Primeiros testes de "pílula do câncer" são pouco animadores, dizem médicos

Lucas Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

  • Cecília Bastos/USP Imagens

Nesta semana, foi divulgado o primeiro teste com animais que conseguiu detectar algum tipo de eficácia da fosfoetanolamina, a "pílula do câncer", na redução de tumores em cobaias. Até então, os experimentos com animais apontavam para nenhuma ação da substância contra tumores. Especialistas, contudo, avaliam que os resultados obtidos até agora não justificariam a aposta na droga como remédio.

O teste elaborado pelo CIEnP (Centro de Inovação e Ensaios Pré-Clínico) detectou que doses de 500 mg/kg de fosfo em camundongos com melanoma, um tipo de câncer de pele comum, foram suficientes para reduzir o tamanho do tumor em 34%. Contudo, outra substância, a cisplatina, teve resultados muito mais satisfatórios: 68% do tumor regrediram após o tratamento.

Segundo especialistas, a própria cisplatina já é considerada uma substância pouco eficiente contra o melanoma em humanos. E o teste do CIEnP evidencia que a fosfoetanolamina seria menos eficiente que ela em cobaias --a efetividade em animais muitas vezes não é a mesma que em humanos.

"A cisplatina não é uma substância que a gente utiliza no dia a dia para o tratamento de melanoma", afirma Rafael Schmerling, oncologista clínico da Beneficência Portuguesa de São Paulo. "Em laboratório ela pode ser interessante, mas em humanos é pouco eficaz."

O médico comenta que já existem substâncias atualmente, como a vemurafenib e a cobimetinib combinadas, que conseguem fazer com que 70% dos pacientes tenham reduções consideráveis no tumor de melanoma. 

"A fosfo mostrou alguma eficácia, mas foi pior que uma substância que já é ruim para melanoma", comenta Gustavo Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica.

Resultados pouco significativos

Outro teste feito pelo Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento de Medicamentos da Universidade Federal do Ceará avaliou que, apesar de não ser tóxica, a "pílula do câncer" não teria nenhuma eficácia no tratamento do câncer.

Em março, um terceiro relatório do grupo de estudo já indicava que a pílula não tinha efeitos contra o câncer em células em laboratório. Na época, defensores do composto diziam que ele agia no metabolismo de um organismo vivo e, por isso, não teria efeito in vitro.

Para Fernandes, os resultados obtidos até agora não justificariam a continuidade das pesquisas. "Se você desse esses dados para um pesquisador de câncer da Inglaterra, por exemplo, e perguntasse se valeria a pena investir na pesquisa, ele diria que não. Em qualquer lugar do mundo esse assunto estaria encerrado", avalia.

Contudo, o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia acredita que é necessário finalizar os estudos clínicos no Brasil por conta do clamor popular. "Não basta ser honesto, tem que parecer. Está em jogo a credibilidade do sistema, da medicina, do ministério, da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. É preciso ir até o final dos testes."

Pressão da sociedade

A "pílula do câncer", desenvolvida pelo Instituto de Química da USP (Universidade de São Paulo), em São Carlos, foi usada por cerca de 20 anos sem nunca ter sido testada. Ela era distribuída gratuitamente para pessoas interessadas pela equipe coordenada pelo professor aposentado Gilberto Chierice.

Após diversos protestos e decisões judiciais, uma lei foi aprovada pelo Congresso Nacional permitindo a comercialização e uso da substância mesmo sem registro da Anvisa. Ela foi sancionada pela presidente afastada, Dilma Rousseff. Contudo, o STF (Supremo Tribunal Federal), em decisão liminar, suspendeu a lei.

Enquanto isso, um grupo de trabalho criado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação pesquisa a eficácia da substância contra o câncer. Um laboratório de São Paulo já foi autorizado a produzir a fosfoetanolamina sintética para análises clínicas experimentais.

"A pressão em testar a substância em humanos não é da comunidade científica, é do anseio popular. Todas as drogas precisam ser testadas em células de laboratório para depois serem em humanos. E aí, as pessoas verão como é frustrante, porque em laboratório a droga pode até ter resultados interessantes, mas depois, nos testes em humanos, podem não ter mais", analisa Rafael Schmerling.

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