Rio vive caos em hospitais com falta de médicos e cirurgias sem data

Carolina Farias

Colaboração para o UOL, no Rio

  • José Lucena/Futurapress/Estadão Conteúdo

    Emergência do Hospital Federal de Bonsucesso tinha apenas um médico na última terça

    Emergência do Hospital Federal de Bonsucesso tinha apenas um médico na última terça

A dor nas pernas faz a auxiliar de escritório Iná Mendes, 57, andar com dificuldade. Há sete anos ela teve uma hemorragia nas varizes das pernas que causa dor e incômodo. Paciente há cinco anos do Hospital Federal de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, ela ouviu do médico semana passada que está apta para fazer a cirurgia, mas não sabe quando vai conseguir.

A unidade, referência em cirurgia vascular de média e alta complexidade, tinha fila própria para cirurgias, mas vai mudar de especialidade. Seus pacientes serão remanejados para outra unidade e irão para uma fila única com todo Estado, por conta de uma reestruturação dos hospitais federais proposta pelo Ministério da Saúde na semana passada.

A rede federal tem seis hospitais e três institutos de referência no Rio de Janeiro. Os hospitais são responsáveis por cerca de um milhão de atendimentos anualmente, entre consultas, emergência e cirurgias. No entanto, os últimos meses foram marcados por denúncias do Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Rio) sobre a falta de médicos, de insumos e a superlotação.

O Ministério da Saúde já anunciou que não renovará contratos temporários --um quarto dos profissionais de saúde dos hospitais (3.226) é terceirizado

Em meio à crise, a pasta contratou ainda consultoria do Hospital Sírio-Libanês e anunciou que tornará os hospitais unidades especializadas para ampliar em 20% o atendimento em oncologia, ortopedia e cardiologia. 

Marcello Casal Jr./Arquivo/Agência Brasil
Em abril, o Cremerj encontrou 53 pacientes internados em Bonsucesso, mais que o dobro da capacidade estabelecida em acordo com o MPF

Espera incerta por cirurgia

Com a mudança, os pacientes vasculares do Hospital de Ipanema passarão a ser atendidos no Hospital Federal da Lagoa, também na zona sul. O governo alega que a unidade de Ipanema faz seis cirurgias por semana e 25 atendimentos ambulatoriais por médico por semana e que na Lagoa se faz mais com uma equipe similar.

Farei um exame de risco cirúrgico dia 14 de agosto, com o cardiologista, e uma consulta dia 26 e ia marcar a operação. Mas não sei mais como vou ficar. Agora que consegui, vem a notícia que o governo cancela a clínica vascular. Como a gente fica?"

Iná Mendes, que mora em Magé (a 70 km do Rio)

"Não tenho convênio. Se eu for para o fim da fila vou perder as esperanças", disse a paciente.

O chefe da cirurgia vascular de Ipanema, o cirurgião Felipe Murad, rebate o argumento do governo federal. "As cirurgias são proporcionais ao número de médicos, enfermeiras e salas cirúrgicas. Me dá salas que damos mais números de cirurgias. Uma cirurgia de alta complexidade pode levar o dia todo. Na Lagoa só operam quatro dias da semana, vão levar mais salas para lá?", questiona o cirurgião, que está na unidade de Ipanema há oito anos.

Ele alega que a medida é danosa aos pacientes e não é para melhorar o atendimento, mas para fazer economia.

"É uma tentativa de mascarar a coisa real, que é economia e desassistência da população. Eu tenho seis médicos na equipe e perdi um porque não renovaram o contrato. Em agosto e setembro são mais dois que terão contrato vencido. Não sabemos para qual unidade a equipe vai", afirmou Murad.

Paulo Carneiro/Agência O Dia/Estadão Conteúdo
Funcionários do Hospital de Andaraí prostestaram no dia 29 contra a reestruturação

Redução de médicos

A não renovação de contratos com médicos afeta também a população que depende do setor de emergência do Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte. Por conta da proximidade com a avenida Brasil, artéria que corta a zona norte até a região oeste carioca, a unidade recebe moradores de todas as áreas da cidade e da Baixada Fluminense.

Na semana passada, somente um médico atendia na emergência do Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio. A reportagem esteve na terça-feira (27) na unidade e ouviu das recepcionistas que os pacientes procurassem outras unidades porque o único médico do plantão daria prioridade aos internados na enfermaria do setor.

Quem optou por esperar lotou a sala de espera do serviço pela manhã. Elpídia Moura Sayão, 98, era uma delas. Portadora de Alzheimer e com sangramento intestinal, ela esperou mais de uma hora por atendimento.

"Não tem médico e ela está sentindo muita dor. Temos que esperar", disse Sandra Sayão, antes de a mãe ser atendida.

No dia anterior, um paciente diabético, que estava com dores na região dos dedos amputados dos pés, esperou seis horas para ser atendido e ficou internado.

Mesmo reclamando de muita dor, ele só foi atendido às 13h e chegou às 7h. Ele pediu para almoçar porque às 15h estava com muita fome. Recebeu pão, água e suco de laranja." 

Acompanhante do paciente, que não quis se identificar

A situação leva apreensão àqueles que precisam da emergência do hospital, como é o caso de Rosemeire Cruz, filha de Alzemira Vicenzo da Cruz, 80, que sempre recorre ao atendimento por conta de seu debilitado estado de saúde.

"Minha mãe tem problemas sérios nos rins e teve um AVC. Não podemos ficar sem essa emergência", afirma Rosemeire, que mora com a mãe em Duque de Caxias, na Baixada.

Segundo Ministério da Saúde, o setor de emergência do hospital em Bonsucesso atendeu 17.841 pessoas ano passado. O órgão não explica porque a emergência está somente com um profissional de plantão.

Um dos motivos de os hospitais federais em Bonsucesso, de Ipanema e outros serem procurados é a qualidade no atendimento, ressaltada pelos pacientes.

"Fiz a cirurgia oftalmológica aqui e foi ótima. Os médicos e equipamentos são bons. A gente vê que faltam algumas coisas, mas eles fazem o que podem", disse uma paciente que não quis se identificar.

Sucateamento e falta de materiais

A falta de insumos e condições de trabalho nos hospitais federais são as principais queixas das entidades das classes de médicos e servidores.

"Um tomógrafo não funciona e outro está parado há seis meses. Falta medicamento para quimioterapia nessa unidade e na de Andaraí. Aí vem o ministério falar em redefinição?", exclamou o presidente do Cremerj (Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro), Nelson Nahon.

Segundo ele, os problemas dos hospitais federais passam pela falta de investimentos no setor.

"Ano passado, pedimos ao ministro (Ricardo Bastos) um gabinete de crise e ele recusou. Tem que haver dinheiro novo e ele disse que não terá. Aí em maio ele apresenta o Sírio Libanês e diz que a situação foi levantada em 15 dias. A realidade é diminuir custos reduzindo atendimento. Quem está pagando é a população desassistida e os profissionais de saúde que vivem pressões e estresse", desabafou Nahon.

A situação é ainda agravada por conta da precarização da rede estadual de saúde. O hospital estadual Pedro Ernesto reduziu os leitos de internações em junho. Em situação normal são 512 leitos, aproximadamente 150 mil atendimentos ambulatoriais entre consultas e exames e 2.000 cirurgias por mês. Por conta da crise, atualmente há apenas 200 leitos em funcionamento e, segundo a direção, o número de cirurgias deve cair para entre 70 e 80 ao mês.

"Faltam trabalhadores, medicamentos, funcionários, não abrem concurso e dizem que os hospitais não são eficientes. Salvamos vidas. Brigamos por saúde e atendimento", afirma Luiz Henrique dos Santos, diretor do Sinsprev-RJ (Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Trabalho e Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro).

Pedro Ladeira/Folhapress
Ministro da Saúde, Ricardo Barros

Ministério nega corte de custos e atendimentos

O Ministério da Saúde nega que tenha reduzido o investimento com os hospitais do Rio de Janeiro.

A previsão de gasto para 2017 com a manutenção e os insumos das unidades é de R$ 673,8 milhões. Em 2015 foram R$ 510,5 milhões e ano passado foram R$ 547,91 milhões. Somente com os salários de funcionários e corpo médico, a estimativa para este ano é de R$ 1 bilhão – o órgão não informou o gasto com RH de anos anteriores.

O ministério afirma que a reestruturação não vai alterar o atendimento já agendado dos pacientes e não vai suspender as cirurgias marcadas. A previsão de migração das filas cirúrgicas dos hospitais para a fila única é de dois meses. Segundo o órgão, as posições nas filas são judicializadas e os pacientes graves não serão prejudicados.

Na próxima quinta-feira (6), o Cremerj vai se reunir com outros conselhos regionais para lançar um manifesto em defesa da saúde pública no Estado.

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