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Em SP, números de prefeitura, estado e fila de testes de covid-19 não batem

30.mar.2020 - Ciclista utiliza máscara de proteção para o coronavírus na Avenida Paulista, em São Paulo - Fábio Vieira/Fotorua/Estadão Conteúdo
30.mar.2020 - Ciclista utiliza máscara de proteção para o coronavírus na Avenida Paulista, em São Paulo Imagem: Fábio Vieira/Fotorua/Estadão Conteúdo

Luís Adorno

Do UOL, em São Paulo

03/04/2020 04h01

Resumo da notícia

  • Dados de casos confirmados e de mortes na capital são diferentes entre estado e prefeitura
  • MP apura falta de transparência e inicia investigação contra subnotificações
  • Situação se agrava com demora em resultado de exames de confirmação de covid-19

Quantos casos confirmados e quantos suspeitos por covid-19, a doença causada pelo coronavírus, são contabilizados pelas autoridades na maior cidade do país?

A resposta varia em até 85% em função da fonte consultada dentro do poder público e revela que falta calibragem entre estado e município, ambos sob direção do PSDB em São Paulo, em meio à maior pandemia da história recente.

Covid-19: infectados e mortos na cidade de SP segundo 3 pastas na quinta (2)

  • 2.815 infectados e 164 mortos segundo o Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) do governo estadual de SP, às 16h
  • 2.418 infectados e 144 mortos segundo a Secretaria de Saúde, às 16h
  • 1.520 infectados e 165 mortos segundo portal da Secretaria Municipal de Saúde.

Ontem, os números da prefeitura eram menores do que os contabilizados pelo estado para a cidade de São Paulo. Mas nem sempre é assim.

A reportagem havia consultado documentos e páginas mantidas pelas duas esferas governamentais dois dias antes, e a situação era oposta. Em comum apenas a disparidade de dados:

Covid-19: infectados e mortos na cidade de SP na terça (31)

  • Segundo a prefeitura, até 31 de março, a cidade tinha 1.438 casos confirmados e 113 mortes em decorrência da covid-19;
  • Mas o governo do estado, um dia depois, tinha números menores: 1.183 casos confirmados (255 menos) e 89 mortes (24 vidas menos) na capital, conforme consulta à página da Secretaria de Saúde.

Dentro da prefeitura, há discrepância também entre o número de casos considerados suspeitos e o número de exames encaminhados ao Instituto Adolfo Lutz:

  • A prefeitura informou, até 31 de março, 8.274 casos suspeitos;
  • Mas encaminhou, até 31 de março, 11.443 testes de covid-19 -- uma diferença de 3.169 exames cujos pacientes não entraram na estatística de infecções suspeitas de coronavírus na cidade.

Ainda que venham a ser atualizados, os dados discrepantes mostram descompasso estatístico ou ao menos falta de uniformidade nos critérios adotados entre diferentes esferas do poder público.

No Ministério da Saúde, não é feita a divulgação de recorte por município, nem por casos suspeitos — o que não permite verificar se há divergência também no nível federal.

Por que essas diferenças?

A diferença entre exames notificados e encaminhados é admitida pela própria Secretaria Municipal de Saúde em um documento.

"A diferença entre os casos suspeitos notificados e o número de exames aguardando resultado pode ser atribuída à subnotificação", informa o Boletim Covid-19, publicado esta semana.

A lógica é: em alguns casos, os exames foram solicitados, mas o caso não foi notificado nas plataformas digitais. A secretaria elenca razões para que isso tenha acontecido:

  • Mudanças e instabilidade nos sites do Ministério da Saúde;
  • Mudança nos critérios do Ministério da Saúde, que deixou de exigir a notificação de casos não confirmados. João Gabbardo dos Reis, secretário executivo do ministério da Saúde, chegou a afirmar que, com a transmissão comunitária, qualquer brasileiro pode ser um caso suspeito;
  • Dificuldade de diálogo com hospitais particulares, que têm concentrado as mortes pela doença na capital.

Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde disse que os dados que divulga são computados pelos próprios municípios.

Tratar sem confirmação da doença tem consequências

Além dos problemas do ponto de vista de política pública, a demora na confirmação de casos de covid-19 traz consequências para o paciente, afirma o infectologista Natanael Adiwardana, que está tratando diretamente com infectados pelo coronavírus.

"Podemos acabar tratando o paciente por um período mais prolongado do que o necessário e gerar mais efeitos colaterais ou adversos", afirma.

"Em vez de tratar só um vírus ou uma bactéria, muitas vezes tratamos os dois enquanto não temos um diagnóstico confirmado", diz.

Ministério Público cita 'falta de transparência'

Diante dos indícios de subnotificações da covid-19, o Ministério Público de São Paulo abriu uma ação civil pública. A Promotoria citou "falta de transparência na publicização dos dados epidemiológicos da covid-19, como o número de contagiados, o número de suspeitos, o número de mortes".

"O crescimento do contágio no Brasil pode ser ainda mais grave, uma vez que há realização de testagem somente nos casos graves da covid-19, segundo diretriz do Ministério da Saúde", diz o texto da Promotoria de Justiça e de Direitos Humanos - Saúde Pública.

Ainda segundo a Promotoria de São Paulo, "sem realização de testes nos casos leves ou sem sintomas, resulta em subnotificação e prejuízo na adoção de medidas sanitárias de urgência, colocando vidas e o sistema de saúde em risco de colapso".

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