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Não é só microcefalia, zika pode estar associada a mais lesões neurológicas

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

04/02/2016 17h14

Os efeitos do vírus da zika em bebês ainda intrigam cientistas, mas evidências apontam que a microcefalia pode ser apenas um dos danos neurológicos da síndrome fetal associada a zika.  

Hoje, o principal problema investigado são as crianças que nascem com 32 cm ou menos de perímetro cefálico, e que são notificadas como suspeita de microcefalia. A partir daí, passam por exames de imagem e consultas com médicos para confirmação ou descarte de problemas neurológicos. Até o início da semana, eram 3.852 casos de suspeita investigados, além de 462 bebês com microcefalia ou síndromes neurológicas confirmadas. 

Segundo o professor de infectologia da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo, Marcos Boulos, há outros tipos de lesões neurológicas --normalmente oculares e auditivas-- que acometem crianças que nascem com a cabeça de tamanho considerado normal.

Marcos Boulos - Cecilia Bastos/Jornal da USP - Cecilia Bastos/Jornal da USP
Boulos afirma que há outras lesões neurológicas que acometem bebês que nascem com a cabeça com tamanho normal
Imagem: Cecilia Bastos/Jornal da USP

“O que se sabe é que pessoas que têm o crânio normal podem ter lesões cerebrais, sim! Existem vários tipos de problemas que não estão associados obrigatoriamente à microcefalia”, diz. “Você pode falar que é uma síndrome específica da zika que dá microcefalia. Mas a síndrome da zika pode dar muitas coisas, entre elas a microcefalia, que pode estar dentro de uma síndrome maior”, completa.

As evidências, conta Boulos, estão sendo relatadas por especialistas de outro país que já convive com a zika há mais anos. E os problemas podem passar despercebidos por anos, caso a criança não passe por exames especializados.

“Na Polinésia Francesa, onde teve uma epidemia há um tempo, eles acompanharam crianças geradas naquela época e viram que várias delas tiveram diminuição do entendimento, diminuição da produção escolar. E só perceberam agora. Quando viram os casos no Brasil, foram buscar e descobriram lesões que eles não reconheceram no início”, explica.

O problema já é de conhecimento do Ministério da Saúde, que informou investigar "todos os casos de microcefalia e outras alterações do sistema nervoso central informados pelos Estados e a possível relação com o vírus zika e outras infecções congênitas."

Na segunda-feira (1°), o secretário de Saúde de São Paulo, David Uip, também se referiu à síndrome ligada ao vírus da zika ao falar sobre os casos investigados no Estado. 

As lesões

Segundo Marcos Boulos, as lesões do vírus muitas vezes só são percebidas quando causam a diminuição da produção escolar das crianças. Nem sempre é simples notar problemas em recém-nascidos com crânio em tamanho normal.

“Se for mãe de primeira viagem é difícil. Você pode comparar com outras crianças: Se você bate palma e ela não vira, se não consegue ver. O mais comum é isso, e indica que pode estar com lesão. O ideal é que mãe que sabe que teve zika na gestação procure os especialistas para seguir o protocolo [de crianças com microcefalia, que inclui exames de imagem e consultas com médicos especialistas]. E aí vão analisar, se fará todos os exames para saber se tem algum tipo de lesão”, diz

Ele explicou que ainda não há investigação de bebês de todas as mulheres que tiveram zika em São Paulo porque não existe disponível o exame de sorologia --o teste que existe hoje é o PCR, que detecta o vírus no material genético apenas em sua fase aguda.

“Eu diria que a história do vírus zika para o nosso conhecimento está iniciando agora com os testes de sorologia que estão chegando no laboratório Adolfo Lutz. Vamos agora saber o tamanho do problema que temos. A nossa convicção é de que em 14 dias tenhamos testes para as pessoas suspeitas. Nós vamos poder fazer nas crianças –-o que até agora não poderíamos porque dava negativo”, pontua.

Também com a sorologia, Boulos diz que a investigação deve se ampliar para todos os bebês de mães suspeitas de zika, independentemente do tamanho do perímetro cefálico. “Muito provavelmente várias pessoas que tiveram zika tiveram bebês que não tiveram microcefalia. Vamos saber agora.”