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PMs dizem que estão 'entregues' ao corona: 'Dói colocar família em risco'

Policial militar vigia orla da praia no Rio de Janeiro - PMERJ / Divulgação
Policial militar vigia orla da praia no Rio de Janeiro Imagem: PMERJ / Divulgação

Maria Luisa de Melo

Colaboração para o UOL, no Rio

31/03/2020 04h00

Com mais de 300 PMs afastados por suspeita de estarem infectados pelo novo coronavírus, a Polícia Militar do Rio de Janeiro não está fornecendo álcool em gel tampouco luvas para que a tropa se previna contra a covid-19, segundo relataram agentes ao UOL. A apreensão aumenta num momento em que uma policial se encontra internada em estado grave e com respirador no Hospital Central da PM, no Estácio.

"Não tem álcool em gel, luva, máscara, não tem nada. A gente vai para rua fazer o nosso trabalho sabendo que pode pegar esse vírus. Mas não tem jeito, temos que trabalhar. Se tivesse pelo menos álcool em gel, já era alguma coisa", reclama um praça que faz policiamento ostensivo na região metropolitana do Rio.

Outra policial que pediu para não ser identificada diz que o mais difícil para ela é colocar sua família em risco toda vez que volta de um plantão. O quadro traz à tona a dificuldade de adoção de um isolamento de idosos, defendida pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), nos lares brasileiros.

Tenho uma avó de quase 90 anos que mora comigo. Também tenho contato com a minha sogra que, além de ser idosa, tem hepatite. E a minha filha tem problemas respiratórios. O que mais me dói é colocá-los em risco (...) Sem álcool em gel nem luvas, estamos arriscando não só as nossas vidas, mas também a de nossas famílias

Policial militar

Um policial que atua na região de Niterói conta que comandantes de companhia (subdivisões dos batalhões) compraram álcool em gel por conta própria para os policiais. "Compraram uma quantidade, mas não durou nem uma semana. Saiu do bolso do capitão, mas acabou e a gente continua sem", diz ele. "Quem vai de luva e máscara, faz por conta própria. A corporação não bota um real."

A preocupação da tropa vem crescendo após uma sargento ter sido internada com suspeita de coronavírus. "Sabemos que ela está em estado grave e faz uso de respirador. Ninguém quer passar por isso", completou.

Segundo o infectologista Bruno Scarpellini, o mais importante para quem trabalha na rua, como os PMs, é ter álcool em gel sempre à mão.

"O álcool em gel serve justamente para essa situação de estar na rua sem acesso a água. Neste caso de se ter acesso ao álcool em gel, as luvas nem seriam necessárias. É importante passar o álcool em gel com frequência. Já a máscara é mais recomendada para os pacientes, seguindo as recomendações do Ministério da Saúde e OMS [Organização Mundial de Saúde]", orienta Scarpellini.

O que diz a Polícia Militar

Procurada, a Polícia Militar informou que tem realizado campanhas internas de conscientização sobre o novo coronavírus e que os policiais estão recebendo orientações para se prevenir da doença.

Informam ainda que luvas, máscaras e álcool em gel serão adquiridos, mas não dizem quando.

"Os policiais militares estão sendo orientados, diariamente, a manter as janelas das unidades e viaturas sempre abertas, limpar equipamentos, evitar a aproximação e cumprimentar através da continência, manter, quando possível, a distância de mais de um metro nos atendimentos de ocorrência e lavar e higienizar as mãos com frequência", diz a nota.

"Materiais como luvas, máscaras e álcool em gel estão sendo adquiridos para utilização do efetivo."

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