voltar ao ponto exato que gostaria de mostrar de uma apresentação do secretário de Esportes, Aildo Ferreira. "Dá para voltar na imagem anterior?", perguntava. "Não dá para acelerar mais esse vídeo? É o fim da picada."

O tucano enfim localizava o motivo da bronca: uma quadra poliesportiva em que cadeirantes disputavam uma partida de basquete. Bastante simples, tinha o topo de alvenaria, mas sem pintura. "Vai ter que reformar. Não é padrão do governo do estado de São Paulo."

Viu duas imagens de banheiros, bastante sujos, na Vila Olímpica Mário Covas em um PPT anterior ("O que é isso? É um absurdo") e questionou se havia ar condicionado nas novas instalações do complexo Baby Barioni, na Água Branca (zona oeste de São Paulo). "Tem certeza?", perguntou ao secretário, que, acanhado, não soube responder.

Esse estilo tem sido capitalizado pela campanha presidencial de Doria desde antes das prévias de novembro, quando venceu o governador gaúcho Eduardo Leite pela pré-candidatura do PSDB. No vídeo distribuído na época, Doria era definido como "um cara chato no comando".

"Tô até com medo de passar o vídeo", emendava um ressabiado Itamar Borges, secretário da Agricultura e Abastecimento. Mas a resposta de Doria foi outra: "Esse sim é um bom vídeo!"

Afagos a Garcia

Enquanto distribuía comentários às ações dos secretários, o governador aproveitava para empoderar ainda mais seu vice, Rodrigo Garcia (PSDB), pré-candidato ao governo de São Paulo —e que deve ocupar a cadeira de Doria caso saia mesmo como postulante à Presidência da República.

"Rodrigo é nosso CEO, responsável pelas nossas ações de governo. Nosso governo funciona como uma empresa privada", diz, ao apresentar a fala de seu vice na reunião —a quarta naquela manhã, depois dos secretários da Saúde, Jean Gorintchteyn; da Fazenda e Planejamento, Henrique Meirelles; e do Orçamento e Gestão, Nelson Baeta.

O Garcia da reunião é um contador de casos, como a anedota do frequentador do Bom Prato de Carapicuíba (Grande São Paulo) que ficava em dúvida entre passar calor na unidade ou frio, com o recém-instalado ar condicionado no local. É recepcionado por discursos dos presentes que se referem a ele como o "novo governador".

"Quero saudar nosso próximo governador Rodrigo Garcia e seu conhecimento da máquina pública. O estado de São Paulo tem o melhor gestor público do país, Rodrigo Garcia", afirmava Ivan Lima, da Centro de Equidade Racial. Doria, que sempre se apresenta como o "gestor", apenas ouviu.

Lima, que é negro, era uma exceção naquela mesa, essencialmente branca. Dos 50 presentes, cerca de 10% eram negros. Mesmo assim, Doria usou o discurso da inclusão. "Este é o governo de todos. Aqui ninguém é colocado de cantinho."

Alckmin, o opositor

A desincompatibilização de Doria, prevista para abril deste ano, também impõe prazos.

Quando Chucre apresenta o Parque da Cidadania de Heliópolis com prazo de entrega para março, ainda sem as obras de construção civil, o governador exige uma data. Sai com o dia 31 prometido pelo presidente do Fundo Social.

Quando obras ainda em fase de licitação são apresentadas (o que impossibilita possíveis adiantamentos), diz ser preciso pensar também na continuidade —um desvio no padrão de um governador que ainda guarda motes da campanha municipal em 2016 (repete sempre o verbo "acelerar", slogan daquele ano).

A apresentação que segue, em PowerPoint, mostra 30 obras que estavam paradas no início da gestão do governador —segundo ele, 29 foram retomadas e faltava apenas uma, o trecho norte do Rodoanel, cuja licitação foi lançada nesta semana.

Doria é sucessor de uma linhagem de seis mandatos consecutivos do PSDB em São Paulo, interrompidos pelos breves meses de Claudio Lembo (hoje no PSD), em 2006, e de Marcio França (PSB), em 2018. Foi içado à política por um desses tucanos, Geraldo Alckmin, que já assinou sua carta de desfiliação e hoje é visto mais como um parceiro de chapa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) do que um aliado de Doria em outubro deste ano.

Se havia dúvida, já não há: Alckmin agora é o outro lado, o que deixou de entregar as obras elencadas na reunião.

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