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Sars, gripe aviária e coronavírus: por que a China é berço de epidemias?

Equipe sanitária de Wuhan realiza buscas em mercado de frutos do mar onde um homem que morreu por problemas respiratório fez compras - NOEL CELIS/AFP
Equipe sanitária de Wuhan realiza buscas em mercado de frutos do mar onde um homem que morreu por problemas respiratório fez compras Imagem: NOEL CELIS/AFP

Marcelo Oliveira

Do UOL, em São Paulo

31/01/2020 17h51

Resumo da notícia

  • Além do novo coronavírus, China deu origem aos surtos de gripe aviária e de Sars
  • Doenças se relacionam com vírus que acometem animais e foram transmitidas a humanos
  • Trabalhadores de mercado em que animais vivos são vendidos em Wuhan foram primeiros a ter os sintomas
  • Cenário é o mesmo da epidemia de Sars em 2003

Sars (síndrome respiratória aguda grave) em 2003; gripe aviária em 2005; e, agora, a nova cepa do coronavírus: surtos de repercussão internacional têm a China como berço, segundo pesquisadores, não é por coincidência — nem é de agora.

No século 14, na Idade Média, o país originou uma das mais antigas epidemias bem documentadas da história, a peste bubônica, cuja bactéria era transmitida ao ser humano por pulgas que infestavam ratos e outros roedores.

A doença chegou à Europa em 1343 pela rota da seda. Estima-se que a peste, na época, matou pelo menos 75 milhões de pessoas, cerca de 15% da população mundial estimada na época.

"A China é o país é o que mais contribui para que surjam e se espalhem doenças infecciosas pelo mundo por causa do tamanho de sua população", diz o artigo "Emergência e controle de doenças infecciosas na China", escrito em conjunto por pesquisadores chineses e americanos na revista "The Lancet", a mais renomada publicação sobre pesquisa médica no mundo.

Por quê? Dica: não é só pela grande população

"Além de ser o país mais populoso do mundo, com cerca de 1,4 bilhão de habitantes, há um histórico de fome e de consumo de qualquer tipo de animal, além da criação de animais sempre muito perto ou dentro de casa, principalmente porcos e aves", afirma o médico sanitarista Claudio Maierovitch, da Fiocruz (Fundação Osvaldo Cruz), em Brasília.

Duas grandes epidemias de doenças respiratórias recentes, como a Sars e a gripe aviária têm origem em vírus oriundos de animais. A nova cepa do coronavírus, estima-se, tem relação com morcegos, que podem ter transmitido a doença para outro animal, que enfim transmitiu o vírus para humanos. Mas o ciclo ainda não está fechado.

"No caso atual, já se demonstrou que o novo vírus tem 96% de semelhança com um que infecta morcegos", afirma Maierovitch.

Gato civeta e consumo de outros pratos exóticos

O artigo da "The Lancet" também aponta que o gosto dos chineses por alimentação exótica contribuiu para esses surtos.

As suspeitas sobre o segundo animal na cadeia do surgimento do novo coronavírus recaem sobre a civeta, uma espécie silvestre, chamada também de gato civeta, apesar de não ser um felino e viver em árvores. A espécie é muito apreciada como iguaria no sul da China, onde fica Wuhan, o epicentro da nova epidemia global.

Cobras também foram apontadas como o possível animal hospedeiro do vírus.

Venda de animais vivos

Outro dado que tem chamado a atenção na China é a venda de animais vivos, inclusive silvestres, comercializados em pequenas gaiolas expostas em mercados gigantescos com boxes muito próximos uns aos outros — e, segundo o artigo da "The Lancet", "essa interação de pessoas e animais favorece o surgimento de novas ameaças microbiais".

O artigo explica que, nestes mercados, as pessoas têm contato com a flora microbial dos animais ao comprá-los vivos para criar em casa ou colecioná-los, e também durante o transporte, venda, abate, preparo e consumo.

Maierovitch confirma essa análise.

A proximidade das pessoas com os animais é que faz surgir, com frequência, algum caso humano de gripe por vírus diferentes. Felizmente, na maior parte dos casos, os vírus não ganham capacidade de transmissão entre humanos, mas pode acontecer, como no caso atual
Claudio Maierovitch, sanitarista

Os primeiros humanos a aparecer com os sintomas do novo coronavírus eram trabalhadores e frequentadores do mercado de Wuhan — mais uma coincidência com a Sars, surgida em 2003 em um mercado na cidade de rua em Guangdong.

Pressão popular e nas redes

Segundo o jornal "The New York Times", o governo chinês, após forte pressão da população nas redes sociais, está revendo os regulamentos do comércio de animais vivos, especialmente animais silvestres.

Na rede social Weibo (uma espécie de Facebook chinês), surgiu a campanha #rejectgamemeat (rejeite carne de caça), que teve 45 milhões de visualizações.

Uma das postagens, segundo o jornal norte-americano, foi feita por um apresentador de TV, Jin Sichen, que escreveu: "comer caça não cura a impotência nem confere poderes de cura".

Um mercado de frutos do mar em Wuhan foi fechado para investigações após a morte de um frequentador em virtude do novo coronavírus.

Escaldada pela epidemia de 17 anos atrás, a população deseja medidas mais radicais do que na época da Sars, quando a venda de civetas vivas no mercado foi proibida por alguns meses, mas retomada logo após o fim da epidemia.

A Organização Mundial da Saúde divulgou nesta sexta-feira (31) seu balanço oficial, que aponta 9.826 casos confirmados no mundo, dos quais 9.720 (98,9%) na China. No país asiático há mais 15.238 casos suspeitos, destes, 1.527 são casos graves. Segundo o balanço da OMS, são 213 óbitos, todos na China.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado no texto, a origem do surto do vírus H1N1 em 2009 não ocorreu na China, mas, sim, no México. O erro foi reproduzido pela home-page do UOL. O texto foi corrigido.

Saúde